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sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Os Dez Mandamentos" e o oportunismo gospel


"Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda".
2 Pedro 2:2,3 (NVI)

O Brasil, especialmente nestes últimos anos, vem sendo arrebatado por uma corrente de oportunismo evangelical. Na crista da onda, desde sempre (exagero necessário de um imediatista moderno), está a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), na figura excêntrica de seu líder Edir Macedo (fundador extremista da referida seita anti-cristã). Neste viés, como resultado de uma série de más intenções e maus resultados, a IURD vem emporcalhando e “emburrecendo” a Igreja Evangélica Brasileira. Para tanto, como que num apogeu de toda putrefação gospel, gravou recentemente a telenovela “Os Dez Mandamentos”, que recém se tornou em longa metragem. Então, o que pretendo me atrever é fazer alguns desconfortáveis comentários sobre a repercussão deste atual remake sweeded da IURD/Record, que foi uma tentativa fútil de ser como foi o grande sucesso da década 1950, The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos), com Charlton Heston interpretando Moisés.

Reitero que a critica que se segue é sobre a repercussão do recém lançado “Os Dez Mandamentos”, produzido pela tendenciosa mídia da IURD, então, a critica que se segue não é necessariamente sobre o conteúdo do filme. Isto não quer dizer que a história narrada no filme esteja imune de observações, muito pelo contrário, são tantas desconstruções bíblicas que daria pra escrever inúmeros textos, livros, dissertações e teses, seria até oportuno a hipérbole: não caberia em todos os livros do mudo. Por esta razão, me centrarei apenas na repercussão do filme, por entender que é muita besteira num momento histórico só para que caibam nas condensadas páginas que se seguem.


A primeira falácia é achar que o filme “Os Dez Mandamentos” é uma reconstrução da história bíblica. Ledo engano. A semelhança do recém “Noé” (2014), do novíssimo “Êxodo” (2014) e do não tão novo “Príncipe do Egito” (1998), todos estão inseridos numa proposta de ficção cientifica supostamente, e duvidosamente, embasados nas histórias bíblicas. Repito, supostamente embasados, ou seja, os referidos filmes não tem a intenção de serem fidedignos aos relatos bíblicos, como os próprios produtores insistem em afirmar. Contudo, estranhamente, os crentes tupiniquins assistem tais películas como se estivessem revivendo os relatos bíblicos. Isto demostra, muito claramente, que os tais crentes não entendem nada de bíblia. Por isto, qualquer produção cinematográfica tem ares de veracidade para estes, se tornando vulneráveis as aberrações, heresias e doutrinas de demônios (cf. I Tm 4:1). Então, quando alguém diz assistir os “Os Dez Mandamentos” porque é um filme bíblico, este precisa é ler a bíblia, pois não compreendeu nada do relato bíblico.


O segundo engodo vem da essência de ser IURD, que se personifica no suposto sucesso nas vendas de ingresso para os “Os Dez Mandamentos”. A Record/IURD, epicentro de toda desconstrução cristã moderna, insiste que este foi o filme brasileiro com maior bilheteria, depois mudam um pouco as falas para não soar tão mentiroso (como se pudesse fugir de seu próprio caráter), dai dizem: ser o filme mais assistido no Brasil. Para o telespectador desapercebido pode até dar um tom de demonstração do poder de Deus, pois afinal um filme bíblico (supostamente) ter tamanho destaque só pode ser obra de Deus, só que não. A IURD tem distribuído gratuitamente os ingressos para assistirem a aberração “Os Dez Mandamentos”, isto eles não divulgam na mídia. E outra informação que eles não divulgam é que o suposto sucesso do filme é o sucesso da telenovela da Record sobre a concorrente, a rede Globo. Ou seja, tudo não passa de um jogo de manipulação, típico da IURD e do fanfarrão Edir Macedo, para atrair mais audiência.


A terceira dissimulação é achar que é melhor algo meio torto falar de Deus do que não falar de Deus. Lego engano. Nada é mais corrosivo a verdade do que a mentira com tons de verdade. E é sempre válido lembrar que uma vez ensinado/aprendido errado, para desconstruir tal compreensão errônea é muito mais difícil. Por isto, arrisco dizer que a película recente “Os Dez Mandamentos” não contribuiu para a Igreja Evangélica Brasileira, muito pelo contrário prejudicou, pois ensinou errado. Ainda há de se destacar que o símbolo imagem fica mais gravado na memória do que a leitura, então, é provável que os crentes, discípulos da IURD, ao se lembrarem da história de Moisés se lembrarão do filme, não do texto bíblico. Ou seja, a bíblica perde autoridade e referência, se tornando secundária. Por isto, não é tão incomum ouvir nos púlpitos os pregadores relatando a história de Moisés distante dos relatos bíblicos, pois estes fixaram na mente o filme, não a leitura.


A quarta e última consideração é uma insistência já dada em outros textos de minha autoria (“Um menino chamado Edir Macedo”; “Entre Babilônia, Duas Caras e as mesmas manipulações”; e, “Brasil, a Roma dos evangélicos”). A questão é muito simples: por que a Record/IURD, sendo notoriamente anti-cristã, insiste em produzir coisas do gênero gospel? A resposta é mais simples ainda: pois enganar crente sempre foi mais fácil que enganar quem não é crente. Ser crente nesta contemporaneidade, quase sempre, está atrelado à autoridade e submissão, especialmente nas igrejas de linha neopentecostal. Desta forma é fácil induzir votos eleitorais, forçar doações financeiras desmedidas, esfacelar a vida das pessoas em prol de uma instituição e etc. A IURD/Record sabe que o crente tupiniquim julga que ter fé significa ser obediente a lideranças humanas, então, nesta jihad gospel, o mais forte tem evidência e reverência dos demais. Eis porque a IURD quer ser tão grande, pois precisa se impor sobre os frágeis corações de pastores e igrejas de médio e pequeno porte.


