quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da diferença entre falar em público e pregar


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI) 

É preciso distinguir entre música e louvor (vide artigo “da diferença entre música e louvor”, do mesmo autor), então, igualmente é imprescindível que se diferencie o falar em público e o pregar. Obviamente que em ambos os casos boa parte da teoria, especialmente no que tange a oratória e retórica, são mui congruentes e convergentes. Entretanto, o objetivo final de ambas ações são estratosfericamente distantes e por vezes opostos entre si. Ao falar em público espera-se que o que discursa seja capaz de persuadir os ouvintes a algo, e isto se dá pela capacidade individual deste de ser articulado com as palavras, convincente quanto às pressuposições conceituais e carismático junto à plateia. De contra partida, mesmo reconhecendo que as alíneas anteriores são importantes, há algo mais importante: que o pregador seja fiel à Palavra, expondo as Escrituras com simplicidade, humildade e com profundo temor ao Senhor, ainda que isto não venha regado de eloquência ou retórica.

Pregar é falar em público, mas nem todo falar em público é uma exposição bíblica, isto é óbvio. Então, é igualmente óbvio que se atente sobre as características elementares de cada uma destas ações para não confundir os “palcos” e valer-se de pressupostos errados, emporcalhando a mensagem, tornando-a assim impropria. Quando se fala em público a indumentária e a postura do que discursa tem extrema importância no processo de convencimento, mas, de contra partida, na exposição das Escrituras a figura do mensageiro é o menor detalhe, o que importa é a grandiosidade da mensagem, que não depende da beleza estética do mensageiro. Num púlpito a mensagem supera as qualidades e deformidades do mensageiro. A Boa Notícia é completa em si e não precisa de retoques estilizados daqueles que a profere. Alias, é preferível que o pregador/mensageiro não roube a cena, mas saiba elevar os holofotes para A Única Mensagem. O pregador é um coadjuvante, não o ator principal.

Falar em público requer uma boa performance individual, pregar, por mais que aparentemente seja uma só pessoa a discursar no microfone, é no entanto, na verdade, uma ação coletiva de culto e devoção a Deus. A pregação implica em uma continuidade do culto público que se está fazendo, por isto não é um momento solo, desassociado das etapas anteriores e posteriores da liturgia. Por esta mesma razão o púlpito não deve ser monopolizado por apenas uma pessoa, domingo após domingo. A pregação é parte da igreja e, então, deve ser partilhada pela igreja. Púlpito não é lugar para se destacar, mas para continuar a cultuar; não é lugar para performance, mas sim pra servir; não é lugar para ostentação, mas para contrição; não é lugar para aplaudir, mas para se ajoelhar; não é lugar para ver os outros, mas sim para ajudar os outros.

Quando se confundi falar em público com pregar, três coisas acontecem: 1) pregadores (pastores) são venerados – expressões como “este é homem de Deus” são formas sutis de admiração exagerada que incha o ego do pregador, mesmo que despretensiosamente. Pregadores não deveriam ser elogiados por suas pregações, pois é o elogio o principal agente corrosivo da humildade, humildade esta elementar para ser pregador; 2) preocupa-se mais com a embalagem da mensagem do que com o conteúdo – quando começa-se a medir uma pregação pela quantidade de “glórias a Deus” que se escuta da plateia, ou quando começa-se a medir um pregador pelo reboliço que ele traz para a igreja, então, estes pregadores se esquecem que pregação não tem muito haver com popularidade, estratégia ou carisma, mas tem haver, única e exclusivamente, com a manutenção da glória de Deus [que é o conteúdo supremo]; e, 3) elitiza-se o púlpito – no contexto tupiniquim isto é evidente ao ponto de em quase todos os domingos do ano só se vê as mesmas figurinhas nos púlpitos, domingo após domingo. Isto acontece, pois há quem pense, erradamente, que pregação (e louvor) é para os bons.

Pregar é muito mais que falar em público, é parte intrínseca do ser Igreja. Pregação não é para pouco, mas deveria sim ser algo, naturalmente, partilhado por todos aqueles que integram a comunidade. Pregar é ensinar a Palavra, é compartilhar do Reino, é dialogar acerca da fé, é conversar sobre Aquele que mudou nossas vidas. Portanto, insisto, a pregação precisa ser popularizada e assim fugir aos rótulos do falar em público. Quanto mais a igreja coloca a pregação no campo do falar em público, mas distante se torna A mensagem do Carpinteiro, que preferiu discursar em meio às pessoas, com coisas simples, por meio de gente simples (discípulos) e finalizou o ministério terreno convocando: “ide, pregai o Evangelho...” Mc 16:15. Por conseguinte, mesmo que não saiba falar em público, é preciso que se pregue.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 29 de Dezembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

Da diferença entre música e louvor


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI)

É preciso distinguir entre música e louvor. Por mais que em ambos os casos os pressupostos e parte da teoria possam ser congruentes, ruge a necessidade de distingui-los. Da mesma maneira que se distingue entre música e som, ou da distinção entre música e ruído. Louvor é diferente de música. É imperativo que analise a partir do pressuposto de que somos parte da Igreja, e neste contexto as imagens agregam, sintomaticamente, perspectivas antagônicas às figuras seculares. Por mais que numa foto ambos possam ser mui semelhantes,  na essência são abruptamente opostos. A diferença parte do que somos, pois na Igreja, aquele que quiser ganhar, terá que perder (cf. Mt. 10:39); quem tem duas capanga, terá que dar uma (cf. Lc. 3:11); quem é forte, terá que andar com fracos (cf. Rm. 15:1); quem quiser ser o maior, terá que ser o menor (cf. Mt. 23:11), e assim sucessivamente. Então, se a matriz do Reino é inversa, nada mais sensato que admitir que fazer música não é fazer louvor (e vice versa). Esta inversão de conceitos e fundamentos se dá, única e exclusivamente, pelo fato de que no Reino o Rei é um Carpinteiro, e Este se despiu de Sua glória, mostrando que aqui, no Reino, os valores e significados são outros.

Fazer música e fazer louvor tem lá suas similitudes, porem também tem suas inúmeras limitações. No louvor, esperasse que seja congregacional, isto é, que não se assista alguém cantar/tocar, mas que todos os presentes cantem juntos. Diferente de uma apresentação musical, em que se espera o silêncio da planteia para admirar a performance do músico/cantor. Por estar razão, na Igreja, é preciso cantar músicas que as pessoas saibam cantar, o tom da música tem que ser acessível à maioria e os arranjos tem que favorecer a integração dos presentes. Na igreja, assim como numa apresentação musical, é preciso ter técnica e conhecimento teórico-musical. Contudo, na igreja o mais importante não é a volumosidade técnica, mais sim fazer o melhor, dentro do conhecimento técnico que se tem com fins a facilitar o processo exaltação de Deus, por meio da música congregacional. Qualquer atitude que desconecte alguns do todo converge em pavonice e exibicionismo – distintivos inapropriados a simplicidade do Reino.

