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domingo, 9 de março de 2025

Uma fé silenciosa


“Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará.” Mateus 6:6 (NVI)

Vivemos tempos de exposição excessiva. Tudo precisa ser dito, mostrado, compartilhado. A fé, que antes era uma caminhada íntima entre o Criador e a criatura, hoje parece ter se tornado um espetáculo público, uma vitrine de religiosidade. Orações se tornam postagens, devoções viram hashtags, e a espiritualidade, antes silenciosa, é substituída por uma necessidade de validação coletiva.

Todavia, há uma fé que não grita. Ela não busca aplausos, nem precisa de plateia. É uma fé que não precisa ser estampada em camisas, transformada em bordões ou propagada aos quatro ventos. É a fé dos que caminham na presença de Deus sem holofotes. Aquela que resiste ao tempo, à provação e ao anonimato. É a fé silenciosa que se fortalece quando ninguém está olhando.

Jesus nos ensinou que o lugar mais poderoso de oração não é o púlpito, mas o quarto secreto. Não é na praça pública que a fé se prova, mas nos desertos da vida, onde só Deus pode ouvir os clamores do coração. A verdadeira fé não precisa ser anunciada, pois sua autenticidade se revela na vida transformada, e não na exibição de discursos religiosos.

Talvez seja tempo de voltarmos ao silêncio da fé genuína. De não buscarmos reconhecimento por nossa espiritualidade. De deixarmos que a luz de Cristo brilhe por meio de nossas ações e não de nossas palavras ensaiadas. A fé silenciosa não é omissão, mas profundidade. Não é fraqueza, mas maturidade. É a convicção inabalável de que Deus vê, mesmo quando ninguém mais vê.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra
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Texto escrito em: 06 de Março de 2025

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Na expectativa do novo, de novo!


“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”
2 Coríntios 5:17 (NVI)

No limiar de um novo ano que temporalmente se aproxima, alguns descontentamentos sociais e existenciais se trejeitam de aspirações esperançosas. Ao que parece a frenesie entusiástica em torno do ano novo se dá, pois este dia qualquer consegue, simbolicamente, marcar o novo, ainda que tudo seja mui semelhante ao velho que se intenta abandonar. O ano novo numa sociedade que busca exaustivamente o novo, o tempo todo, todos os dias, se torna o totem indenitário do muito mais do mesmo com tons de diferente, mero ilusionismo temporal, pois apenas reproduz por meio da suavidade midiática a escravidão da sociedade de consumo, que encontra o seu auge nesta modernidade tardia do tempo presente, e que se renova ano após ano, especialmente na ocasião do ano novo.

A lógica mercadológica do consumo se dá pelas vias do convencimento da necessidade do novo, por isto se faz o novo produto, a nova mercadoria, a nova ideia, a nova marca e o novo etc. E é exatamente neste mesmo viés que se produza a noção de: Ano novo! Planos novos! Expectativas novas! Carro novo! Emprego novo! Casa Nova! Vida nova! Amigos novos! Curso novo! Faculdade nova! Moveis novos! Namorado(a) novo(a)! Professores novos! Pastor novo! Igreja nova! Liderança nova! Roupa Nova! Música nova! E por ai vai... tudo altamente consumível e vendável – algo bem peculiar aos homens errantes. Vivemos, portanto, na tirania do novo, sufocados dia após dia pela suposta necessidade de algo novo, num processo de esquizofrenia angustiante do conceito de vida, paz e felicidade – como se estes distintivos fosse algo novo e que resultasse diretamente da ação humana por si só.

O novo fascina tanto, pois desde as eras antigas, nos adestram no discurso de que é preciso se livrar do velho, o mais rápido possível, e em alguns casos isto se torna a estratégia de sobrevivência em grupos coletivos, especialmente para a geração atual, mais especificamente para as juventudes. Isto porque o antigo traz consigo lembranças, consciência, historicidade, memorias, trajetórias, perguntas, dúvidas, questões mal respondidas... então, o antigo desnuda quem somos (ou fomos - se é que há diferença), ainda que não queiramos, ainda que não gostemos, ainda que neguemos. Somos o que somos, mesmo que se tenha um ano novo, uma casa nova, uma igreja nova, um emprego novo, uma roupa nova, uma faculdade nova... Não é possível fugir de si mesmo, e então, também não será possível renovar a si mesmo, por si mesmo, para si mesmo. Estamos presos em nós mesmos e isto se reproduz nas práticas cotidianas e nos definem, desvelando a nossa incapacidade de desfrutar o verdadeiro novo, exatamente pelo que somos em nossa essência, e isto o velho não nos deixa esquecer, ainda que tenhamos celebrado um ano novo.