Minhas considerações finais são bandeiras que ainda insisto em tremular: 1) O filme “Os Dez Mandamentos” não é, sob nenhum aspecto, um filme bíblico; 2) O filme “Os Dez Mandamentos” é apenas uma jogada de marketing da Record/IURD para enganar os crentes de plantão; 3) A IURD não é uma igreja evangélica, ela é uma seita herética anti-cristã, corrosiva ao cristianismo bíblico; 4) O Edir Macedo, na representação do personagem de pastor, é uma vergonha para a Igreja Evangélica Brasileira, pois manipula intencionalmente a fé das pessoas; 5) A razão de Deus deixar a IURD e o Edir Macedo ter suposto sucesso é porque estes funcionam como contra peso para medir o coração de outros pastores igualmente corruptos que querem ter sucesso a qualquer custo; e, 6) Que Deus tenha misericórdia do circo que virou a Igreja Evangélica Brasileira e nos dê esperança após o califado da IURD.


Fortalecido pela cruz de Cristo,

Vinicius Seabra
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Artigo escrito em: 05 de Abril de 2016

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Igreja, curva do rio e desigrejados


“mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé”.
1 Timóteo 1:19 (NVI)

Os movimentos religiosos apresentam, cada qual, sua própria identidade, mesmo reconhecendo que há uma heterogeneidade nas formas de manifestações de cada uma. No Brasil, as três maiores religiões aqui presentes se expõem como: Espiritismo – crença na reencarnação, evolução do espírito e salvação pela caridade; Catolicismo – crença na mariolatria, intermediação dos santos, na autoridade vicária do Papa e valorização da tradição eclesial. Protestantismo – crença... no que mesmo? Se dissermos crença na infalibilidade/inerrância das Escrituras, isto seria questionável pelos papas evangélicos; se dissermos que é centralidade na Bíblia, isto é notoriamente destoante a partir das pregações dominicais; se dissermos crença na salvação apenas por meio de Jesus, isto também é questionável na prática neopentecostal tupiniquim; Além de não se saber hoje o que realmente estamos há protestar; então, sinceramente, não há nada nos evangélicos que os tornam excludentes, como uma espécie de identidade, pois dos pilares evangelicais boa parte das outras religiões igualmente comungam.

A bem da verdade, inúmeras pessoas se tornam evangélicas por não mais serem adeptas à identidade de outras religiões. Se você não acredita em reencarnação, não é lá muito amigável da ideia de mariolatria, então, te resta ser evangélico. Se você não gosta muito de mexer com espíritos e não é apadrinhado por algum santo, então, igualmente, só te resta ser evangélico. Não dá para ser Islâmico, ainda mais nestes tempos de midiatização da demonização ocidental na figura dos mulçumanos. Não dá para ser budista, até porque passividade e contemplação não são adjetivos presentes na modernidade capitalista urbana. Não dá para ser hinduísta, até porque o mundo ocidental está longe demais destas crenças e virtudes. Zoroastrismo, nem pensar. Religiões de adoração ao imperador ou a um rei, simplesmente não tem nada haver com nossa brasileiralidade. Ser da Umbanda ou Quimbanda, entre outras tantas bandas afrodescendentes, já são estereotipadas como religiões demoníacas. Taoísmo, Jainismo, Xintoísmo, Confucionismo... realmente não dá. Então, sinceramente, no Brasil, só resta ser evangélico. Não por opção, mas por falta de opção indenitária. E é ai que entra a curva do rio...

A curva do rio é onde fica preso, engastalhado e emaranhado toda sorte de sujeira que desce rio abaixo. A curva do rio é um depósito de dejetos e lixos que não se afixaram em lugar algum do rio, até encontrar a curva. Neste local é possível descobrir várias coisas não pertencentes ao rio, mas que por alguma razão precedente, desceu rio abaixo ficando aprisionado lá na curva. Assim é a igreja evangélica brasileira (e talvez a igreja evangélica no mundo), uma igreja que abarca tudo aquilo que não se encaixa em outras religiões. Se você não se atrelou a nenhuma outra religião ao longo da sua descida rio abaixo, é bem provável que você fique aqui, na igreja evangélica. Portanto, sem nenhuma ironia, a igreja evangélica se tornou a curva do rio. Lá tem toda sorte de tranqueira: tem gente meio espiritualizada (diferente de espiritual), mas que não quer ser espírita; tem gente com fortes tradições católicas, mas que não quer ser católico; tem gente com potencial para ser fanático, tipo homem bomba, mas que não quer ser islâmico; tem gente que adora a mãe natureza e a contemplação do vazio, mas que não quer ser panteísta ou algo do gênero. Tudo isto vai parar na “acolhedora” curva do rio, chamada carinhosamente de igreja evangélica.