Numa apresentação musical, o artista já sobe ao palco com noção integral do inicio, desenvolvimento e fim da canção. Neste caso já se sabe que parte vão se repetir e quantas vezes, segue-se um padrão pré-estabelecido para melhor qualidade técnica da apresentação. Entretanto, na Igreja, as canções não estão postas de forma pré-estabelecida, pois as repetições de estrofes, entre outros detalhes musicais, depende da congregação e do intuito da canção no contexto da comunidade em que se está cantando. Na Igreja as músicas do louvor precisam ter vida coletiva. Ou seja, no louvor é preciso ter uma certa flexibilidade e adaptabilidade, pois afinal, o louvor é congregacional. Outro detalhe é a postura do pessoal que está com os microfones, é preciso ter sensatez para não entrar numa pavocine desnecessária com gesticulações e vestimentas que favorecem a performance de alguns ao invés de coletivizar as canções. Estar com o microfone não é motivo de destaque, apenas serve para amplificação sonora e norte da música junto à comunidade. Então, o propósito do microfone é ajudar, não destacar.

No cenário eclesiástico, os ditos “ministros de louvor” (terminologia que precisaria de uma reconfiguração mais adequada à coletividade) confundem os papéis, pois não poucas vezes “esquecem” de cantar e aventuram-se numa pregação inter musical que estes chamam de ministração (porem mais se assemelham a pagação de sapo grupal ou animação de plateia – em ambas as situações, desnecessárias ao que se propõem a Igreja). Neste quesito, o músico secular, numa apresentação musical, é mais adequado, pois geralmente, músicos tocam música (e cantores, cantam) – o que deveria também ser na igreja: que o momento de louvor, seja louvor. É necessário ainda que se critique a capacidade de discurso bíblico-pastoral destes ditos “ministros de louvor”, pois não é exceção ouvir toda sorte de heresia e aberrações igrejeiras oriundos da boca destes “levitas” (designação inapropriada aos músicos de igrejas). Deixar as pessoas em pé ouvindo um papagaio gospel taguarelar é minar as bases do louvor congregacional.

Na igreja, portanto, o que mais importa, para participar do louvor, não é saber tocar/cantar, pois não se está numa audição. O mais importante é que sejamos cristãos. A grande maioria dos que congregam numa Igreja não tem lá muito conhecimento técnico-musical, sendo assim não estão tão preocupados se o violinista conseguiu fazer aquela nota dificílima, ou se o cantor conseguiu fazer aquela nota com exatidão, ou se o tecladista esqueceu uma nota numa momento qualquer, ou coisa do gênero. Na igreja não estamos para avaliar cantores e músicos, estamos para, juntos, adorar o Carpinteiro por meio da música (é válido destacar que o termo adoração não é próprio da música, portanto, pode-se adorar a Deus, inclusive e preferencialmente, sem música). Obviamente, que este discurso não abre brechas para uma completa anarquia musical e desordem técnica, não sejamos extremistas infantis. O que se propõem aqui é que não se esqueça que estamos numa igreja, não num teatro; que estamos num púlpito, não num palco; que estamos entre irmãos, não entre fãs, que estamos servindo a Deus, não os homens; que estamos louvando coletivamente; não cantando para uma coletividade; enfim, que estamos fazendo louvor, não música.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 28 de Novembro de 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aos pastores que não desistiram, ainda...


"Sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo”.
Colossenses 3:24 (NVI)

O presente tempo conseguiu criar um ser religioso que parece ser pastor, tem título de pastor e segue todos os estereótipos de pastor, mas... não é pastor. Estes pseudos-pastores ficam a disseminar teologias de frases de parachoque de caminhão pela cristandade tupiniquim. São amantes da lógica meritocrática: faça o bem e vai dar tudo bem; façam o mal e sofrerá o mal. São oradores vazios, distantes e fantasiosos. Estes se tornaram pastores não por convicção, mas por segundas intenções: quer seja por status, por dinheiro, por orgulho, por malandragem, por mulheres ou qualquer outra coisa que chame a atenção da crentaiada. São estes mesmos que mais contribuem para que os pastores queiram desistir, pois banalizam o ser pastor, e quando fazem isto não emporcalham apenas o título de pastor, mas sim a identidade pastoral. Eis a razão porque várias pessoas não mais querem serem identificadas com a figura do pastor. Tristemente, são os “bons” que cansam, não os maus, pois afinal os maus pastores se dão bem no jogo igrejeiro. E de tanto ver isto, vários pastores preferem desistir.

O próprio título de pastor já é um bom motivo para que alguns queiram desistir. De fato, o título de pastor, para muitos, é uma pavonice desvairada. Valer-se do título de pastor não é valer-se de autoridade, é abusar da autoridade. Pastor é função, e função temporária. Somente no arraial evangélico o título de pastor (ou qualquer outra hierarquia eclesial) é vitalício. Entretanto, só se é pastor por estar pastoreando, não havendo isto, então, não mais é pastor, mesmo que tenha o título. O que torna alguém pastor é o ato de pastorear. Então, ser pastor é ter tempo de validade determinado, e isto não é ruim, é reconhecer que Deus não precisa de highlander’s. O que Deus quer é que façamos o melhor possível no tempo que Ele permitir que pastoremos. A Igreja sobrevive e sobreviverá aos pastores. Entretanto, é preciso diferenciar pastorear com gerenciar, diferenciar pastorear com pregar, diferenciar pastorear com motivar, entre outras variantes temáticas. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que pastorear (diferente do psuedos-pastores) é um convite para o anonimato, invisibilidade e discrição. Ser pastor é entender que somos apenas garçons a servir a comunidade, o dono do Reino já está posto, o Carpinteiro, o Eterno.

Não são apenas os pseudos-pastores que geram desejos de desistência nos pastores, há muita coisa na igreja que faz os pastores querem desistir. Em muitos casos, ser pastor significa comprometer a renda familiar em prol da comunidade, e isto com o tempo desgasta, fadiga e desanima os pastores. Perceber que poucos na comunidade conseguem romper a linha do espetáculo dominical e ombrear assumindo responsabilidades é uma das principais causas que faz com que muitos pastores avaliem suas próprias convicções e pensem em desistir. Tristemente, no Brasil aprendemos uma liturgia muito dependente da figura do pastor, o que em pouco tempo se mostrou pesada e sufocante para muitos destes ministros. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que ao invés de estarem num ambiente de fraternidade, estão numa relação desgastante de cliente e funcionário, relação está que se autêntica na insistência do “pagar” o dizimo, criando uma relação financeira de membresia. Não se pode perder de vista que ser pastor é, antes de qualquer coisa, uma atitude de voluntariado, doação, entrega, altruísmo, mordomia e serviço junto a fraternidade.

