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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Na expectativa do novo, de novo!


“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”
2 Coríntios 5:17 (NVI)

No limiar de um novo ano que temporalmente se aproxima, alguns descontentamentos sociais e existenciais se trejeitam de aspirações esperançosas. Ao que parece a frenesie entusiástica em torno do ano novo se dá, pois este dia qualquer consegue, simbolicamente, marcar o novo, ainda que tudo seja mui semelhante ao velho que se intenta abandonar. O ano novo numa sociedade que busca exaustivamente o novo, o tempo todo, todos os dias, se torna o totem indenitário do muito mais do mesmo com tons de diferente, mero ilusionismo temporal, pois apenas reproduz por meio da suavidade midiática a escravidão da sociedade de consumo, que encontra o seu auge nesta modernidade tardia do tempo presente, e que se renova ano após ano, especialmente na ocasião do ano novo.

A lógica mercadológica do consumo se dá pelas vias do convencimento da necessidade do novo, por isto se faz o novo produto, a nova mercadoria, a nova ideia, a nova marca e o novo etc. E é exatamente neste mesmo viés que se produza a noção de: Ano novo! Planos novos! Expectativas novas! Carro novo! Emprego novo! Casa Nova! Vida nova! Amigos novos! Curso novo! Faculdade nova! Moveis novos! Namorado(a) novo(a)! Professores novos! Pastor novo! Igreja nova! Liderança nova! Roupa Nova! Música nova! E por ai vai... tudo altamente consumível e vendável – algo bem peculiar aos homens errantes. Vivemos, portanto, na tirania do novo, sufocados dia após dia pela suposta necessidade de algo novo, num processo de esquizofrenia angustiante do conceito de vida, paz e felicidade – como se estes distintivos fosse algo novo e que resultasse diretamente da ação humana por si só.

O novo fascina tanto, pois desde as eras antigas, nos adestram no discurso de que é preciso se livrar do velho, o mais rápido possível, e em alguns casos isto se torna a estratégia de sobrevivência em grupos coletivos, especialmente para a geração atual, mais especificamente para as juventudes. Isto porque o antigo traz consigo lembranças, consciência, historicidade, memorias, trajetórias, perguntas, dúvidas, questões mal respondidas... então, o antigo desnuda quem somos (ou fomos - se é que há diferença), ainda que não queiramos, ainda que não gostemos, ainda que neguemos. Somos o que somos, mesmo que se tenha um ano novo, uma casa nova, uma igreja nova, um emprego novo, uma roupa nova, uma faculdade nova... Não é possível fugir de si mesmo, e então, também não será possível renovar a si mesmo, por si mesmo, para si mesmo. Estamos presos em nós mesmos e isto se reproduz nas práticas cotidianas e nos definem, desvelando a nossa incapacidade de desfrutar o verdadeiro novo, exatamente pelo que somos em nossa essência, e isto o velho não nos deixa esquecer, ainda que tenhamos celebrado um ano novo.

O ano novo é apenas uma data, a casa nova é apenas um local, o carro novo é nada mais que modernização, o emprego novo é apenas uma outra opção, a igreja nova é apenas mais um local de culto, a música nova é apenas uma outra maneira de tocar, o novo relacionamento afetivo é nada mais que tentativas, a roupa nova é apenas uma adequação da moda... enfim, nada disto é realmente novo, no máximo, pra você (e pra mim), é apenas uma forma diferente de se fazer algo, o que não traz consigo atributos do novo (o termo diferente não é sinônimo do termo novo), pois trocar a forma de se fazer por outra forma de se fazer é permanecer na categoria das coisas velhas, ainda que com ares de novidade. Neste sentido a exterioridade pode não ter consonância com a essência interior, ainda que reproduzindo cotidianamente. É valido lembrar que aos velhos seres humanos a capacidade de enganar é bem natural, representativa e espontânea, ainda que com ares noviços.

Aqui se faz imperativo a compreensão de que assim como a verdade, a vida e o caminho são únicos (cf. Jo 14:6), o novo também o é, e só se torna atingível pela Graça que emana dAquele que é as Boas Novas (cf. Mc. 1:14). Por esta razão, só Ele pode fazer o novo, só Ele pode nos fazer em nova criatura, e assim, gradativamente irmos percebendo que “as coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (cf. 2 Co 5:17), mesmo que não estejamos perto de um ano novo, nem numa casa nova, nem numa igreja nova, nem numa cidade nova, nem num emprego novo... o verdadeiro novo não é datável e não se assemelha a sufocante euforia exterior de se parecer ser novo, mas que só consegue produz cansaço e opressão aos velhos romeiros. De contrapartida, o Carpinteiro propõe o novo que produz descanso para as almas, pois com Ele o novo é um processo de jugo suave e de fado leve (cf. Mt. 11:28-30).