Na curva do rio surgiram a universal, a mundial, a internacional, os templários, a plenitude e tantos outros lixos religiosos que desceram rio abaixo até encontrar o local ideal para proliferar e criar um habitat propício para germes, fungos e lodos. Tristemente, encontraram a igreja evangélica. Ali estão em processo de decomposição e putrefação, mas como tem muita gente descendo o rio, então, há uma forte probabilidade de muitos ficarem engastalhado lá na maldita curva do rio. É fato que estes tipos de lixo não seriam suportados em outros ambientes religiosos. Apenas na igreja evangélica, estes dementes-religiosos conseguem fixar moradia e coexistir. Estes esquizofrênicos-espirituais sabem que a curva do rio, chamada igreja evangélica, vai tolerar e provavelmente apoiar quase toda tranqueira mística. Então, na tentativa de ser acolhedora, a igreja evangélica abarcou doutrinas ultrajantes e até demoníacas. Coisas estas que encalharam na curva do rio, lá na igreja evangélica. Afinal, não é este o discurso mais comum entre os igrejeiros: “venha como você está”. Então... eles vieram, exatamente como estavam.

Um número considerável de cristãos evangélicos protestantes, ao se aperceberem na enrascada indenitária que a igreja evangélica se enlameou, lá naquela curva do rio, escolheram repelir-se do grupo. Ao se darem conta que ser evangélico não mais representa uma identidade especifica, mas sim um compêndio de forças estranhas, portanto, não mais se identificaram com as matrizes evangélicas. Ao se verem confusos sobre o embaralhar das rotulações clássicas: Históricos, Pentecostais e Neopentecostais, e não mais saberem no que realmente acredita-se, preferiram se distanciar. Então, estes cristãos evocando um pouco de sanidade e sobriedade, escolheram descer rio abaixo, não mais se identificando com a igreja evangélica, a estes foram denominados de desigrejados. É óbvio que o movimento denominado de desigrejados é bastante pluri, a semelhança da expurgada igreja evangélica. Há desigrejados por consciência, outros por malandragem, os por sanidade, alguns por preguiça, outros tantos por amor, vários por ódio, há os por reverencia, também há os por causa de birras ministeriais... Ser desigrejado é levar um pouco da seiva tóxica da igreja evangélica.

O movimento dos desigrajedos não é novo, apenas recebeu um raio gourmetizador na pós-modernidade, ganhando status pretencioso de remanescentes. A ideia de ser desigrejado também não é uma causa com identidade especifica, há uma heterogeneidade intrínseca, e mui provavelmente abarca incontáveis outras manifestações de descontentamento com a igreja evangélica. Até porque o que torna uma pessoa desigrejada é tão somente não mais se identificar com a igreja evangélica contemporânea. É até relativamente simples ser desigrejado, basta estar insatisfeito com os rumos da (pluri)igreja evangélica. Portanto, se os desigrejados não tomarem cuidado, é muito provável que estes se tornem na próxima curva do rio, lá embaixo, atraindo e acolhendo toda sorte de lixo que não mais quer se emporcalhar com os evangélicos. Afinal, é quase improvável que um ex-evangélico vá (ou volte) para alguma outra religião, por questão indenitária, conforme dito anteriormente.

Se a igreja evangélica brasileira se tornou um escombro de tranqueira a culpa é de todos nós, inclusive dos desigrejados. Até porque para ser desigrejado precisou ser, algum dia, igrejado. Contudo, ao contrário do que possa parecer, mesmo a despeito de todo lixo existente no contêiner igreja, acredito plenamente que Deus queira que a igreja evangélica seja esta curva no rio: suja, fedida e atrapalhada. É através das nossas limitações e desvirtudes que podemos desvelar Cristo, o perfeito. Não é quando somos bons que honramos Deus, mas sim quando reconhecemos que somos maus e que necessitamos diariamente da Graça. Não precisamos de um novo movimento, precisamos é de consciência de nossa podridão e importância do Caminho único, o Salvador. Não há necessidade do triunfalismo de sermos uma igreja de “santos lutando contra o pecado”, precisamos de uma igreja de pecadores lutando para ter santidade no presente século. E sobre todo este lixo evangélico, é bom que esteja ai, pois assim, cotidianamente, seremos seduzidos pelo lixo e isto desvelará as reais intenções dos nossos corações.

Não há apenas uma curva no rio. Há outras curvas mais atraentes, outras curvas com maior fluidez e outras curvas com belas flores, outras com galhos vigorosos. O rio é longo, e não estar engastalhado na curva dos evangélicos não torna alguém ou algum movimento mais aceitável, mais plausível perante Deus. Descer rio abaixo à procura de um novo movimento nas águas é coisa antiga, tem sim suas vantagens e também tem inúmeras limitações. Entretanto, o que poucos sabem é que cada vez que um lixo se desprende de uma curva do rio, este leva um pouco (quando não muito) da sujeira daquela referida curva. Da ilusão de pureza já tivemos demonstração suficiente do horror que é possível ser feito sob tais pressupostos, basta nos lembrar da curva do rio lá na Alemanha (refiro tanto a Lutero, quanto a Hitler – resguardo às devidas proporções e intenções).