O ano novo é apenas uma data, a casa nova é apenas um local, o carro novo é nada mais que modernização, o emprego novo é apenas uma outra opção, a igreja nova é apenas mais um local de culto, a música nova é apenas uma outra maneira de tocar, o novo relacionamento afetivo é nada mais que tentativas, a roupa nova é apenas uma adequação da moda... enfim, nada disto é realmente novo, no máximo, pra você (e pra mim), é apenas uma forma diferente de se fazer algo, o que não traz consigo atributos do novo (o termo diferente não é sinônimo do termo novo), pois trocar a forma de se fazer por outra forma de se fazer é permanecer na categoria das coisas velhas, ainda que com ares de novidade. Neste sentido a exterioridade pode não ter consonância com a essência interior, ainda que reproduzindo cotidianamente. É valido lembrar que aos velhos seres humanos a capacidade de enganar é bem natural, representativa e espontânea, ainda que com ares noviços.

Aqui se faz imperativo a compreensão de que assim como a verdade, a vida e o caminho são únicos (cf. Jo 14:6), o novo também o é, e só se torna atingível pela Graça que emana dAquele que é as Boas Novas (cf. Mc. 1:14). Por esta razão, só Ele pode fazer o novo, só Ele pode nos fazer em nova criatura, e assim, gradativamente irmos percebendo que “as coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (cf. 2 Co 5:17), mesmo que não estejamos perto de um ano novo, nem numa casa nova, nem numa igreja nova, nem numa cidade nova, nem num emprego novo... o verdadeiro novo não é datável e não se assemelha a sufocante euforia exterior de se parecer ser novo, mas que só consegue produz cansaço e opressão aos velhos romeiros. De contrapartida, o Carpinteiro propõe o novo que produz descanso para as almas, pois com Ele o novo é um processo de jugo suave e de fado leve (cf. Mt. 11:28-30).

Para que realmente haja o novo, por causa de quem somos, é preciso de algo externo a nós mesmo, maior do que nós mesmos e superior a nós mesmos. Estranhamente, e até aparentemente contraditório, o novo só se dá partir da imutabilidade e da atemporalidade, ou seja, uma natureza diferente da nossa humana. Somente quem é o mesmo ontem, hoje e eternamente (cf. Hb. 13:8) sabe distinguir as diferenças entre o velho e o novo. Somente Aquele que conhece a natureza humana como um artista conhece as nuanças de sua própria obra de arte, criada por suas próprias mãos (cf. Gn. 1:27), é capaz de decifrar as inconclusões existências do velho-novo ou do novo-velho. Portanto, somente Aquele que pode dizer “eu sou” (cf. Ex. 3:14) é capaz de criar o novo junto aqueles que no máximo conseguem estar sendo temporalmente; somente Ele é capaz de criar uma nova criatura sem precisar de ano novo ou qualquer outro apetrecho externo novo; somente Ele é capaz de metamorfosear a existência humana no mais intimo  interior produzindo mudanças eternas, e assim, apontar para o novo Caminho onde as “coisas novas” são consequências de uma nova vida (cf. 2 Co. 5:17).

O novo marca o rompimento com o velho, mas isto não quer dizer que não haja relativa relação entre estes, até porque só se pode julgar algo novo tendo por base a noção de que houve o velho, por isto há relação entre o velho e o novo (a reciproca também é verdadeira). Neste viés, em termos de prática da vida cristã, o velho é abandonado enquanto vivência pecaminosa cotidiana, mas permanece vivo na memória como que num lampejo histórico para nos fazer lembrar, a cada novo dia, que o Carpinteiro nos concedeu gratuitamente o novo Caminho e, então, requer fidelidade para que andemos em “novidade de vida” (cf. Rm. 6:4) e assim irmos nós nos despindo do velho homem (cf. Cl. 3:9) a cada novo dia. É fato que a velha natureza pecaminosa ainda nos perseguirá a cada ano novo, a velha essência corrupta ainda estará a espreitar no novo emprego, os velhos hábitos ainda sussurrarão na nova igreja, as velhas práticas ainda insistirão em florescer no novo relacionamento, a velha praxe baterá a porta do coração ainda que tenhamos um carro novo, uma roupa nova, um pastor novo, uma casa nova, uns amigos novos, uma bicicleta nova...