As igrejas sem perceberem estão perdendo seus pastores, pouco a pouco estão sendo substituídos, sorrateiramente. Contudo, tal substituição não é natural e nem espontânea, muitos estão sendo “despedidos”, lançados fora na lixeira. Geralmente são os pastores com a idade mais avançada que sofrem de tal tormenta. Infelizmente, em solos tupiniquins nos encantamos com o entusiasmo dos jovens pastores e, então, estupidamente, abandonamos os velhos pastores. Juventude é bom, sem dúvida. Entretanto, sem a sabedoria peculiar aos velhos, se torna precipitação, meninice e vaidade. A igreja deveria ser o habitat natural para que a diversidade dialogasse e como um corpo fosse se ajustando mutuamente. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois com um pouco de percepção de cenário eclesial, facilmente notaria que todo esforço em prol do Reino será disperso, em pouco tempo após a “ausência” do pastor, pouco se lembrariam deste ou dos esforços deste. Antevendo tal depressão pós-pastoreio, muitos preferem desistir do pastoreio e, então, escolhem viver suas próprias vidas, fazendo o que dá, quando dá, do jeito que dá, sem muito se dar. Comprovando tal perspectiva, há estatísticas que apresentam a figura do pastor como uma das principais “carreiras” com morte prematura, entorno de 40 a 50 anos de idade. Então, não há dúvida que ser pastor é desgastante, por isto muitos querem desistir. Ser pastor é um convite a desgastar-se, a semelhança de um milho num ralador.

Aos ler os parágrafos anteriores muitos podem ter tido suas convicções de desistir do pastoreio reconfirmadas. Outros tantos, podem ter tido apenas a certeza que eu suavizei os reais problemas, pois sabem na prática, que ser pastor é mais complexo e muito mais tenso do que as linhas anteriores descreveram. Contudo, para ambos os casos, quero propor uma reflexão para aqueles que não desistiram, ainda... e inicio tal jornada partindo do pressuposto de que o pastoreio é um misto de chamado de Deus e disposição humana. Paulo afirma que “se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja” (1 Tm 3:1), porém o próprio Paulo também afirma que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:13). Ser pastor é algo intencional. Não podemos admitir que pastores sejam a última opção de gente fracassada: não conseguiu ter um profissão, não conseguiu ter seu próprio negócio, não tem emprego... então, se torna pastor. Pastoreio é uma escolha intencional de fé e entrega ao Carpinteiro. Pastoreio é opção não falta de opção.

Ser “homo pastorius” é conviver com a dúvida da desistência, sempre. Contudo, isto não deve ser um limitador do ministério. A dúvida não deveria ser tão demonizada, pois é no campo da dúvida que as certezas se estabelecem. É somente quando nos permitimos indagar nossas próprias convicções é que teremos condição de encontrar respostas. É por meio da incerteza que descobrimos o caminho de descansar em Deus. Por esta razão, nunca saberemos ao certo se é hora de desistir ou de persistir, apenas tomaremos uma das duas decisões. O tempo, com toda imanência de Deus desvelará o caminho. Ser pastor é descobrir-se, dia após dia. Então, é preciso despir do encargo de oraculo dos céus, uma espécie de Hermes ocidental, e reconhecer que não saber o que fazer é reconhecer que pastores também são humanos. Para tanto, é imprescindível admitir que pastores não são “seres” mais próximos de Deus, não tem poder especial, não detém acesso diferenciado aos céus e nem é uma espécie de intermediário divino. Pastor é um convite para se misturar as ovelhas e apontar para o Pastor de nossas almas. Pastor não é um privilegio é uma responsabilidade.

E se algum pastor desistir... ou melhor, se mais alguns pastores desistirem, que estes não sejam estereotipados com a marca da besta gospel. Desistir pode ser a forma mais sublime de reverência que estes pastores encontraram de servir a Deus. Não podemos dicotomizar entre vencedores e perdedores. Quem gosta destas rotulações são pessoas temporais, que não entendem da eternidade, que se engorduram com categorização infantil. Não há pastores vencedores e outros tantos perdedores, somente há pastores. Se não são igrejas que estabelecem pastores, mas sim Deus, então, é Ele quem conduz a jornada de cada um, conforme lhe apraz, inclusive de forma contraditória aos padrões terrenos e eclesiásticos. Sendo assim, pastorear está para além de igrejas. Os pastores não existem para cuidar de igrejas, até podem fazer isto, mas pastores existem para cumprir os designíos do Carpinteiro. Esta missão pastoral pode ser acolhedora, numa igreja; ou solitária, num exilio eclesiástico. Por esta razão, alguns desistiram (ou querem desistir) do pastoreio para não deixarem de ser pastores.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 13 de Outubro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Igreja, curva do rio e desigrejados


“mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé”.
1 Timóteo 1:19 (NVI)

Os movimentos religiosos apresentam, cada qual, sua própria identidade, mesmo reconhecendo que há uma heterogeneidade nas formas de manifestações de cada uma. No Brasil, as três maiores religiões aqui presentes se expõem como: Espiritismo – crença na reencarnação, evolução do espírito e salvação pela caridade; Catolicismo – crença na mariolatria, intermediação dos santos, na autoridade vicária do Papa e valorização da tradição eclesial. Protestantismo – crença... no que mesmo? Se dissermos crença na infalibilidade/inerrância das Escrituras, isto seria questionável pelos papas evangélicos; se dissermos que é centralidade na Bíblia, isto é notoriamente destoante a partir das pregações dominicais; se dissermos crença na salvação apenas por meio de Jesus, isto também é questionável na prática neopentecostal tupiniquim; Além de não se saber hoje o que realmente estamos há protestar; então, sinceramente, não há nada nos evangélicos que os tornam excludentes, como uma espécie de identidade, pois dos pilares evangelicais boa parte das outras religiões igualmente comungam.

A bem da verdade, inúmeras pessoas se tornam evangélicas por não mais serem adeptas à identidade de outras religiões. Se você não acredita em reencarnação, não é lá muito amigável da ideia de mariolatria, então, te resta ser evangélico. Se você não gosta muito de mexer com espíritos e não é apadrinhado por algum santo, então, igualmente, só te resta ser evangélico. Não dá para ser Islâmico, ainda mais nestes tempos de midiatização da demonização ocidental na figura dos mulçumanos. Não dá para ser budista, até porque passividade e contemplação não são adjetivos presentes na modernidade capitalista urbana. Não dá para ser hinduísta, até porque o mundo ocidental está longe demais destas crenças e virtudes. Zoroastrismo, nem pensar. Religiões de adoração ao imperador ou a um rei, simplesmente não tem nada haver com nossa brasileiralidade. Ser da Umbanda ou Quimbanda, entre outras tantas bandas afrodescendentes, já são estereotipadas como religiões demoníacas. Taoísmo, Jainismo, Xintoísmo, Confucionismo... realmente não dá. Então, sinceramente, no Brasil, só resta ser evangélico. Não por opção, mas por falta de opção indenitária. E é ai que entra a curva do rio...