Enfim, tenho convictas dúvidas se Deus quer que descemos o rio a procura de uma nova curva, que igualmente vai se emporcalhar. Talvez, nossa atual missão seja sermos o sal da igreja, retardando a putrefação desta. Talvez, nossa missão neste presente século seja ser a luz da igreja, evitando a cegueira total desta. Talvez, neste mundo tão evangelizado, precisemos voltar nossos olhos para a igreja e reenvangelizar. Talvez, seja o tempo de olharmos para trás ao invés de olhar pra frente. Talvez, seja o momento de pegarmos as enxadas, foices e rastelos, e então, começamos a limpar a nossa curva no rio, a começar de minhas próprias sujeiras e corrupções. Afinal, ainda há sete mil que não se dobraram a Baal (cf. 1 Rs 19:18). E convenhamos, sete mil enxadas, juntas, poderiam fazer uma boa limpeza...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Setembro de 2015

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Brasil, a Roma dos evangélicos


"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo".
Colossenses 2:8 (NVI) 

[acréscimo de 2015] Este artigo fora escrito em 15 de Abril de 2010, na época fora publicado em outras mídias institucionais. Contudo, passados mais de cinco anos (2015) e por perceber que o referido texto ainda consegue ser contemporâneo frente aos desafios da cristandade tupiniquim, então, optei em (re)posta-lo, na integra, no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013), mesmo com o evidente distanciamento dos eventos citados no artigo. Abaixo o texto no original (2010), como se segue:

O Império Romano foi um dos mais notáveis governos que o mundo já conheceu. Entre os diversos feitos, notáveis e deploráveis, há um em especial que fez de Roma um referencial no que tange a relação povo-poder, foi a famosíssima e controversa política social denominada de “panem et circenses, isto é, Pão e Circo. Basicamente a proposta era distrair as massas com os espetáculos sangrentos dos gladiadores e simultaneamente distribuir pão para os presentes nas arenas de Roma. Tal política não seria tão maquiavélica se de fato não encobrisse os problemas de Império em crise. A política do Pão e Circo surgiu quando o imperador percebeu que estava havendo uma migração dos camponeses para o centro urbano, porém não havia condições adequadas para atender as necessidades básicas desta tão grande massa, o que poderia ocasionar revoltas, reivindicações e rebeliões por todo o Império. Então, para encobrir tamanha incapacidade resolveu-se distrair a multidão (luta dos gladiadores) e aplicar medidas paliativas (distribuição de pão). Desta maneira o povo esquecia que viviam num Império em decadência e as massas ovacionavam os desonestos imperadores.

Deste os tempos de Roma até a contemporaneidade a política social do Pão e Circo nunca mais deixou de ser praticado pelos governos – afinal, é uma estratégia eficaz aos interesses dos poderosos, pois encanta o povo, desvia o foco das reais necessidades das massas e ofusca a calamidade existencial. Entretanto, mui estranho e, demasiadamente assombroso, foi perceber que a religiosidade neopentecostal brasileira está valendo desta artimanha para fascinar as massas evangelicais. O Pão e Circo Evangélico é mais maléfico que o praticado por Roma, pois os “imperadores evangélicos”, a semelhança dos fariseus bíblicos, estão conduzindo as pessoas há um cristianismo raquítico e artificial – “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” – Mt. 23:13. Portanto, como completa Philip Yancey: “A igreja existe, não para oferecer entreterimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso, a igreja fracassa”[1].

O cenário evangélico brasileiro tem sido marcado pelo suposto crescimento das igrejas e pelos constantes mega shows gospel. Há um em especial que merece destaque nas linhas que se seguem: “O Dia D – é hora da Decisão”, que acontecerá no dia 21 de Abril do corrente ano nas principais cidades do Brasil. Para as massas este é mais um mega show para glorificar a Deus, vislumbrar uma série de incontáveis milagres e um oportuno momento para ouvir música gospel de ótima qualidade, de grátis – já que atualmente na maioria dos demais eventos do gênero os preços de ingressos são altíssimos. Tudo isto é muito fascinante, imponente e espirituoso. Contudo, ao contrário daqueles que vão se juntar a multidão no “Coliseu da Fé” no dia 21 Abril, há alguns cristãos pensantes que não são facilmente encantados pela grandiosidade. Este será um típico Pão e Circo Evangélico, haverá luta entre homens e demônios, muita euforia musical e alimento “espiritual” para aqueles que se satisfaz com qualquer coisa.

O dia 21 de Abril será um Pão e Circo Evangélico pelas seguintes razões: 1) Quem está organizando o evento é Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), instituição que na pessoa de seu líder e outros bispos estão sendo alvo de diversas investigações criminosas – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para conseguir aliados contra a TV Globo e afirmar que tudo que está acontecendo é fruto de perseguição aos evangélicos; 2) A IURD sempre foi mal vista pela cristandade brasileira devido a liturgia nada convencional e pelas técnicas abusivas de coleta de dinheiro – então, o “Dia D” é uma excelente oportunidade para tornar as heresias mais comum ao povo, o que culminará gradativamente num sentimento de aceitação; 3) A IURD nunca foi uma igreja que primasse pela Palavra, sempre foi conhecida pelos milagres, porém nos últimos anos tem perdido este filão de mercado para outra igreja que é idêntica, a Igreja Mundial no Poder de Deus – então, o “Dia D” é uma grandiosa oportunidade para reconquistar a paixão dos crentes cambaleantes que foram hipnotizando pela Igreja Mundial e outra vez igualmente resumir a fé em milagres.

Há mais algumas razões que não podem ficar camufladas: 4) A IURD com este evento nacional está tentando desviar o foco das acusações e processos criminais entretendo o povo – então, o “Dia D” é uma oportunidade ímpar para fascinar com a grandeza do evento as cegas massas evangélicas brasileiras; 5) A IURD sabe que infelizmente as massas evangelicais respeitam uma igreja não pelo caráter cristão mais sim pelo sucesso de público (numerolatria) – então, o “Dia D” é a oportunidade perfeita para reunir centenas de milhares de pessoas e assim mostrar para a mídia que a IURD é forte, paralelamente mostrar para os pastores de outros ministérios que é mais inteligente se juntar a eles que se oporem; 6) A IURD sabe que há muitos líderes que fazem qualquer coisa para aumentar o rebanho – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para, disfarçado de manifestação cristã de unidade, conseguir alguns membros para as igrejinhas locais, assim os líderes destes ministérios serão eternamente cúmplice deste Pão e Circo Evangélico; e, 7) A IURD não está fazendo este evento para promover a evangelização, pois a divulgação tem sido numa linguagem tipicamente evangélica, com “artistas” evangélicos – então, o “Dia D” é uma oportunidade para bradar em alto som a adoração extravagante, declarar no reino espiritual e fazer inúmeros atos proféticos positivistas, afinal é disto que o povo crente gosta.