Enfim, nada será realmente novo sem antes nascer de novo (cf. Jo. 3:7), e após isto, fixando os olhos em Jesus (cf. Hb. 12:2), ai sim, e somente ali, podemos caminhar “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (cf. Fp. 3:13,14). Portanto, qualquer expectativa do novo sem Cristo é apenas uma maquiagem e reprodução do velho, uma mera ilusão temporal de ano novo em ano novo. A nossa velha natureza pecaminosa nos faz lembrar que necessitamos do novo para prosseguir, e o novo nos faz lembrar que fomos livres de um passado de condenação. Portanto, como que num grito de coerência, mais uma vez, se faz necessário insistir aos que estão no Caminho, que vivam em “novidade de vida” (cf. Rm. 6:4), a cada novo dia, a cada novo ano, lembrando que somos feitura dEle, “criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (cf. Ef. 2:10).

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra
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Artigo escrito em: 21 de Dezembro de 2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Igrejas gourmet’s LTDA – um discurso inconveniente


“Melhor é ter espírito humilde entre os oprimidos do que partilhar despojos com os orgulhosos”.
Provérbios 16:19 (NVI)

Há no senso comum a percepção de que se um restaurante está cheio é porque a comida daquele estabelecimento é boa. Em certa medida esta lógica é coerente, comida boa tende a produzir publicidade positiva e, então, atrair novos clientes, fazendo com que haja muitas pessoas no recinto no horário das refeições, atraindo relativa visibilidade e relativa credibilidade. Para quem não conhece as opções de restaurante de uma determinada região, este parece ser um critério interessante e relativamente seguro. Esta é a lógica usual (pragmática) de quando se está num lugar desconhecido e é preciso escolher um local para se fazer refeições.

As pessoas, ao terem que escolher um restaurante, são atraídas não apenas pela qualidade da comida que supostamente fez com que aumentasse a quantidade de pessoas no recinto, mas também por outros fatores que em certa medida podem até ser destoantes à noção de qualidade, como: preço, convivência, hábito, proximidade, rotina de trabalho, entre outras possibilidades. Então, escolher um restaurante apenas pela quantidade de pessoas que frequenta o local pode não ser o melhor critério, mas há de se admitir que seja uma tática usual e por vezes parece ser assertiva.

Há quem escolha uma igreja para frequentar como se escolhe um restaurante para comer, ou seja, pela quantidade de pessoas que frequenta o local, sob a pretensa afirmação de que se tem muita gente, deve ser bom. Se para restaurantes esta máxima tem lá suas dúvidas, quanto mais se aplicarmos a mesma lógica para a igreja. Tristemente, é preciso arrazoar que muitos líderes eclesiásticos valem-se da quantidade de frequentadores para dar visibilidade e suposta credibilidade para o empreendimento religioso, este confundem abrir um restaurante com abrir uma igreja.

Num restaurante tem-se que atrair clientes, vender o produto e, então, conseguir lucratividade, porém é preciso recuperar a sanidade e entender que a igreja não tem clientes, não vende produtos e muito menos deveria gerar lucratividade (não quer dizer que não precise de dinheiro, são conceitos distintos). Na igreja há fraternidade, não clientes, a relação não se estabelece a partir de uma noção mercantilizada. Na igreja há Boas Novas, não produtos, a mensagem é a mesma desde os tempos bíblicos e esta é suficiente para produzir salvação para o pecador arrependido. Na igreja há partilha, não lucratividade, o dinheiro tem que ser usado para promover a justiça social, a equidade e a expansão do Reino. Por meio destas premissas, é notoriamente distinguível uma igreja de um restaurante.