A curva do rio é onde fica preso, engastalhado e emaranhado toda sorte de sujeira que desce rio abaixo. A curva do rio é um depósito de dejetos e lixos que não se afixaram em lugar algum do rio, até encontrar a curva. Neste local é possível descobrir várias coisas não pertencentes ao rio, mas que por alguma razão precedente, desceu rio abaixo ficando aprisionado lá na curva. Assim é a igreja evangélica brasileira (e talvez a igreja evangélica no mundo), uma igreja que abarca tudo aquilo que não se encaixa em outras religiões. Se você não se atrelou a nenhuma outra religião ao longo da sua descida rio abaixo, é bem provável que você fique aqui, na igreja evangélica. Portanto, sem nenhuma ironia, a igreja evangélica se tornou a curva do rio. Lá tem toda sorte de tranqueira: tem gente meio espiritualizada (diferente de espiritual), mas que não quer ser espírita; tem gente com fortes tradições católicas, mas que não quer ser católico; tem gente com potencial para ser fanático, tipo homem bomba, mas que não quer ser islâmico; tem gente que adora a mãe natureza e a contemplação do vazio, mas que não quer ser panteísta ou algo do gênero. Tudo isto vai parar na “acolhedora” curva do rio, chamada carinhosamente de igreja evangélica.

Na curva do rio surgiram a universal, a mundial, a internacional, os templários, a plenitude e tantos outros lixos religiosos que desceram rio abaixo até encontrar o local ideal para proliferar e criar um habitat propício para germes, fungos e lodos. Tristemente, encontraram a igreja evangélica. Ali estão em processo de decomposição e putrefação, mas como tem muita gente descendo o rio, então, há uma forte probabilidade de muitos ficarem engastalhado lá na maldita curva do rio. É fato que estes tipos de lixo não seriam suportados em outros ambientes religiosos. Apenas na igreja evangélica, estes dementes-religiosos conseguem fixar moradia e coexistir. Estes esquizofrênicos-espirituais sabem que a curva do rio, chamada igreja evangélica, vai tolerar e provavelmente apoiar quase toda tranqueira mística. Então, na tentativa de ser acolhedora, a igreja evangélica abarcou doutrinas ultrajantes e até demoníacas. Coisas estas que encalharam na curva do rio, lá na igreja evangélica. Afinal, não é este o discurso mais comum entre os igrejeiros: “venha como você está”. Então... eles vieram, exatamente como estavam.

Um número considerável de cristãos evangélicos protestantes, ao se aperceberem na enrascada indenitária que a igreja evangélica se enlameou, lá naquela curva do rio, escolheram repelir-se do grupo. Ao se darem conta que ser evangélico não mais representa uma identidade especifica, mas sim um compêndio de forças estranhas, portanto, não mais se identificaram com as matrizes evangélicas. Ao se verem confusos sobre o embaralhar das rotulações clássicas: Históricos, Pentecostais e Neopentecostais, e não mais saberem no que realmente acredita-se, preferiram se distanciar. Então, estes cristãos evocando um pouco de sanidade e sobriedade, escolheram descer rio abaixo, não mais se identificando com a igreja evangélica, a estes foram denominados de desigrejados. É óbvio que o movimento denominado de desigrejados é bastante pluri, a semelhança da expurgada igreja evangélica. Há desigrejados por consciência, outros por malandragem, os por sanidade, alguns por preguiça, outros tantos por amor, vários por ódio, há os por reverencia, também há os por causa de birras ministeriais... Ser desigrejado é levar um pouco da seiva tóxica da igreja evangélica.

O movimento dos desigrajedos não é novo, apenas recebeu um raio gourmetizador na pós-modernidade, ganhando status pretencioso de remanescentes. A ideia de ser desigrejado também não é uma causa com identidade especifica, há uma heterogeneidade intrínseca, e mui provavelmente abarca incontáveis outras manifestações de descontentamento com a igreja evangélica. Até porque o que torna uma pessoa desigrejada é tão somente não mais se identificar com a igreja evangélica contemporânea. É até relativamente simples ser desigrejado, basta estar insatisfeito com os rumos da (pluri)igreja evangélica. Portanto, se os desigrejados não tomarem cuidado, é muito provável que estes se tornem na próxima curva do rio, lá embaixo, atraindo e acolhendo toda sorte de lixo que não mais quer se emporcalhar com os evangélicos. Afinal, é quase improvável que um ex-evangélico vá (ou volte) para alguma outra religião, por questão indenitária, conforme dito anteriormente.

Se a igreja evangélica brasileira se tornou um escombro de tranqueira a culpa é de todos nós, inclusive dos desigrejados. Até porque para ser desigrejado precisou ser, algum dia, igrejado. Contudo, ao contrário do que possa parecer, mesmo a despeito de todo lixo existente no contêiner igreja, acredito plenamente que Deus queira que a igreja evangélica seja esta curva no rio: suja, fedida e atrapalhada. É através das nossas limitações e desvirtudes que podemos desvelar Cristo, o perfeito. Não é quando somos bons que honramos Deus, mas sim quando reconhecemos que somos maus e que necessitamos diariamente da Graça. Não precisamos de um novo movimento, precisamos é de consciência de nossa podridão e importância do Caminho único, o Salvador. Não há necessidade do triunfalismo de sermos uma igreja de “santos lutando contra o pecado”, precisamos de uma igreja de pecadores lutando para ter santidade no presente século. E sobre todo este lixo evangélico, é bom que esteja ai, pois assim, cotidianamente, seremos seduzidos pelo lixo e isto desvelará as reais intenções dos nossos corações.

Não há apenas uma curva no rio. Há outras curvas mais atraentes, outras curvas com maior fluidez e outras curvas com belas flores, outras com galhos vigorosos. O rio é longo, e não estar engastalhado na curva dos evangélicos não torna alguém ou algum movimento mais aceitável, mais plausível perante Deus. Descer rio abaixo à procura de um novo movimento nas águas é coisa antiga, tem sim suas vantagens e também tem inúmeras limitações. Entretanto, o que poucos sabem é que cada vez que um lixo se desprende de uma curva do rio, este leva um pouco (quando não muito) da sujeira daquela referida curva. Da ilusão de pureza já tivemos demonstração suficiente do horror que é possível ser feito sob tais pressupostos, basta nos lembrar da curva do rio lá na Alemanha (refiro tanto a Lutero, quanto a Hitler – resguardo às devidas proporções e intenções).