Para que realmente haja o novo, por causa de quem somos, é preciso de algo externo a nós mesmo, maior do que nós mesmos e superior a nós mesmos. Estranhamente, e até aparentemente contraditório, o novo só se dá partir da imutabilidade e da atemporalidade, ou seja, uma natureza diferente da nossa humana. Somente quem é o mesmo ontem, hoje e eternamente (cf. Hb. 13:8) sabe distinguir as diferenças entre o velho e o novo. Somente Aquele que conhece a natureza humana como um artista conhece as nuanças de sua própria obra de arte, criada por suas próprias mãos (cf. Gn. 1:27), é capaz de decifrar as inconclusões existências do velho-novo ou do novo-velho. Portanto, somente Aquele que pode dizer “eu sou” (cf. Ex. 3:14) é capaz de criar o novo junto aqueles que no máximo conseguem estar sendo temporalmente; somente Ele é capaz de criar uma nova criatura sem precisar de ano novo ou qualquer outro apetrecho externo novo; somente Ele é capaz de metamorfosear a existência humana no mais intimo  interior produzindo mudanças eternas, e assim, apontar para o novo Caminho onde as “coisas novas” são consequências de uma nova vida (cf. 2 Co. 5:17).

O novo marca o rompimento com o velho, mas isto não quer dizer que não haja relativa relação entre estes, até porque só se pode julgar algo novo tendo por base a noção de que houve o velho, por isto há relação entre o velho e o novo (a reciproca também é verdadeira). Neste viés, em termos de prática da vida cristã, o velho é abandonado enquanto vivência pecaminosa cotidiana, mas permanece vivo na memória como que num lampejo histórico para nos fazer lembrar, a cada novo dia, que o Carpinteiro nos concedeu gratuitamente o novo Caminho e, então, requer fidelidade para que andemos em “novidade de vida” (cf. Rm. 6:4) e assim irmos nós nos despindo do velho homem (cf. Cl. 3:9) a cada novo dia. É fato que a velha natureza pecaminosa ainda nos perseguirá a cada ano novo, a velha essência corrupta ainda estará a espreitar no novo emprego, os velhos hábitos ainda sussurrarão na nova igreja, as velhas práticas ainda insistirão em florescer no novo relacionamento, a velha praxe baterá a porta do coração ainda que tenhamos um carro novo, uma roupa nova, um pastor novo, uma casa nova, uns amigos novos, uma bicicleta nova...

Enfim, nada será realmente novo sem antes nascer de novo (cf. Jo. 3:7), e após isto, fixando os olhos em Jesus (cf. Hb. 12:2), ai sim, e somente ali, podemos caminhar “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (cf. Fp. 3:13,14). Portanto, qualquer expectativa do novo sem Cristo é apenas uma maquiagem e reprodução do velho, uma mera ilusão temporal de ano novo em ano novo. A nossa velha natureza pecaminosa nos faz lembrar que necessitamos do novo para prosseguir, e o novo nos faz lembrar que fomos livres de um passado de condenação. Portanto, como que num grito de coerência, mais uma vez, se faz necessário insistir aos que estão no Caminho, que vivam em “novidade de vida” (cf. Rm. 6:4), a cada novo dia, a cada novo ano, lembrando que somos feitura dEle, “criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (cf. Ef. 2:10).

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra
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Artigo escrito em: 21 de Dezembro de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

O amanhã é apenas uma invenção


“não se gabe do dia de amanhã, pois você não sabe o que este ou aquele dia poderá trazer”
Provérbios 27:1 (NVI)

O amanhã é uma invenção. Invenção de gente que se encanta com o folclore do controle existencial; invenção daqueles que querem simplificar a história em frações e periodicidade. É preciso lembrar que não nascemos com esta noção temporal. Enquanto crianças o amanhã era sempre o após dormir. Acordar, então, significava um novo dia, o presente. Dizer que amanhã ou dias depois iriamos fazer tal coisa, ou que daqui umas semanas seria uma data comemorativa, isto não fazia sentido, pois o que existe é apenas hoje agora, amanhã é apenas uma invenção de adultos.

O amanhã é a pretensão de gente que acredita que pode programar algo nesta vida. O amanhã é ininteligível, improvável, intocável. O amanhã, a bem da verdade, nunca existe, pois no amanhã será hoje. Por isto, o amanhã é uma invenção. É uma desassociação de nossa herança divina, eterna, que não se faz com conjugações no pretérito, presente e futuro. A noção de amanhã é uma desconstrução dos atributos comunicáveis de Deus com a humanidade. Fomos criados a partir da eternidade, nossa provisoriedade e moratória existencial é supérflua. Somos eterno, então, o amanhã não importa, é apenas uma invenção.