Enfim, definitivamente o Brasil é a Roma dos Evangélicos. Somente em terras tupiniquins o “Coliseu da Fé” reacende suas chamas e outra vez se torna o centro da vida religiosa das massas. Ali, debaixo da euforia do povo acontece a morte da razão, o suicídio do bom senso e o exaltação dos imperadores. Na arena deste vergonhoso Pão e Circo se esconde a igreja brasileira que finge não ser doente espiritualmente, fraca socialmente, despreparada teologicamente e imatura biblicamente. Por tudo isto o dia 21 de Abril será de fato o “dia D – é hora da Decisão” – Decisão de não participar deste pelourinho evangélico; Decisão de não ir para esta arena circense; Decisão de não se juntar a estes gladiadores da fé; Decisão de não celebrar estes imperadores eclesiásticos; Decisão de não aplaudir a morte do cristianismo. Por fim é valido endossar as palavras de Ricardo Gondim: “Aconselho que os crentes parem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre Cd de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - idem, para os meus. Depois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam. Não vá a congressos - inclusive o que eu promovo. Passe ao largo dos ‘louvorzões’...”[2].

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Abril de 2010



[1] Philip YANCEY, Igreja, Por Que me Importar?, p. 25.
[2] Perícope retirada do artigo de autoria do Ricardo Gondim, intitulado: “CONSELHOS PARA SOBREVIVER AO MUNDO GOSPEL”, disponível no site: www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

De tradicionais a pentecostais e de pentecostais a tradicionais


"Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes”.
Tito 1:9 (ACRF) 

A história recente da inconstante igreja evangélica tupiniquim revela mais um capítulo, no mínimo, bizarro. Percebe-se na atualidade vários tradicionais (“históricos” como gostam de ser chamados) virando pentecostais (“penteca” como não gostam de ser chamados), e o inverso é proporcionalmente verdadeiro, vários “avivados” sendo seduzido pelas Institutas de Calvino. Neste dualismo esquizofrênico emerge um novo tipo de crente brasiliano, um tanto quanto contraditório, demasiadamente entusiasmado com a nova doutrina e orgulhosamente superior aos demais que não atingiram tamanha maturidade. São uma geração de pentecostais-presbiterianos e, igualmente, de históricos-assembleianos. Este novo homus-gospel-tupi-bidoutrinariuns parece estar ganhando destaque e assim apagando o fogo dos celeiros avivalistas, e, também bagunçando o arraial da sã doutrina.

Alguns desavisados poderiam argumentar que o presente momento é resultado da busca por equilíbrio, ou seja, nem tão pentecostal, nem tão histórico. Até poderia ser verdade, se fosse verdade. O que se vê por ai nos guetos evangelicais são assembleianos se trejeitando de presbiteriano - querendo amenizar a predestinação, sufocando os dons para não desorganizar a doutrina litúrgica e fingindo concordar com Calvino para ver se assim é aceito pelos caciques presbiterianos. Do outro lado, temos presbiterianos com arquétipo de assembleiano – querendo ser avivado com moderação, aceitando os dons com ressalvas e papagaiando falar em línguas e decorando orações de celeridades gospeis para ser confundido com um avivalista internacional, tipo o “grandioso superman” Marco Faleciano ou o “espetacular” Silas Malafaia.

Dada às circunstancias descritas anteriormente, partindo do pressuposto que, salvo algumas exceções, que afugentam do estereótipo descritos acima, resta arrazoar que quando um assembleiano vira presbiteriano, então, a situação fica caótica. O problema se dá inicialmente pelo fato destes assembleianos-calvinistas ficarem mais orgulhosos do que por natureza já eram, pois agora esbravejam estar na doutrina correta, estes não se sentem superior, eles têm certeza absoluta que são, pois afinal somente no avatar assembleiano-presbiteriano é que se consegue juntar, num só corpo, a liberdade no Espírito com a doutrina. Estes enfrentam outro problema, que é a (in)conciliação das bases filosóficas-teológicas, dificilmente um assembleiano-presbiteriano vai conseguir aderir, totalmente, a ideias como: eleição incondicional, graça irresistível ou expiação limitada. Então, estes sempre serão estigmatizados como aleijados.

O inverso não é menos assustador, quando presbiterianos viram assembleianos. Neste caso o elemento orgulho já era intrínseco, apenas acentua. Então, o real problema é que estes mutantes presbiterianos-fogo-puro sempre querem continuar defendendo a doutrina calvinista, mesmo habitando em solos arminianos. São, portanto, bastante inconvenientes (chatos, numa linguagem mais adequada). Querem desfrutar de uma liturgia mais livre e espontânea, mas com coerência doutrinária calvinista – o que é incoerente e pouco provável de funcionar; querem calvinizar as pregações avivalistas como se estas fossem fontes de inspiração plena – o que torna um suicídio para a TULIP e provavelmente não saciará a plateia pentecostal. Sendo assim, estes sempre serão vistos como empecilhos para o agir do Espírito.