Enfim, tenho convictas dúvidas se Deus quer que descemos o rio a procura de uma nova curva, que igualmente vai se emporcalhar. Talvez, nossa atual missão seja sermos o sal da igreja, retardando a putrefação desta. Talvez, nossa missão neste presente século seja ser a luz da igreja, evitando a cegueira total desta. Talvez, neste mundo tão evangelizado, precisemos voltar nossos olhos para a igreja e reenvangelizar. Talvez, seja o tempo de olharmos para trás ao invés de olhar pra frente. Talvez, seja o momento de pegarmos as enxadas, foices e rastelos, e então, começamos a limpar a nossa curva no rio, a começar de minhas próprias sujeiras e corrupções. Afinal, ainda há sete mil que não se dobraram a Baal (cf. 1 Rs 19:18). E convenhamos, sete mil enxadas, juntas, poderiam fazer uma boa limpeza...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Setembro de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A morte que foge


“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”.
Eclesiastes 1:2 (ACRF)

A percepção normal da vida é que ao fim sejamos embalados pela morte, como que num último ato poético da vivência. Há o entendimento que a morte é sintoma, apenas, daqueles que desistiram de viver, como se morrer fosse um sinal de desistência intencional.  Compreende-se que a morte é algo que ninguém quer, a não ser pelos devassos suicidas, que permanecem destoantes dos discursos espelhados. Entendemos, então, que fomos criados para viver isto que chamamos de vida, restringindo à morte o fim de todas as coisas, desconhecendo os limites e intenções dAquele que nunca morrerá, e que nos convida para à vida eterna.

A Dona Morte não é tão demonizante como a rotulamos historicamente e religiosamente. Talvez, a morte seja apenas um instrumento da Graça. Uma espécie de passaporte para a verdadeira vida, tipo um convite para algo verdadeiro. A Dona Morte bem poderia ser a agente promotora da libertação de nossas próprias futilidades humanas. Talvez, esta seja a visão do Eterno sobre a nossa brevidade temporal-histórica, que precisava se findar de alguma forma, para desvelar a Verdade, dai, a coadjuvante morte aparece na história, roubando a cena entre os mortais.

Salomão, especialmente no livro de Eclesiastes, ao olhar para a vida, percebeu o quanto tudo aqui, debaixo do sol, é inútil, desmetido, fútil, desvairado e incontível. Por isto, para ele, amar a vida é tão anêmico quanto odiar a morte. É preciso que nos reconectemos com a eternidade e dali perceber que viver ou morrer é apenas uma questão insignificante que temos que enfrentar nos dilemas existenciais. Portanto, viver não é tão belo como se encena, e nem morrer é tão terrível como se teatraliza.

O Deus que não tem início nem fim, que existe antes da eternidade, Ele que gerou vida no Éden e predestinou o fim de todas as coisas. Ele mesmo, ao contemplar nossa presunção de vida-morte nos convida a perceber nossa pequenez, como fez com Jó. Qual sentido de viver? Qual o proposito em morrer? Estas questões não se respondem pelo que conhecemos, pois não somos autônomos ou independentes de uma História maior, incognoscível a nós. Afinal, ninguém voltou da morte para dizer como se vive lá, nem ninguém deixou de viver para contradizer a morte. É por isto, que toda esta espetacularização da vida-morte é pura vaidade, reitera Salomão.

Desejar morrer não é querer suicidar (no que tange aos postos padrões categorizáveis da sociedade contemporânea), e nem constitui num ato de desrespeito ao Autor da Vida (como se Deus e a morte vivessem a lutar numa batalha épica pela humanidade). Desejar o encontro com a Dona Morte é ato de bravura indômita de gente que entende que a morte pode ser um ato de profunda reverência ao Carpinteiro e preservação da história cristã, para além de nós mesmos.

A morte é bem-vinda quando o pecado já é indivisível a nossa personalidade, tornando a existência uma tormenta insuportável, com dores alucinógenas de consciência. E não é simples abandonar os pecados que nos definem, pois os próprios pecados são submetidos a critérios de avaliação coletiva que julga entre pecados aceitáveis e pecados não aceitáveis. Para Deus pode até não haver diferença entre ambos, mas para a sociedade, e para a igreja, há enorme distinção. Há pecados com consequências diferentes, apesar da mesma natureza. Contudo, para aqueles mortais que carregam o estigma do pecado não tolerável, a estes a busca pela morte é uma questão de vida.

Ao conhecer a Cristo, a vida se resignifica. Entretanto, o difícil não se converter, mas sim permanecer convertido. E desta distinção entre um momento sui generis como a conversão para um cotidiano convertido, há um abismo gigantesco. Então, há aqueles que percebem que não tem para onde ir, só Jesus tem as palavras de vida eterna (conforme acentua Pedro em Jo 6:68), porém estranhamente seus corações e intenções vão se distanciando do Reino. Quando estes se apercebem do quanto suas histórias perderam sentido, então buscam a morte. Buscam-na não por demérito ou fraqueza, mas por zelo em não corromper a eclesia em artimanhas sutis de manutenção do status quo e, principalmente, para que haja preservação dos santos que conseguiram permanecer firmes.

A morte pode ser um refúgio para aqueles que muito tentaram e quase sempre fracassaram. Há quem consiga superar os mais improváveis desafios da vida e ainda sim permanecer em pé. Parabéns para estes, mas isto não quer dizer que todos conseguem. E contra argumentar que se alguém conseguiu, então, outros podem conseguir, é considerar todos iguais. O que definitivamente não o somos. A nossa idiossincrasia nos permite não conseguir o que muitos conseguem facilmente, pois somos diferentes. Criados com propósito diferentes. Inclusive, alguns criados como “vasos de desonra” (cf. Rm 9:21). Entretanto, para estes pode até ser que aceitem o destino inglório, mas não significa que tem prazer nesta vida. Para estes a morte se torna num descanso para uma história de desonra ao Mestre, a semelhança de Judas (cf. Mt. 27:3-5).

Há muitas pessoas que buscam a morte, diariamente, de forma disfarçada para não serem identificados como suicidas ou outras designações depreciativas frente aos abutres sapiens. Arriscam suas vidas de diversas formas, esperam um acidente qualquer, aguardam um erro do sistema, torcem para algo dar erro. Mas... ainda sim a morte foge para longe e acomete em lugares distantes com pessoas improváveis. Isto acontece, pois a morte (assim como a vida) não está a serviço de nossas histórias, intenções e desejos. Viver ou morrer não são opções disponíveis a nossa temporalidade.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 19 de Agosto de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A cultura de guerrilha dos evangélicos brasileiros


"O Deus da paz seja com todos vocês. Amém”.
Romanos 15:33 (NVI) 

Ao se fazer uma análise de qualquer que seja o fato, é preciso que haja um norte indicativo dos valores históricos e culturais do referido tempo a que se refere, bem como saber acerca da implicação de significados linguísticos da referida época. Não se pode julgar o passado com a balança do presente, pois sendo assim não haverá coerência na análise, e provavelmente será acometido de injustos comentários.  É preciso ir se contextualizando para torna os discursos adequados e apropriados para cada tempo. Neste viés, os evangélicos tupiniquins, às vezes, parecem estar vivendo hoje, alguns séculos atrasados: com pregações arcaicas de enfrentamento do inimigo, jargões ultrapassados com tons territoriais e louvor com mensagens obsoletas de triunfalismo tático. De uma forma geral, ainda se é praticado nos rincões gospeis uma cultura de guerrilha. Talvez, num passado distante tais temáticas tivessem conexões com a cultura local, mas atualmente, é necessário reavaliar sua importância e aplicabilidade religiosa.