Não se escolhe uma igreja como se escolhe um restaurante; não se frequenta uma igreja com as mesmas intenções de se frequentar um restaurante; não se espera da igreja o que se espera de um restaurante; não se abre uma igreja como se abre um restaurante; não se conduz uma igreja como se conduz um restaurante. Aos que querem a possibilidade de lucro, que abram um restaurante. Aos que acreditam que o marketing é a ferramenta mais importante, que abram um restaurante. Aos que querem atrair multidões para serem reconhecidos com suposto sucesso, que abram um restaurante. Enfim, que estes pastores, donos de restaurantes com faixadas de igrejas, parem de emporcalhar a fé evangélica tupiniquim e reconectem-se com a simplicidade da fé que não requer nada mais do que permanecer fiel até o fim.

A igreja brasileira não precisa de pastores gourmetizados, com sintomas de numerolatria aguda e nem de uma liderança caramelizada de empowerment. Não estamos em um master chef eclesiástico. Precisamos apenas de igrejas simples, pastores simples, membros simples, estrutura simples, louvor simples e pregação simples. Afinal, nosso mestre é apenas um Carpinteiro e nós apenas servos... Ele é o dono da seara, nós os trabalhadores... Ele é o Senhor da Igreja e nós apenas parte da Igreja. Portanto, não avalie uma igreja pela quantidade de pessoas que a frequentam, avalie uma igreja pela transformação de vida daqueles que a frequentam; avalie uma igreja não pelo fluxo de gente na hora do almoço (referendando a metáfora do restaurante), mas sim pela perseverança, continuidade, devoção, rendição e permanência dos que se juntam a mesa para uma ceia diária.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 19 de Agosto de 2016

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da diferença entre falar em público e pregar


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI) 

É preciso distinguir entre música e louvor (vide artigo “da diferença entre música e louvor”, do mesmo autor), então, igualmente é imprescindível que se diferencie o falar em público e o pregar. Obviamente que em ambos os casos boa parte da teoria, especialmente no que tange a oratória e retórica, são mui congruentes e convergentes. Entretanto, o objetivo final de ambas ações são estratosfericamente distantes e por vezes opostos entre si. Ao falar em público espera-se que o que discursa seja capaz de persuadir os ouvintes a algo, e isto se dá pela capacidade individual deste de ser articulado com as palavras, convincente quanto às pressuposições conceituais e carismático junto à plateia. De contra partida, mesmo reconhecendo que as alíneas anteriores são importantes, há algo mais importante: que o pregador seja fiel à Palavra, expondo as Escrituras com simplicidade, humildade e com profundo temor ao Senhor, ainda que isto não venha regado de eloquência ou retórica.

Pregar é falar em público, mas nem todo falar em público é uma exposição bíblica, isto é óbvio. Então, é igualmente óbvio que se atente sobre as características elementares de cada uma destas ações para não confundir os “palcos” e valer-se de pressupostos errados, emporcalhando a mensagem, tornando-a assim impropria. Quando se fala em público a indumentária e a postura do que discursa tem extrema importância no processo de convencimento, mas, de contra partida, na exposição das Escrituras a figura do mensageiro é o menor detalhe, o que importa é a grandiosidade da mensagem, que não depende da beleza estética do mensageiro. Num púlpito a mensagem supera as qualidades e deformidades do mensageiro. A Boa Notícia é completa em si e não precisa de retoques estilizados daqueles que a profere. Alias, é preferível que o pregador/mensageiro não roube a cena, mas saiba elevar os holofotes para A Única Mensagem. O pregador é um coadjuvante, não o ator principal.

Falar em público requer uma boa performance individual, pregar, por mais que aparentemente seja uma só pessoa a discursar no microfone, é no entanto, na verdade, uma ação coletiva de culto e devoção a Deus. A pregação implica em uma continuidade do culto público que se está fazendo, por isto não é um momento solo, desassociado das etapas anteriores e posteriores da liturgia. Por esta mesma razão o púlpito não deve ser monopolizado por apenas uma pessoa, domingo após domingo. A pregação é parte da igreja e, então, deve ser partilhada pela igreja. Púlpito não é lugar para se destacar, mas para continuar a cultuar; não é lugar para performance, mas sim pra servir; não é lugar para ostentação, mas para contrição; não é lugar para aplaudir, mas para se ajoelhar; não é lugar para ver os outros, mas sim para ajudar os outros.