Enfim, o que estamos presenciando na história brasileira é uma incoerência teológica, não equilíbrio. O que estamos assistindo nos domingos é um sincretismo desordenado de ideias, não tolerância religiosa. O que se percebe são pessoas que de tão perdidas acham que encontraram o lugar certo, não convicção. O que precisamos resgatar é a necessidade de que presbiterianos sejam presbiterianos, e que assembleianos sejam assembleianos - não para dicotomizar a fé, mas sim para trazer identidade; não para categorizar os estilos, mas sim para haver profundidade doutrinaria; não para que haja certos ou errados, mas sim para que haja coerência teológica. E se for preciso mudar (de, para, histórico ou, de, para, pentecostal), que não seja uma forma frankensteinizada de cristão.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 12 de Janeiro de 2015

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Igrejas em processos de humanização


“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo”.
Efésios 4:31-32 (NVI) 

A expressão “igreja” sempre denotou alguma relação com o termo “espiritualidade”, que por sua vez carregava significados de uma verticalização no relacionamento homem-divindade – estas são premissas verdadeiras, essenciais e fundamentais a fé cristã. Fazer parte da Eclésia significava buscar uma aproximação com Deus, uma tentativa de se reconectar com o Criador e quem sabe resignificar as aspirações seculares com tons cristãos – pressupostos nobres de qualquer cristão em busca de uma vida aos moldes do caráter de Cristo. De fato, tudo isto está correto, porém igualmente está incompleto. Estranhamente aprendemos uma espiritualidade demasiadamente mística e desafortunadamente humanizadora, dicotomizando a fé em duas porções insolúveis: o sagrado (tudo que é igrejeiro) e o profano (tudo que se refere à normalidade da vida). É preciso redescobrir uma espiritualidade mais humana.

Jesus Cristo foi a própria personificação da necessidade de se des-espiritualizar a religiosidade, por esta razão Ele fez-se homem, habitou entre a humanidade, se secularizou, se contextualizou, viveu entre as pessoas, dialogou com as aflições humanas, fez-se gente (cf. Fp. 2:6-8). Jesus poderia ter criado uma forma espiritualizadora de reconexão com a divindade, acentuando e distanciando Deus das pessoas. Contudo, Ele optou por desestabilizar a religiosidade estabelecida (judaísmo) e aproximar-se das pessoas. Tudo isto para mostrar que o que mais precisamos não é de mais ritos espirituais unilaterais com Deus, mas precisamos redescobrir uma espiritualidade acolhedora, humanizadora e fraternal – caminho este desenhado pelo Filho do Homem.

Na igreja evangélica brasileira há muitas coisas que precisam ser repensadas com fins a não poluir mais a espiritualidade. Portanto, arrisco afirmar que não precisamos de mais 12 horas de adoração na igreja, ação esta que na verdade é uma tentativa compensatória para um cotidiano sem espiritualidade – já temos 24 horas de adoração por dia, todos os dias; não precisamos mais de músicas lentas (chamadas, estranhamente, de adoração) que nos fazem fechar os olhos durante o louvor e, então, não perceber a pessoa ao nosso lado – cantar junto sem estar junto é no mínimo bizarro; não precisamos mais de campanhas de restituições possessivas para com Deus, pois estas campanhas só têm nos feito criar uma espiritualidade bancária (extrativista) – para tristeza de alguns sanguessugas crenteiros, é preciso que entendam que o melhor de Deus não está por vir, O melhor já veio (Jesus).

É possível redescobrir uma espiritualidade mais humanizadora, é sim possível fazer da igreja uma irmandade que exala uma espiritualidade a partir das normalidades interacionistas eclesiásticas. Para isto acredito piamente, e axiomaticamente, que o caminho se dá a beira da mesa. Mesa de comida, digo. Talvez seja por estar razão que a ceia, ritual litúrgico máximo dos cristãos, se dê com comida (pão e vinho). Talvez seja por isto que o Cristo ressurreto fez-se registrar comendo peixe e mel com os discípulos antes de subir aos céus (cf. Lc. 24:42). A comida é mais que alimento, é ponto de encontro para diálogos, interações, intervenções, aproximações, abraços, sorrisos, perdão, arrependimento e etc. A comida é espiritualizadora, pois aproxima os irmãos, tornando-os de fato irmãos, gerando comprometimento/entrosamento e fortalecendo a fé um dos outros.

O escritor, Tiago, registra uma inquietante sentença ao ponderar sobre a verdadeira religiosidade não pelos parâmetros da clássica espiritualidade (homem-Deus), mas nivelando-a a partir da humanização (homem-Deus-homem), ele afirma: “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” - Tiago 1:27 (NVI). É preciso reiterar, ao fim deste texto, que igreja é lugar de encontrar Deus, mas também de encontrar gente, e não podemos esquecer, que estes dois sujeitos (Deus e o homem) também são encontrados fora da igreja, demonstrando como a fé tem proporções integrais e integradoras, rompendo os limites geográficos da espiritualidade igrejeira e resignificando a jornada cristã cotidiana.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 14 de Novembro de 2014

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A relevância de nossos cultos irrelevantes


“Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês”.
Romanos 12:1 (NVI)

O culto dominical em solos tupiniquins a muito já deixou de ter sua “relevância”. O que se percebe é um grande espetáculo de desorientação doutrinária, litúrgica e teológica. As músicas não agregam valores cristãos, mas sim uma luta individualista por vitória. Os momentos dos avisos não mais informam sobre as programações eclesiásticas, apenas exibem pessoas recheadas de improvisos. O sagrado momento das ofertas/dízimos não mais se dá a partir da gratidão, mas desnuda nossa mais vil forma de manipulação. As pregações que outrora chamávamos de sermões pelo seu valor doutrinário, agora se rebaixam ao nível vexatório de algo próximo a auto-ajuda. A leitura bíblica que abalizava nossa fé, hoje serve apenas como textos aleatórios para abrir e encerrar cultos. O prelúdio e poslúdio que eram momentos de profunda reflexão pessoal sobre a vida cristã perderam espaço para o lúdico, afinal, culto não mais é um lugar de reflexão, mas agora é apenas de celebração.