A cultura de guerra que orbita em torno das igrejas tupiniquins tem sua relevância embrionária, até justificável, do ponto de vista histórico-bíblico, mas continuar a pratica-la hoje é no mínimo bizarro e desconexo. A história bíblica, especialmente o Antigo Testamento, é engordurado de guerras entre os povos, o que fica notório nos salmos, orações e discursos veterotestamentarios. Falar de guerra e inimigo era o contexto da referida geração e nação. Ingressados no Novo Testamento, ainda se vivencia uma cultura de expansão dos impérios por meio das guerras, especialmente o Romano, o que influenciou igualmente alguns ditames de guerrilha nos textos neotestamentarios.

A bíblia expõe certa cultura de guerra, pois este era o contexto imediato destes. Passados os anos, e mesmo no findar do século XX, e início do século XXI, ainda se tem guerras no mundo, e ao que tudo indica, sempre haverá. Contudo, tais contextos nem sempre fazem parte do cotidiano de muitos cristãos e nações, a exemplo do Brasil, que mui raramente se envolve com guerras bélicas ou de expansão territorial.  Entretanto, ao adentrar nas igrejas brasileiras, especialmente as de linha neopentecostal, o cenário de guerrilha é perceptível efervescente e notoriamente conquistador. Os cânticos denunciam nossa paixão pela guerra, nossas roupas simulando camuflagem evoca o espírito de guerrilha e os pregadores esbravejam ordem de comando. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

Os discursos de batalha espiritual só agravou o cenário de brutalidade, conquista e neurose. Entra no ringue: Diabo, Deus, anjos, cristãos e os não-cristãos. Neste balaio de desorientação e perda de identidade percebe-se os cristãos se achando os guerreiros imbatíveis, com estratégias de guerra supostamente espiritual, mas com implicações territoriais, politicas e financeiras. Percebe-se igualmente um Deus fraco, que precisa de nossa permissão para fazer as coisas, sendo este Deus legalista, limitado e rendido aos propósitos da igreja. Percebe-se um Diabo forte, que mesmo a Bíblia tendo assegurado que ele já perdeu por causa da obra da cruz de Cristo, ainda os cristãos estão chamando o Diabo para guerra. Percebe-se os anjos como soldados do além para guerrilhar e ameaçar os ímpios, como se os anjos fossem assombrações para atormentar os que não se alistaram ao exercito igrejeiro. E percebe-se os não cristãos como o alvo para fazer as igrejas crescerem, não por causa do amor, mas sim pela força sinérgica de guerrilha de se ter muita gente aglomerada. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

A cultura de guerra que emerge de nossas cerimonias religiosas gospeis-tupiniquim é algo importado, não apenas pelo contexto cultural dos autores bíblicos, mas especialmente dos Estados Unidos, que insistem em ter uma cultura de guerra ao terror árabe, vietnamita e iraniano. Boa parte das canções do louvor são traduções de canções em inglês, quase todos os livros teológicos e de gênero espiritual tem como autores pessoas norte-americanas e grande parte dos modelos de crescimento de igrejas também são estadunidense. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

As pessoas que vivenciaram a segunda guerra mundial (1945), e a geração imediatamente posterior, que ainda respirou os ensaios da guerra fria (1989), tem em suas percepções culturais um DNA de guerrilha indivisível. O que consequentemente influenciou a liturgia da igreja neste período histórico. Contudo, já é tempo de tentarmos impregnar na igreja uma nova cultura, uma cultura de paz. Uma cultura de amor. A cultura de Jesus Cristo. A cultura de Deus. O escritor e poeta Jonathan Swift (1667-1745) já denunciava, muito antes de nossas contemporâneas guerras, tal necessidade de mudança na cultura religiosa ao afirmar: “nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.

Deus sempre usou a cultura local para se comunicar, tornar-se conhecido, e para tanto, obviamente usou, no contexto bíblico, da linguem de guerra para mostrar sua força - uma forma de atropopatismo hermenêutico, coerente com a cultural da época. Contudo, a cultura mudou, e Deus quer valer-se desta nova cultura tupiniquim para continuar a ser conhecido, como dantes, a partir de nossa atual cosmovisão. Entretanto, enquanto usarmos padrões culturais desconexos e destemporalizados não será possível haver conexões com o Carpinteiro.  Talvez, por esta razão é que haja tanto barulho em nossas igrejas, na tentativa de chamar a atenção de Deus. Talvez, por isto haja tantas pessoas fingindo espiritualidade nas igrejas, na tentativa compensar os vazios da guerra. Talvez por causa disto que ainda queremos guerrear, na tentativa de encontra o “cativeiro” do Príncipe da Paz.

A cultura de guerra nas igrejas evangélicas brasileira fora um catalizador de culturas de povos bíblicos e de culturas estrangeiras, culturas estas que não representam nossa cultura tupiniquim. E Deus quer ser conhecido pelos brasileiros, não com sotaque gringo, nem com estirpe hebraica. Deus quer ser brasileiro, fazer parte desta historia, e então, nos reconectar com a cultura celestial que invariavelmente comunga do amor, paz e fraternidade. É preciso que o Reino seja efetivamente implantado em nossa cultura, transformando nossas vidas e nos transportando para Reino do Seu amor (cf. Cl. 1:13). Enfim, a igreja brasileira está em guerra! E Deus está nos oferecendo a paz.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 02 de Agosto de 2015

terça-feira, 28 de julho de 2015

Um Reino todo meu


“Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas lhes serão acrescentadas”.
Lucas 12:31 (NVI)

O convite do Carpinteiro é para que sejam parecidos com Ele, este é o principio do discipulado. O convite é para que nos acheguemos ao Mestre como bois bravos que vão sendo cangados ao boi manso e sendo, gradativamente, transformados por aqui que Ele é: "manso e humilde de coração" (Mt 11:29). O convite é para que desaprendamos a possuir nossas próprias vidas, entregando-a, despretensiosamente, ao bom pastor (cf. Jo 10). O convite é para entrar no Reino.

No Reino, em que o Rei é um Carpinteiro, se torna desnecessário o esbravejar daqueles bobos da corte que ainda acreditam que por meio de traquinagens podem ser aplaudidos. O Reino é para aqueles que descobriram que o Sol da Justiça brilha eternamente e que por isto não há espaço para os temporários lampejos daqueles que se acham estrelas. No Reino não há disputa, pois não há nada em jogo. No Reino não há lugar para vencedores, pois lá não há perdedores.

Por meio do discipulado o Carpinteiro nos mostra o Reino, Reino dEle, para Ele, por Ele, nEle. Um Reino que insiste em estar entre nós, apesar de nós. Um Reino que tem dono, e que jamais tem Sua soberania abalada. É neste Reino que Jesus nos convida a adentrar. É neste Reino de pessoas transformadas, que se torna possível chamar de meu Reino - meu não como pronome possessivo, mas meu por denotar ter encontrado um lugar para se estar, e lá ficar.