Quando se confundi falar em público com pregar, três coisas acontecem: 1) pregadores (pastores) são venerados – expressões como “este é homem de Deus” são formas sutis de admiração exagerada que incha o ego do pregador, mesmo que despretensiosamente. Pregadores não deveriam ser elogiados por suas pregações, pois é o elogio o principal agente corrosivo da humildade, humildade esta elementar para ser pregador; 2) preocupa-se mais com a embalagem da mensagem do que com o conteúdo – quando começa-se a medir uma pregação pela quantidade de “glórias a Deus” que se escuta da plateia, ou quando começa-se a medir um pregador pelo reboliço que ele traz para a igreja, então, estes pregadores se esquecem que pregação não tem muito haver com popularidade, estratégia ou carisma, mas tem haver, única e exclusivamente, com a manutenção da glória de Deus [que é o conteúdo supremo]; e, 3) elitiza-se o púlpito – no contexto tupiniquim isto é evidente ao ponto de em quase todos os domingos do ano só se vê as mesmas figurinhas nos púlpitos, domingo após domingo. Isto acontece, pois há quem pense, erradamente, que pregação (e louvor) é para os bons.

Pregar é muito mais que falar em público, é parte intrínseca do ser Igreja. Pregação não é para pouco, mas deveria sim ser algo, naturalmente, partilhado por todos aqueles que integram a comunidade. Pregar é ensinar a Palavra, é compartilhar do Reino, é dialogar acerca da fé, é conversar sobre Aquele que mudou nossas vidas. Portanto, insisto, a pregação precisa ser popularizada e assim fugir aos rótulos do falar em público. Quanto mais a igreja coloca a pregação no campo do falar em público, mas distante se torna A mensagem do Carpinteiro, que preferiu discursar em meio às pessoas, com coisas simples, por meio de gente simples (discípulos) e finalizou o ministério terreno convocando: “ide, pregai o Evangelho...” Mc 16:15. Por conseguinte, mesmo que não saiba falar em público, é preciso que se pregue.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 29 de Dezembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

Da diferença entre música e louvor


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI)

É preciso distinguir entre música e louvor. Por mais que em ambos os casos os pressupostos e parte da teoria possam ser congruentes, ruge a necessidade de distingui-los. Da mesma maneira que se distingue entre música e som, ou da distinção entre música e ruído. Louvor é diferente de música. É imperativo que analise a partir do pressuposto de que somos parte da Igreja, e neste contexto as imagens agregam, sintomaticamente, perspectivas antagônicas às figuras seculares. Por mais que numa foto ambos possam ser mui semelhantes,  na essência são abruptamente opostos. A diferença parte do que somos, pois na Igreja, aquele que quiser ganhar, terá que perder (cf. Mt. 10:39); quem tem duas capanga, terá que dar uma (cf. Lc. 3:11); quem é forte, terá que andar com fracos (cf. Rm. 15:1); quem quiser ser o maior, terá que ser o menor (cf. Mt. 23:11), e assim sucessivamente. Então, se a matriz do Reino é inversa, nada mais sensato que admitir que fazer música não é fazer louvor (e vice versa). Esta inversão de conceitos e fundamentos se dá, única e exclusivamente, pelo fato de que no Reino o Rei é um Carpinteiro, e Este se despiu de Sua glória, mostrando que aqui, no Reino, os valores e significados são outros.

Fazer música e fazer louvor tem lá suas similitudes, porem também tem suas inúmeras limitações. No louvor, esperasse que seja congregacional, isto é, que não se assista alguém cantar/tocar, mas que todos os presentes cantem juntos. Diferente de uma apresentação musical, em que se espera o silêncio da planteia para admirar a performance do músico/cantor. Por estar razão, na Igreja, é preciso cantar músicas que as pessoas saibam cantar, o tom da música tem que ser acessível à maioria e os arranjos tem que favorecer a integração dos presentes. Na igreja, assim como numa apresentação musical, é preciso ter técnica e conhecimento teórico-musical. Contudo, na igreja o mais importante não é a volumosidade técnica, mais sim fazer o melhor, dentro do conhecimento técnico que se tem com fins a facilitar o processo exaltação de Deus, por meio da música congregacional. Qualquer atitude que desconecte alguns do todo converge em pavonice e exibicionismo – distintivos inapropriados a simplicidade do Reino.