O cenário caótico de nossos cultos dominicais brasileiros nos faz questionar a real relevância de nossos aglomerados semanais. Até mesmo no mais zeloso dos ambientes protestantes percebe-se uma gradativa mutação entre o que é certo pelo o que se está dando certo. Até mesmo os mais coerentes pregadores percebem uma crise didática entre o que se ensina e a capacidade de absorção/aplicação aos ouvintes. Até mesmo nas ditas igrejas históricas que tinham como identidade litúrgica uma organização exemplar, que apresentavam lógica cerimonial, tem que admitir que nos tornamos algo tipo Jornal Nacional, ou seja, um monte de notícias que não tem nenhum nexo entre si – informando de tudo, mas não esclarecendo nada. Por isto, não seria exagero afirmar que o caos não está apenas nas igrejas neopentecostais, o vírus contaminou toda a irmandade evangelical tupiniquim, obviamente que alguns apresentam os sintomas de forma mais aguda, outros conseguem camuflar e, talvez, até minimizar o impacto viral na congregação.

Daqui, em meio ao lamaçal gospel, nós poderíamos chegar a triste conclusão de que o culto não mais ensina, não tem sentido, é uma perda de tempo. Talvez! Contudo, proponho nas linhas que se seguirão uma nova percepção sobre o nossos cultos irrelevantes. Para tanto, proponho que voltemos nossos olhares para fora da igreja e pensemos por um tempo sobre a relevância do ensino secular na nossa formação. Tente lembrar-se de conceitos do ensino fundamental e do ensino médio – não me refiro a momentos ou integrações sociais. Tente lembrar-se dos ensinos da gramática que a professora de português tanto se esforçou para ensinar. Tente lembrar-se do cálculo da tal tartaruga que sempre aparecia nas provas de física para se calcular a velocidade. Tente lembrar-se da tabela periódica da química. Tente lembrar as fórmulas enigmáticas da matemática. Tente lembrar-se dos conceitos empenhados para a alfabetização. Enfim, tente lembrar-se, conceitualmente, do que você aprendeu nos seus primeiros dez anos de vida escolar. Arrisco dizer que pouco ou nada nos vem à mente em termos conceituais. Por esta razão, muitos julgam a escolarização uma perda de tempo com pouca relevância para a vida adulta.

O fato de não nos lembrarmos dos conceitos do ensino médio não os tornam irrelevantes, pois por mais que não nos lembremos de quase nada daquela época estes foram anos importantíssimos para a formação intelectual que viria posteriormente. As bases do pensamento se sedimentaram a partir daqueles ensinos que hoje nem lembramos. A capacidade de raciocínio se deu a partir daquelas reflexões que hoje nem sabemos quais eram. A lógica interpretativa se impulsionou com aqueles textos aparentemente infantis que hoje desprezamos. As fórmulas e teorias que hoje questionamos sua funcionalidade formaram nossa visão holística/interdisciplinar sobre o mundo. Enfim, não podemos avaliar nossa jornada acadêmica pelo hoje sem reverenciarmos o passado irrelevante que tivemos. O caos de se estudar várias disciplinas desconectadas entre si não foi desorientação acadêmica, foram relances que fomentaram uma cosmovisão multidisciplinar. Não lembrar-se de algum conceito não quer dizer que não aprendemos sobre, pois este permanece em nosso subconsciente e de lá vai dando relevância para nossos conceitos contemporâneos.

A igreja e a escola se parecem muito. Ambas vivem recebendo críticas sobre sua relevância. E, como fora exposto, há muita irrelevância na historicidade de cada uma. Contudo, estas irrelevâncias não as tornam desnecessárias. Não podemos cometer o celebre erro de julgar ações coletivas a partir de critérios individuais. O que é desprezível para um, pode ser essencial para outro; o que se apresenta como um imenso erro na visão de um, pode ser o lampejo de maturidade para outro; o que se caracteriza como uma grande perda de tempo para um, pode ser o mastro de esperança para outro; o que alguém poderia julgar como uma atitude infantil, pode ser o elo integrador para outro; o que alguém poderia avaliar como irrelevante, pode ser a única coisa relevante para o outro. Por fim, temos que admitir nossa incoerência histórica que descortina nossa incapacidade avaliativa dos fatos e tempos. Há muita irrelevância em nossos cultos, mas fico a pensar, se fizéssemos uma mutilação e cortássemos os tais “tumores”, o que nos restaria? Não podemos esquecer que a obra de Deus não é feita por causa da nossa altiva relevância. Que possamos redescobrir a relevância de nossos cultos irrelevantes, pois como afirmava Clarice Lispector: “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 18 de Dezembro de 2013

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pitacos na "privada" educação superior brasileira



"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina". 
Cora Coralina – poetisa goiana (1889-1985) 

A globalização é uma das marcas da sociedade do século XXI. Por conseguinte, as informações estão em constante mudança e os padrões de qualidade sempre se elevando. O ensino superior privado no Brasil não está imune a esta verdade dos tempos pós-modernos. Portanto, torna imperativo que os professores estejam sempre em constante aperfeiçoamento para que sejam capazes de responder eficazmente as questões de seu tempo. A formação e profissionalização dos docentes têm que ocupar primazia nas discussões acadêmicas, caso contrário o ensino superior privado brasileiro transmitirá uma mensagem descompassada das novas releituras mundiais e será impotente para transformar a realidade sócio-profissional dos alunos.