Para Tiago o amanhã não nos pertence, e lembra: “como é que sabem o que vai acontecer amanhã? A duração das suas vidas é tão incerta quanto à neblina do amanhecer; agora se vê, mas logo se esvai” (Tg. 4:14). Para Salomão o amanhã, se é que existe, pertence a Deus, por isto adverte: “podemos muito bem fazer planos para o futuro mas o resultado final é o Senhor que produz”. Para Jesus o amanhã é motivo de despreocupação, e aconselha: “portanto não fiquem preocupados com o dia de amanhã. Deus cuidará do dia de amanhã para vocês...”. Então, amanhã, ontem, daqui uns dias... pouco importa. Tudo isto é apenas invenção de gente que se esqueceu da eternidade que ainda pulsa em nossas veias.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra
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Artigo escrito em: 31 de Março de 2016

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Igrejas em processos de humanização


“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo”.
Efésios 4:31-32 (NVI) 

A expressão “igreja” sempre denotou alguma relação com o termo “espiritualidade”, que por sua vez carregava significados de uma verticalização no relacionamento homem-divindade – estas são premissas verdadeiras, essenciais e fundamentais a fé cristã. Fazer parte da Eclésia significava buscar uma aproximação com Deus, uma tentativa de se reconectar com o Criador e quem sabe resignificar as aspirações seculares com tons cristãos – pressupostos nobres de qualquer cristão em busca de uma vida aos moldes do caráter de Cristo. De fato, tudo isto está correto, porém igualmente está incompleto. Estranhamente aprendemos uma espiritualidade demasiadamente mística e desafortunadamente humanizadora, dicotomizando a fé em duas porções insolúveis: o sagrado (tudo que é igrejeiro) e o profano (tudo que se refere à normalidade da vida). É preciso redescobrir uma espiritualidade mais humana.

Jesus Cristo foi a própria personificação da necessidade de se des-espiritualizar a religiosidade, por esta razão Ele fez-se homem, habitou entre a humanidade, se secularizou, se contextualizou, viveu entre as pessoas, dialogou com as aflições humanas, fez-se gente (cf. Fp. 2:6-8). Jesus poderia ter criado uma forma espiritualizadora de reconexão com a divindade, acentuando e distanciando Deus das pessoas. Contudo, Ele optou por desestabilizar a religiosidade estabelecida (judaísmo) e aproximar-se das pessoas. Tudo isto para mostrar que o que mais precisamos não é de mais ritos espirituais unilaterais com Deus, mas precisamos redescobrir uma espiritualidade acolhedora, humanizadora e fraternal – caminho este desenhado pelo Filho do Homem.

Na igreja evangélica brasileira há muitas coisas que precisam ser repensadas com fins a não poluir mais a espiritualidade. Portanto, arrisco afirmar que não precisamos de mais 12 horas de adoração na igreja, ação esta que na verdade é uma tentativa compensatória para um cotidiano sem espiritualidade – já temos 24 horas de adoração por dia, todos os dias; não precisamos mais de músicas lentas (chamadas, estranhamente, de adoração) que nos fazem fechar os olhos durante o louvor e, então, não perceber a pessoa ao nosso lado – cantar junto sem estar junto é no mínimo bizarro; não precisamos mais de campanhas de restituições possessivas para com Deus, pois estas campanhas só têm nos feito criar uma espiritualidade bancária (extrativista) – para tristeza de alguns sanguessugas crenteiros, é preciso que entendam que o melhor de Deus não está por vir, O melhor já veio (Jesus).

É possível redescobrir uma espiritualidade mais humanizadora, é sim possível fazer da igreja uma irmandade que exala uma espiritualidade a partir das normalidades interacionistas eclesiásticas. Para isto acredito piamente, e axiomaticamente, que o caminho se dá a beira da mesa. Mesa de comida, digo. Talvez seja por estar razão que a ceia, ritual litúrgico máximo dos cristãos, se dê com comida (pão e vinho). Talvez seja por isto que o Cristo ressurreto fez-se registrar comendo peixe e mel com os discípulos antes de subir aos céus (cf. Lc. 24:42). A comida é mais que alimento, é ponto de encontro para diálogos, interações, intervenções, aproximações, abraços, sorrisos, perdão, arrependimento e etc. A comida é espiritualizadora, pois aproxima os irmãos, tornando-os de fato irmãos, gerando comprometimento/entrosamento e fortalecendo a fé um dos outros.