O convite do Carpinteiro não é para assistir o Reino acontecendo, mas sim para fazer parte desta história de redenção, justificação e metamorfose. Um Reino todo meu, para servir, amar, ajudar, perdoar, ombrear e sobre tudo glorificar ao Rei por meio da simplicidade de se estar no Reino. Este é o lugar. Este é o meu lugar. Bem vindo ao Reino...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 28 de Julho de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Brasil, a Roma dos evangélicos


"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo".
Colossenses 2:8 (NVI) 

[acréscimo de 2015] Este artigo fora escrito em 15 de Abril de 2010, na época fora publicado em outras mídias institucionais. Contudo, passados mais de cinco anos (2015) e por perceber que o referido texto ainda consegue ser contemporâneo frente aos desafios da cristandade tupiniquim, então, optei em (re)posta-lo, na integra, no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013), mesmo com o evidente distanciamento dos eventos citados no artigo. Abaixo o texto no original (2010), como se segue:

O Império Romano foi um dos mais notáveis governos que o mundo já conheceu. Entre os diversos feitos, notáveis e deploráveis, há um em especial que fez de Roma um referencial no que tange a relação povo-poder, foi a famosíssima e controversa política social denominada de “panem et circenses, isto é, Pão e Circo. Basicamente a proposta era distrair as massas com os espetáculos sangrentos dos gladiadores e simultaneamente distribuir pão para os presentes nas arenas de Roma. Tal política não seria tão maquiavélica se de fato não encobrisse os problemas de Império em crise. A política do Pão e Circo surgiu quando o imperador percebeu que estava havendo uma migração dos camponeses para o centro urbano, porém não havia condições adequadas para atender as necessidades básicas desta tão grande massa, o que poderia ocasionar revoltas, reivindicações e rebeliões por todo o Império. Então, para encobrir tamanha incapacidade resolveu-se distrair a multidão (luta dos gladiadores) e aplicar medidas paliativas (distribuição de pão). Desta maneira o povo esquecia que viviam num Império em decadência e as massas ovacionavam os desonestos imperadores.

Deste os tempos de Roma até a contemporaneidade a política social do Pão e Circo nunca mais deixou de ser praticado pelos governos – afinal, é uma estratégia eficaz aos interesses dos poderosos, pois encanta o povo, desvia o foco das reais necessidades das massas e ofusca a calamidade existencial. Entretanto, mui estranho e, demasiadamente assombroso, foi perceber que a religiosidade neopentecostal brasileira está valendo desta artimanha para fascinar as massas evangelicais. O Pão e Circo Evangélico é mais maléfico que o praticado por Roma, pois os “imperadores evangélicos”, a semelhança dos fariseus bíblicos, estão conduzindo as pessoas há um cristianismo raquítico e artificial – “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” – Mt. 23:13. Portanto, como completa Philip Yancey: “A igreja existe, não para oferecer entreterimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso, a igreja fracassa”[1].

O cenário evangélico brasileiro tem sido marcado pelo suposto crescimento das igrejas e pelos constantes mega shows gospel. Há um em especial que merece destaque nas linhas que se seguem: “O Dia D – é hora da Decisão”, que acontecerá no dia 21 de Abril do corrente ano nas principais cidades do Brasil. Para as massas este é mais um mega show para glorificar a Deus, vislumbrar uma série de incontáveis milagres e um oportuno momento para ouvir música gospel de ótima qualidade, de grátis – já que atualmente na maioria dos demais eventos do gênero os preços de ingressos são altíssimos. Tudo isto é muito fascinante, imponente e espirituoso. Contudo, ao contrário daqueles que vão se juntar a multidão no “Coliseu da Fé” no dia 21 Abril, há alguns cristãos pensantes que não são facilmente encantados pela grandiosidade. Este será um típico Pão e Circo Evangélico, haverá luta entre homens e demônios, muita euforia musical e alimento “espiritual” para aqueles que se satisfaz com qualquer coisa.

O dia 21 de Abril será um Pão e Circo Evangélico pelas seguintes razões: 1) Quem está organizando o evento é Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), instituição que na pessoa de seu líder e outros bispos estão sendo alvo de diversas investigações criminosas – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para conseguir aliados contra a TV Globo e afirmar que tudo que está acontecendo é fruto de perseguição aos evangélicos; 2) A IURD sempre foi mal vista pela cristandade brasileira devido a liturgia nada convencional e pelas técnicas abusivas de coleta de dinheiro – então, o “Dia D” é uma excelente oportunidade para tornar as heresias mais comum ao povo, o que culminará gradativamente num sentimento de aceitação; 3) A IURD nunca foi uma igreja que primasse pela Palavra, sempre foi conhecida pelos milagres, porém nos últimos anos tem perdido este filão de mercado para outra igreja que é idêntica, a Igreja Mundial no Poder de Deus – então, o “Dia D” é uma grandiosa oportunidade para reconquistar a paixão dos crentes cambaleantes que foram hipnotizando pela Igreja Mundial e outra vez igualmente resumir a fé em milagres.

Há mais algumas razões que não podem ficar camufladas: 4) A IURD com este evento nacional está tentando desviar o foco das acusações e processos criminais entretendo o povo – então, o “Dia D” é uma oportunidade ímpar para fascinar com a grandeza do evento as cegas massas evangélicas brasileiras; 5) A IURD sabe que infelizmente as massas evangelicais respeitam uma igreja não pelo caráter cristão mais sim pelo sucesso de público (numerolatria) – então, o “Dia D” é a oportunidade perfeita para reunir centenas de milhares de pessoas e assim mostrar para a mídia que a IURD é forte, paralelamente mostrar para os pastores de outros ministérios que é mais inteligente se juntar a eles que se oporem; 6) A IURD sabe que há muitos líderes que fazem qualquer coisa para aumentar o rebanho – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para, disfarçado de manifestação cristã de unidade, conseguir alguns membros para as igrejinhas locais, assim os líderes destes ministérios serão eternamente cúmplice deste Pão e Circo Evangélico; e, 7) A IURD não está fazendo este evento para promover a evangelização, pois a divulgação tem sido numa linguagem tipicamente evangélica, com “artistas” evangélicos – então, o “Dia D” é uma oportunidade para bradar em alto som a adoração extravagante, declarar no reino espiritual e fazer inúmeros atos proféticos positivistas, afinal é disto que o povo crente gosta.