O presente século tem sido marcado pelas constantes mudanças e pela avalanche de informações disponíveis para a sociedade. Para tanto, torna-se imperativo que os professores do ensino superior privado acompanhem esta evolução do saber e estejam aptos a interagir com a mutação do conhecimento. A docência superior necessita de profissionais da educação que estejam sempre em constante aprendizagem para possam ser eficazes. Ser professor não pode ser resumido a uma parcela de tempo que se passa em sala de aula, porém carece de uma dedicação de vida e uma busca insaciável pelo conhecimento. Ser professor é tornar-se sempre aluno. Por esta razão a presença ou não da formação continuada de professores é o fator determinante do sucesso ou fracasso das Instituições de Ensino Superior da rede privada.

Um dos grandes problemas que faz os professores do ensino superior da rede privada não desenvolverem uma cultura de formação continuada se deve pelo fato de estes enfrentarem uma jornada de trabalho dupla, são empregados durante o dia e professores a noite. Com esta realidade trabalhista exaustiva (matutino, vespertino e noturno) é evidente que não há tempo para aperfeiçoamento e cursos, além do stress inerente desta dupla carreira. Desta maneira, o professor tem que ser um verdadeiro malabarista e conseguir o improvável, conciliar como professor: tempo de preparo de aula, a aula e correção de atividades; e conciliar como empregado: realização de rotinas administrativas, inovação e liderança. É visível que uma das duas áreas ficará prejudicada, tristemente quase sempre é o ser professor que fica relegado ao improviso – até mesmo porque muitos nem reconhecem a docência como profissão.

A formação continuada dos docentes universitários da rede privada se apresenta como uma proposta distante da realidade de muitos destes profissionais da educação principalmente pela falta de incentivo financeiro para os docentes. Pelo fato da educação superior privada ter se popularizado o valor das mensalidades ficaram mais acessíveis, porém “do outro lado da corta” o resultado obviamente seria idêntico, ou seja, a remuneração do professor também ficou baixa. Portanto, torna-se necessário a intervenção de terceiros para viabilizar financeiramente e ajudar a custear os cursos de aperfeiçoamento, especializações e congressos diversos. A instituição que não tem como filosofia educacional a prática de cooperar na formação dos docentes não tem um futuro promissor.

Outro fator que corrobora para que haja professores no ensino superior privado sem pretensões de continuar estudando e sem ambições de melhor se qualificar para o oficio de docente, é que as Instituições de Ensino Superior não fazem disto um pré-requisito para contratações. Tendo apenas uma pós-graduação lato sensu já é suficiente para ser professor por tempo indeterminado em várias instituições brasileiras. A profissionalização e a formação continuada dos professores do ensino superior privado são imprescindíveis para os que querem percorrer a jornada da docência no século XXI. Aqueles que são professores precisam entender que simultaneamente são alunos. Em formação continuada um ciclo é constância: ensinar é aprender. A profissionalização e a formação continuada do professor irá fomentar a produção cientifica e a pesquisa – pilares de saber em constante atualização. Escritor e professor são duas performances inerentes a aqueles que ousam percorrer o caminho da educação.

A capacidade de escrever do professor fomentará o instinto de pesquisa do mesmo. E, é por meio desta investigação científica que se constrói um saber forte o suficiente para transformar pessoas e mudar opiniões, valores e atitudes. Seja pela busca de confirmação sobre um paradigma ou mesmo visando contradizer o tal, o campo da pesquisa se torna o palco perfeito para apalpar reflexões que por si próprio se tornam agente independentes (produções literárias) e por conseguintes são passivos a críticas, o que é fundamental para o processo de aprendizagem. A capacidade de interação com a pesquisa e a produção científica fará com que o aluno (e/ou o professor) não apenas decore conhecimentos ou muito menos memorize alguns preceitos, mas fará com que ambos envolvidos no processo aprendam e tornem útil o objeto do saber.

Ser o professor um agente de transformação é admitir que este tenha capacidade de sistematizar conhecimentos, correlacionar proposições de forma lógica, raciocinar criticamente, registrar coerentemente o conteúdo na forma escrita e ter maturidade de expor o produto final a outros cientistas do saber (professores e alunos), a fim de peneirar o então novo paradigma. O professor, então, não pode se contentar em ser apenas uma “babá” de alunos, simplesmente cuidando para que não façam bagunça dentro da escola. Não pode se contentar em ser apenas um “torcedor” que se satisfaz em estar na plateia esperando que o time (aluno) vença. Ser professor é incumbir-se da tarefa de fazer alunos se tornem pesquisadores, é empenhar-se para tornar estudantes em seres capazes de produzir literatura, e, é fazer meros discentes se tornarem de forma plena cientistas do saber. Tais postulados não seriam utópicos se os docentes conseguissem atingir este patamar antes de ousarem serem professores. 

Fortalecido pela cruz de Cristo, 
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br 
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Artigo escrito em: 25 de Novembro de 2010