O escritor, Tiago, registra uma inquietante sentença ao ponderar sobre a verdadeira religiosidade não pelos parâmetros da clássica espiritualidade (homem-Deus), mas nivelando-a a partir da humanização (homem-Deus-homem), ele afirma: “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” - Tiago 1:27 (NVI). É preciso reiterar, ao fim deste texto, que igreja é lugar de encontrar Deus, mas também de encontrar gente, e não podemos esquecer, que estes dois sujeitos (Deus e o homem) também são encontrados fora da igreja, demonstrando como a fé tem proporções integrais e integradoras, rompendo os limites geográficos da espiritualidade igrejeira e resignificando a jornada cristã cotidiana.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 14 de Novembro de 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Deus, uma kombi e vários "se"


“...se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo”.
Tiago 4:15 (ACRF)

No dia 21 de Junho de 2014 tivemos o infortúnio de perdermos a Kombi (2013/2014) de nossa Instituição (Missão Tocando as Nações) para dois ladrões que, a mão-armada, levaram a Kombi para algum lugar desconhecido por nós. Deste fato horrendo, a semelhança das coisas do gênero das (des)graças, suscitou vários questionamentos, dúvidas e inquietações. Frases estas que quando verbalizadas sempre vinham com o perturbador “se”. E desta ausência material (Kombi) vagueamos nossos corações entre Sherlock Holmes, mãe Diná e Capitão Nascimento. Nos hiatos existenciais entre desesperança e fé, frustração e soberania de Deus, percebe-se nossos medos teológicos, desnuda nossa visão de Deus e ratifica nossas percepção sobre o Cristianismo. Tudo depende de onde colocamos o “se”.

Se Deus estiver querendo nos ensinar algo... Esta é a principal via quando somos assolados por perdas. Temos a visão de um Deus que se assemelha a um rígido professor que ensina pela perda, pela dor e pela palmatoria. Deus este que sempre está a ensinar uma lição de vida, uma frase de efeito, um jargão para ser guardado. Então, desmistificando esta posição, e contrariando o senso-comum cristão, Deus sempre está nos ensinando, não apenas quando perdemos, mas principalmente quando ganhamos. Deus é o professor por excelência e nos ensina no cotidiano, nas coisas simples da vida. Só não vê isto quem ainda espera o dia da prova como auge do ensino, para estes tudo se limita às provas.

Se Deus estiver pesando a mão... Esta é uma posição não muito rara, porém pouco verbalizada, pelo menos na frente dos envolvidos na trama do roubou. Para estes “The Avengers” (referência ao filme da MARVEL, 2012) Deus é mais que um cruel professor, é acima de tudo um vingador perverso. Para estes o mal é bem visto, principalmente porque aconteceu com o outro. Aqui desnuda o nosso mais vil evangeliquês que sempre acredita que Deus está pronto a punir o outro, que sempre é o outro o grande pecador, que o outro é alvo da ira desenfreada de Deus. O que está por detrás desta afirmação é a super espiritualidade destes que resumem toda coisa ruim na frase “Deus está pensando a mão”. O irônico é quando a coisa ruim acontecem a estes, dai a frase muda é fica assim: “foi o Diabo quem fez isto”. E é dai que sai o próximo “se”.

Se foi o Diabo quem roubou a Kombi para atrapalha a obra de Deus... Como dito no parágrafo anterior, geralmente quem verbaliza está afirmação o faz acreditando na seriedade e comprometimento cristão dos envolvidos no desfortúnio. Esta parece ser uma confortável argumentação, principalmente por creditar ao Diabo todo mal e sorrateiramente supervalorizar homens. Então, esta é uma argumentação no mínimo perigosa. Atribuir tudo ao Diabo é fuga de responsabilidade, tentativa de demonizar os fatos e propagar uma cultura de raiva (guerra) – tudo isto ofusca a beleza da ação de Deus que age na história de forma nada lógica ou consensual. Pior ainda é acreditar que nós somos importantíssimos (imprescindíveis) na obra Deus e que agora, sem a Kombi, tudo está prejudicado – isto sim é infantilizar a fé, pois esquecem que Deus é maior que a obra, se esquecem que para Deus nada é impossível, e , esquecem que Deus é o maior interessado na continuidade da expansão do Reino.