Enfim, definitivamente o Brasil é a Roma dos Evangélicos. Somente em terras tupiniquins o “Coliseu da Fé” reacende suas chamas e outra vez se torna o centro da vida religiosa das massas. Ali, debaixo da euforia do povo acontece a morte da razão, o suicídio do bom senso e o exaltação dos imperadores. Na arena deste vergonhoso Pão e Circo se esconde a igreja brasileira que finge não ser doente espiritualmente, fraca socialmente, despreparada teologicamente e imatura biblicamente. Por tudo isto o dia 21 de Abril será de fato o “dia D – é hora da Decisão” – Decisão de não participar deste pelourinho evangélico; Decisão de não ir para esta arena circense; Decisão de não se juntar a estes gladiadores da fé; Decisão de não celebrar estes imperadores eclesiásticos; Decisão de não aplaudir a morte do cristianismo. Por fim é valido endossar as palavras de Ricardo Gondim: “Aconselho que os crentes parem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre Cd de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - idem, para os meus. Depois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam. Não vá a congressos - inclusive o que eu promovo. Passe ao largo dos ‘louvorzões’...”[2].

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Abril de 2010



[1] Philip YANCEY, Igreja, Por Que me Importar?, p. 25.
[2] Perícope retirada do artigo de autoria do Ricardo Gondim, intitulado: “CONSELHOS PARA SOBREVIVER AO MUNDO GOSPEL”, disponível no site: www.ricardogondim.com.br

segunda-feira, 22 de junho de 2015

De braços bem abertos


"Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo (...) Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus. Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus".
2 Coríntios 5:18,20,21 (NVI) 

De longe se vê o madeiro sendo erguido, sorrisos e choros se confundem em meio à multidão. A cada passo rumo ao Gólgota mais pessoas se aproximam, talvez alguns nem sabiam o que estava realmente acontecendo apenas queriam participar do movimento. Todavia, como pelourinho de vergonha e dor um homem, chamado Jesus, é encravado na cruz. Erguido como troféu, lá em cima, o Nazareno de braços abertos insiste em olhar para baixo. A dor dos cravos, a angústia da sede, o desespero da dificuldade de respirar não eram mais severos que a triste cena dos olhos do Carpinteiro percorrendo a imensa multidão em busca dos Seus discípulos.

Jesus queria encontrar Seus discípulos em meio à multidão não para que eles o tirarem da cruz, pois se Ele quisesse o faria sem ajuda de ninguém. Entretanto, Cristo queria olhar nos olhos dos Seus companheiros de ministério e fazê-los entender que mesmo quando O abandonaram, negaram ou fugiram, ainda sim, Ele estaria lá, simplesmente de braços abertos. Uma pergunta percorria a multidão: onde estavam os discípulos daquele homem de braços abertos? Judas não agüentou a dor de ter que admitir que mesmo na cruz ainda o Mestre estivesse de braços abertos. Pedro não tolerou o constrangimento de perceber que seu Mestre ainda estaria de braços abertos, mesmo tendo ele O negado. Os demais discípulos não puderam admitir a possibilidade de contemplarem, acima de tudo e de todos, que o Carpinteiro, ainda sim, estaria lá de braços bem abertos.

Não eram apenas os discípulos que precisavam ver Jesus de braços bem abertos, quem mais precisava contemplar esta cena era a multidão, pois era exatamente aquela multidão que outrora seguia Jesus para se alimentarem, serem curados, libertos ou para se rejubilarem perante os milagres, são os que agora estava lá embaixo, aos pés da cruz, aguardando apenas o Carpinteiro morrer para voltarem para suas atividades cotidianas e continuar a viver com outrora faziam. No entanto, lá de cima, ainda com os braços abertos, estava Cristo Jesus orando: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem...” – Lc. 23:34. Lá em cima, longe dos gritos da multidão, dois ladrões iniciam um diálogo com Jesus. Um zombou do fato de Cristo ainda estar de braços abertos. O outro preferiu simplesmente se lançar nos braços do Mestre que ainda insistiam em permanecer bem abertos.

A cena da crucificação certamente ficou gravada na mente e no coração de todos os presentes e ficará na memória de todos que conhecem esta história. Indubitavelmente, sempre que as pessoas olharem para a cruz se lembrará de um homem que não foi apenas pendurado no madeiro, mas contemplarão um Carpinteiro que ainda hoje insiste em estar de braços bem abertos, quer seja para os discípulos, ou para mais um na multidão, ou mesmo para um ladrão. Uma certeza há, Ele sempre estará de braços bem abertos, e é por esta razão que Paulo exclamou: “...o amor de Cristo nos constrange...” – 2 Co. 5:14. Por isto, a todos que contemplam a cruz de Cristo só há uma opção de vida: é igualmente abrir os braços e se entregar para Aquele que ainda insiste em estar de braços bem abertos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 12 de Junho de 2006

terça-feira, 26 de maio de 2015

Mcdonaldização do evangelismo


"Pregava o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, abertamente e sem impedimento algum".
Atos 28:31 (NVI)

As igrejas evangélicas brasileiras, buscando uma aceitabilidade maior do Evangelho, fez com que, ao longo dos anos, fosse assimilada a idéia de anunciar (repassar) Jesus Cristo de forma rápida e padronizada. Sendo assim, a igreja se tornou uma grande lanchonete do Mcdonald´s – moderna na estrutura física, atrativa no marketing, rápida na produção e padronizada no mundo. Partindo dessa linha de pensamento, cada crente se tornou um Big Mac que será devorado por consumidores religiosos, que de igual modo são seres padronizados.

A padronização eclesiástica, influenciada pela “Mcdonaldização do Evangelismo”, prega a homogeneização da salvação, da liturgia, da conversão, da santificação, das estratégias eclesiásticas e etc. Às vezes, parece que há uma fôrma onde se coloca a pessoa evangelizada para eliminar as virtudes e qualidades distinguíveis a cada individuo, criando cristãos imitadores (padronizados), reprodutores da fé de discipuladores hambúrguer. O cristão mcdonaldizado é aquele que vive simplesmente para ser igualzinho aos outros – cantam as mesmas canções, falam os mesmos clichês espirituais, pregam os mesmos sermões e oram da mesma forma.

Infelizmente, a igreja tupiniquim aderiu, entusiasticamente, a “Mcdonaldização do Evangelismo”. Isto fica notório, pois se trabalha exaustivamente na obra de Deus, mas não se tem tempo para o próprio Deus. Se define um evangelismo relâmpago, com resultados rápidos, produzindo conversões momentâneas. Se prefere a eficácia das estratégias de crescimento e padronização empresarial (Mcdonald´s), ao invés de buscar em Jesus o modelo para espiritualidade, evangelismo e eclesiologia.

É nas igrejas mcdonaldizadas que se cria a linha reprodução em série (leia-se multiplicação) que precisam ser provocadas para entrarem num ritmo de ativismo tamanho que impossibilite as pessoas de perceberem que estão se tornando meros cheeseburger religiosos. É necessário bradar que cada pessoa tem suas especificidades e não pode ser tratada como uma mera linha de produção de sanduíches. Por fim, o resultado de tudo isto é: limitação e boicote da Verdade contida no Evangelho, banalização do poder de Deus, crentes “fantoches” e ativismo eclesiástico.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 10 de Junho de 2005