Se a Kombi tivesse seguro ou rastreador... Esta também é uma das vias mais comuns de argumentação. Ouvir tal questionamento de quem não convive com o dia-a-dia da Missão Tocando as Nações é até entendível, mas o estranho é perceber tal construção entre aqueles que convivemos. A Missão Tocando as Nações é uma Instituição pequeninhinha, nunca recebemos nenhum tipo de verba governamental ou de empresas privadas, todo o nosso sustendo se dá por ofertas voluntarias e recebimentos de alunos em nossos cursos. O resultado é que vivemos numa dificuldade financeira de proporções gigantescas. Pagar uma conta de luz é quase viver um milagre, pagar a conta do telefone é da ordem do mistério, colocar combustível para ir aos projetos é sempre uma aventura. Então, termos condição de pagar seguro ou rastreador é quase uma fusão mística-cósmica. Ah! Só a título de informação, a referida Kombi foi um presente que ganhamos, pois não tínhamos (nem temos) dinheiro para comprar Kombi.

Se a Kombi tivesse bloqueador resolveria o problema... Esta é uma afirmação tanto quanto controversa. O bloqueador pode ser uma boa solução para evitar o roubo, porém no nosso caso o roubo se deu na porta da casa de um integrante de nossa Instituição, o que poria em risco a família deste, pois os ladrões sabem onde ele mora e com certeza voltariam, e acredito que não seriam gentis. Tanto o postulado do seguro, como no caso do rastreador, e ainda na ausência do bloqueador, são soluções possíveis, que poderíamos ter tentado fazer uma vaquinha e pagar os referidos custos. De fato neste caso fomos omissos (mesmo com a realidade financeira exposta no parágrafo anterior). Milagre por milagre já vemos isto todos os dias, mais um não seria novidade. Contudo, o que se descortina destes dois últimos parágrafos são dois perigosos postulados: 1) de que precisamos culpar alguém quando as coisas dão errado; e, 2) acreditar que tudo se resume á esfera humana. Ao contrário dos primeiros “se”, aqui Deus parece estar longe.

Basicamente estes são os clássicos “se” que ouvimos e proferimos. Se há verdade em cada um destes “se” o tempo nos dirá. Ao que parece o problema está no fracionamento de Deus nas posições anteriores, dificultando perceber uma ação divina mais completa e complexa. Por esta razão, aventurarei propor nos próximos parágrafos outros “se” que beiram ao ilógico, utópico e a heresia. Contudo, já que este espaço fora reservado para tantos “se” porque não tentar vislumbrar algo fora do comum. Meio que tentando tatear algo mais nobre na (des)graça. Tentar perceber mais de Deus nesta história que a nós é da ordem do horror, mas que pode ser uma bela obra de arte do Autor da Vida. Tentar encontrar mais perguntas que despertem o interesse por Deus, do que encontrar respostas prontas e requentadas de uma religiosidade que cheira ao humano.

Se esta foi a vontade de Deus... pura e simples, sem explicações, sem lições ou sem moral. É fato que nos perdemos muito em tentar responder as ações de Deus. Temos que reconhecer que quase sempre não entendemos o que Deus está fazendo. Os intentos dEle são infinitamente superiores ao nosso, e Ele não tem que ficar explicando nada para nós, humanos. Ele rege a história como lhe apraz. Deus não está brincando de charadas, em que nós temos que ficar criando respostas por tentativa e erro. E, por mais que soe entranho, temos que admitir a possibilidade de Deus ter sido o protagonista do roubo da Kombi por razões que acredito nunca entenderemos. Quem sabe, fico apenas a imaginar, se com este roubo aqueles ladrões vão de alguma forma se encontrar com Cristo, e então, o roubo da Kombi se torna insignificante e ao fim tenha a Kombi se tornado mais útil ao Reino.

Se este roubo na verdade foi é um livramento... O fim desta história poderia ter sido pior, poderia estar escrevendo sobre a morte do condutor da Kombi, ou quem sabe relatando sobre visitas a UTI de um hospital. Então, por esta razão, este seria o momento oportuno para dar graças a Deus por ter sido apenas a Kombi a vitimada. E por mais que não se diga por ai, pessoas ainda são mais importantes que coisas. Após uma semana do roubo parei para analisar as interpelações dos que recebiam a notícia que a Kombi havia sido roubada, e poucas foram as pessoas que interromperam o discurso perguntando se alguém se feriu (inclusive eu mesmo não fiz este questionamento no momento que recebi a trágica notícia). É perceptível a diferença entre o desespero dos que restringem a informação ao fato da Kombi ter sido roubada, e o suspiro de alívio dos que percebem que ninguém se feriu.

Se o roubo da Kombi fora para novamente nos angustiarmos pela compra de outra... Digo angustiar, pois para comprar a nossa primeira Kombi em dezembro de 2009 (Kombi usada, muito usada – 2000/2000, R$ 15,000.00 reais) tivemos que fazer por mais de um ano rifas, cantinas, jantares, pedir ofertas publicamente, nos humilharmos (na época pessoas postaram no site dizendo que era vergonhoso o que estávamos fazendo, pedindo dinheiro para a compra de uma Kombi - entre outras forma de depreciação de nossa incapacidade financeira). Angustiar, pois já fazia quase um ano que estávamos tentando comprar outra Kombi quando a primeira pifou de vez (julho de 2013). Angustiar porque ficamos meses em silêncio sem saber o que fazer, quando inesperadamente recebemos de presente uma Kombi nova, zero km, tirada da concessionaria em novembro de 2013 (Kombi esta que foi roubada em junho de 2014). Angustiar por ter que outra vez depender da generosidade dos irmãos. Angustiar por mais uma vez ter que esperar a ação de Deus. Angustiar por não saber o que fazer. Angustiar por ter que esperar.

E por fim, se tudo que escrevi neste texto não seja o que de fato é... Disto não saberemos por agora. Somos pessoas finitas que olham para os fatos a partir de nossas experiências e de como entendemos que Deus se relaciona. E nisto, não temos certezas, apenas especulações. Deus não é muito dado a revelar o que Ele está fazendo, não que isto deponha contra Ele, pelo contrário, isto só denuncia que “...os meus [de Deus] pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus [de Deus] caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus [de Deus] caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus [de Deus] pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” - Isaías 55:8-9 (ARCF) – destaque do autor.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 30 de Junho de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Em diálogos nada dialógicos


“Tudo sem sentido! Sem sentido!, diz o mestre. Nada faz sentido! Nada faz sentido!"
Eclesiastes 12:8 (NVI) 

Há dias que um diálogo improvável se torna fundamentalmente essencial. São momentos em relances de vivências que desnudam percepções mais sensatas que o carpe diem dos moribundos. Num destes discursos axiomáticos encontra-se a simplicidade de não se conformar com as rédeas modernas e ousar verbalizar contraposições, insanidades e realidades. É bem ai que se percebe a possibilidade ser algo diferente do que o proposto pela roda gigante dos infames normais, e então, descobrir que ser normal é muito chato – não se arrisca a nada, não se redescobre por meio da, não se reinventa a partir de. Por isto, neste cochicho despretensioso não se escuta as clássicas respostas previsíveis.

A beira de uma pia qualquer, com mãos enlameadas de rígidos pré-conceitos, ecoa a brandura das águas correntes que suavizam as mais agitas aspirações de uma modernidade tardia. Este é o cenário ideológico para surgir diálogos nada dialéticos. Ali se confunde esperanças com senso de sustentabilidade ecológica sob a sentença de que pombas são símbolos da paz, então, não podemos mata-las, pois cada vez que uma pomba morre a paz morre um pouco mais. Loucura de gente desinstruída? Ou sanidade de convencimento ambiental proposta em casas de pau-a-pique? Se através desta anedota se salva animais, portanto, cumpre seu papel dialógico.

Ah! Escola... Para que serve mesmo? Deveria ser para adestrar cidadãos a se convencerem que o mundo é daqueles que nunca desistem, dos empreendedores, dos ousados, dos destemidos, daqueles que balbuciam vocabulários indigestos de diferenciação das classes sociais. Uma escolarização opressora não por causa de alguém, mas por causa do que somos – consumidores. Da diferenciação surge a sutil exclusão. Reprovado ou aprovado – Por quem? Para que? Por quais critérios? Melhor seria termos mais tempo para jogar bola, brincar de videogame, dormir, enfim, viver a juventude sem tantas mordaças. E assim ir para escola quando esta for atrativa, quando eu quiser, quando esta for mais útil para a vida.

Entremeados a conceitos de sustentabilidade ecológica e perversão acadêmica brota um erva daninha chamada Money. Os constantes estímulos do american way of life faz surgir por aqui o tupiniquim uai vamo dá um jeito. Vende-se, então, ingressos para assistir a promiscuidade de adolescentes que não escondem suas paixões, gente que assumi estarem na vida para um louca experiência monetária. Querem ganhar dinheiro, como se cifrão fosse um prêmio. Querem alcançar a “bufunfa” deitados numa rede, como se dinheiro fosse traído por um campo magnético de preguiça. Ter profissão se torna um mero detalhe para ver qual a melhor maneira de ganhar e gastar “cascaio”.

Não muito longe de tudo isto que emudece qualquer pretensa comunicação, ainda relampeja uma nova formatação da natividad de cada indivíduo. Surge a figura de uma criança que aprendeu a crescer sem pai, que tem na mãe a imagem de uma mulher sofridamente distante, que encontrou na arcaica existência dos avós um referencial de contemporaneidade. Vidas descontinuadas que seguem um destino em traços disformes. De tanto se acostumarem com as ausências discorre sobre as poucas presenças, quase sempre de um tempo longínquo. Aprende-se, então, que viver não é mensurado pelo que vivemos, mas sim pelo que nunca viveremos. Percebe-se, então, o desmascare da perfeição utópica, abrindo lugar para as imperfeições vivenciáveis – somos quem somos quando admitimos nossas ausências, desvirtudes e incompatibilidades.

Enfim, e por fim (mesmo não sendo o fim), é preciso postular que provavelmente este seja um texto sem sentido. Ao ler as linhas que se seguiram talvez não tenha conseguido ganhar significado na pré-formatada razão que insisti na folclórica sapiência de homo sapiens. Quem sabe, tudo que fora escrito não tenha encontrado fundamentação lógica – ainda bem. Contudo, afirmo que se esta foi a sua sensação não se preocupe. Não há nada de errado com sua capacidade crítica e interpretativa – pelo menos para os padrões normais e aceitáveis. O que ocorreu, caso ainda não esteja entendendo, é que os diálogos aqui descritos aconteceram com pessoas reais, ou seja, gente confusa, contraditória, inconstante e incompreensível – seres em profunda reconstrução/deformação existencial que não tem medo de expor suas dicotomias a partir do padrão do outro. Portanto, tais diálogos se compreendem quando se dialógotecexistencializa (um neologismo necessário para grupar diálogos, vida e existencialismo).

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 18 de Fevereiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Onde moram os sonhos


“Quando o Senhor trouxe os cativos de volta a Sião, foi como um sonho. Então a nossa boca encheu-se de riso, e a nossa língua de cantos de alegria...”.
Salmos 126:1-2 (NVI)

A vida precisa ser vivida em constantes feedback’s para que não nos esqueçamos de onde viemos para depois não lamentarmos onde estamos e nem tão pouco culparmos outros pelo que nos tornamos. Para tanto, trago a memória quando ainda era criança, estava cursando as fases primarias da escola, eram tempos de descobertas, ao mesmo tempo era a época de se pensar ou pelo menos mentalizar o que se esperava da vida e como iríamos passar pela vida. Não era muito difícil encontrar um professor (“tio” e “tia”, como se dizia naquela época) que constantemente nos passava uma folha em branco e pedia para a classe desenhar o que queríamos ser quando crescêssemos.

O simples pedido para pintarmos nosso futuro era algo empolgante. Alguns pintavam uma cruz vermelha e ambulâncias, simbolizando que queriam trabalhar na área de saúde, desejavam salvar vidas da morte, ser a esperança de vida para muitos. Outros rascunhavam um policial, tendo em vista cuidar da segurança das pessoas, visavam ter assim um mundo mais seguro para se poder viver em liberdade. Havia ainda muitos que ilustravam pessoas que cuidavam de animais e/ou da natureza, ambos vislumbravam um mundo com equilíbrio ecológico e respeito ambientalista. Era comum achar desenhos de pessoas que queriam ser pilotos, atletas e outras atividades que intentavam representar a nação, ali havia patriotismo, acreditavam na nação.

Hoje quando me lembro dos desenhos de quando era criança não me recordo de outra coisa a não ser que cada um tinha a capacidade de sonhar. Queríamos ser úteis quando crescêssemos, transformar a sociedade, promover revoluções, salvar vidas, fazer justiça social e ecológica. Tudo parecia muito possível, por mais distante que se parecesse o sonho, ainda sim, sentíamos como se fosse apenas uma questão de tempo. Nas brincadeiras, nas rodas de amigos, na família, nas orações ou em qualquer lugar falávamos abertamente desde futuro transformador. Um detalhe tem de ser pontuado, não me recordo de nenhum desenho que não tivesse um cunho comunitário. Nossos sonhos eram para beneficiar outros, nos sentíamos completos em sonhar que um dia seriamos úteis para outras pessoas. Queríamos escrever a história, não somente passar por ela.

Os anos se passaram e a vida é uma caixinha de surpresas. Então, por mais que os nossos sonhos fossem nobres foram ficando cada vez mais distantes da realidade. Os sonhos idealistas foram se tornando em um pesadelo realista. Cada vez menos interesse pelas causas sociais, justificando falta de tempo. Cada vez menos interesse em salvar vidas, pois afinal tudo era mera utopia infantil. Cada vez menos coragem para fazer revoluções, pois se prefere uma paz egoísta do que se juntar aos que gritam. Cada vez menos vida, pois afinal das contas o que se quer é apenas sobreviver. Os lindos e empolgantes desenhos de outrora ficaram, propositalmente, no esquecimento. Momentos saudosistas, vidas insignificantes, sonhos abandonados, ideologias medíocres e milhares de vidas a espera de um milagre. Infelizmente, o sonho de muitas pessoas “crescidas” é simplesmente tentar acreditar que ainda podem sonhar como faziam quando eram “crianças”. Afinal, o que parece é que quando somos adultos agimos de forma infantil.

Por tudo isto, seria razoável ponderar que o que realmente importa nesta vida não o quanto já vivemos, nem quantos títulos conseguimos, muito menos quantos aplausos nos precederam, mas sim o quanto fomos fieis aos sonhos que Deus colocou em nossos corações ainda quando pensávamos ser “crianças”. Portanto, há uma verdade que irá nos assombrar por toda vida, a dura certeza de que hoje somos conhecidos pelo que sonhamos, amanhã seremos referenciados pelo que fizemos, em um futuro bem próximo seremos lembrados tão somente pelo que fizemos com nossos sonhos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 02 de Dezembro de 2006

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Delírios perfeitamente imperfeitos do vazio



“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos”.
Eclesiastes 9:11 (NVI) 

A vida tem sido marcada por paradoxos infindáveis. Parece que quanto mais próximo das pessoas se está mais longe vivemos um dos outros. Às vezes a solidão parece ser a pessoa mais próxima. O conflito psicológico surge como um conselheiro surdo. As falas se confundem com o silêncio do vento das madrugas escuras e frias. A capacidade humana de humilhar o próximo, expondo inverdades, tornasse a maior arma de defesa para quem está atacando. O dom de amar se estreita no caminho do dom de odiar. A verdade brinca de se esconder para não ser encontrada pelos corações frágeis de um simples mortal.

O fechar dos olhos para enxergar o mais profundo do coração se desdobra em enigmáticos favos de mel. Por conseguinte, em meio a tantas ferroadas pode se encontra o mais puro doce que a humanidade já se deu a conhecer. Todavia, alguns preferem as abelhas, outros o mel. O sonho não acabou, apenas tomou forma. A esperança não enfraqueceu, simplesmente amadureceu. A força não esmoreceu, só tomou impulso para pular mais alto. O paradoxo do vazio realmente enche as vidas cansadas. 

O grande problema da sociedade é fingir não ter problemas. A maior atitude de ousadia é não ter coragem de ousar. O pior sonho é aquele que não dá esperança de sonhar. A vida só tem sentido quando se está vivo. Os caminhos são marcados pelas poeiras do tempo. O presente pode se tornar passado de um futuro periódico. Os sorrisos se perpetuam nas vagas galerias da imaginação. As lágrimas reescrevem uma história que se recusa a dizer “fim”. 

Os gestos incompletos abraçam a amplitude do vazio. As palavras sem sentido começam a ter sentido. A incerteza brinca de gangorra com a certeza, quem sabe um dia destes ambas aprendam a se equilibrar. O coração protesta os últimos suspiros que ainda ventila as brasas do amanhecer. Os gritos de socorro ecoam dos mudos que desistiram de desistir. A música não será esquecida enquanto se puder ouvir: “I have a dream” – Eu tenho um sonho. A linha de chegada é exatamente no mesmo lugar da linha de saída.

No ardor da festa manifesta-se o luto da alegria. Nem tudo está perdido até que seja achado. Coisa nenhuma está no arremate quando se fica cansado de ficar cansado. Nas mais absolutas imperfeições da perfeição se concretiza a pseudo-razão. O querer se torna poder quando não há possibilidade de poder querer. O que há de novo no velho quase sempre é a repetição do filme que se assiste diariamente.

As lanternas do conhecimento clareiam a escuridão da ignorância. O simplesmente ser simples é substituído pelo ser orgulhosamente arrogante. Os limites são rompidos pela busca utópica do lugar nenhum. A fuga das perfeições hodiernas das imperfeições do maravilhoso escândalo humano é um verdadeiro espetáculo. Os bancos das praças estão vazios, não por falta de pessoas, mas sim por falta de tempo dos racionais. 

A mais hilária das crises é promover no âmago dos conflitos a dúvida da crise. Não há porque entender o que não se quer ouvir com o coração. Excêntrico pensar é diagnosticar aquilo que para todos é apenas uma mera perca de tempo. Às marcas de um vazio que preenche. Às sombras de uma luz brilhante. Às margens do deserto. Na mais absoluta solidão, por estar em meio à multidão, pode-se vislumbrar o invisível. Entretanto, tudo parece tão cheio de vazio! 

O mundo dá muitas voltas. Quem perdeu pode ganhar. Quem chorou pode sorrir. Quem estava dormindo pode acordar. O tudo está contido no nada. Portanto, as imperfeições da vida enamoram-se com o perfeito para que enquanto houver vida, vivamos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br


Artigo escrito em: 25 de Setembro de 2004