Numa apresentação musical, o artista já sobe ao palco com noção integral do inicio, desenvolvimento e fim da canção. Neste caso já se sabe que parte vão se repetir e quantas vezes, segue-se um padrão pré-estabelecido para melhor qualidade técnica da apresentação. Entretanto, na Igreja, as canções não estão postas de forma pré-estabelecida, pois as repetições de estrofes, entre outros detalhes musicais, depende da congregação e do intuito da canção no contexto da comunidade em que se está cantando. Na Igreja as músicas do louvor precisam ter vida coletiva. Ou seja, no louvor é preciso ter uma certa flexibilidade e adaptabilidade, pois afinal, o louvor é congregacional. Outro detalhe é a postura do pessoal que está com os microfones, é preciso ter sensatez para não entrar numa pavocine desnecessária com gesticulações e vestimentas que favorecem a performance de alguns ao invés de coletivizar as canções. Estar com o microfone não é motivo de destaque, apenas serve para amplificação sonora e norte da música junto à comunidade. Então, o propósito do microfone é ajudar, não destacar.

No cenário eclesiástico, os ditos “ministros de louvor” (terminologia que precisaria de uma reconfiguração mais adequada à coletividade) confundem os papéis, pois não poucas vezes “esquecem” de cantar e aventuram-se numa pregação inter musical que estes chamam de ministração (porem mais se assemelham a pagação de sapo grupal ou animação de plateia – em ambas as situações, desnecessárias ao que se propõem a Igreja). Neste quesito, o músico secular, numa apresentação musical, é mais adequado, pois geralmente, músicos tocam música (e cantores, cantam) – o que deveria também ser na igreja: que o momento de louvor, seja louvor. É necessário ainda que se critique a capacidade de discurso bíblico-pastoral destes ditos “ministros de louvor”, pois não é exceção ouvir toda sorte de heresia e aberrações igrejeiras oriundos da boca destes “levitas” (designação inapropriada aos músicos de igrejas). Deixar as pessoas em pé ouvindo um papagaio gospel taguarelar é minar as bases do louvor congregacional.

Na igreja, portanto, o que mais importa, para participar do louvor, não é saber tocar/cantar, pois não se está numa audição. O mais importante é que sejamos cristãos. A grande maioria dos que congregam numa Igreja não tem lá muito conhecimento técnico-musical, sendo assim não estão tão preocupados se o violinista conseguiu fazer aquela nota dificílima, ou se o cantor conseguiu fazer aquela nota com exatidão, ou se o tecladista esqueceu uma nota numa momento qualquer, ou coisa do gênero. Na igreja não estamos para avaliar cantores e músicos, estamos para, juntos, adorar o Carpinteiro por meio da música (é válido destacar que o termo adoração não é próprio da música, portanto, pode-se adorar a Deus, inclusive e preferencialmente, sem música). Obviamente, que este discurso não abre brechas para uma completa anarquia musical e desordem técnica, não sejamos extremistas infantis. O que se propõem aqui é que não se esqueça que estamos numa igreja, não num teatro; que estamos num púlpito, não num palco; que estamos entre irmãos, não entre fãs, que estamos servindo a Deus, não os homens; que estamos louvando coletivamente; não cantando para uma coletividade; enfim, que estamos fazendo louvor, não música.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 28 de Novembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Igreja, curva do rio e desigrejados


“mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé”.
1 Timóteo 1:19 (NVI)

Os movimentos religiosos apresentam, cada qual, sua própria identidade, mesmo reconhecendo que há uma heterogeneidade nas formas de manifestações de cada uma. No Brasil, as três maiores religiões aqui presentes se expõem como: Espiritismo – crença na reencarnação, evolução do espírito e salvação pela caridade; Catolicismo – crença na mariolatria, intermediação dos santos, na autoridade vicária do Papa e valorização da tradição eclesial. Protestantismo – crença... no que mesmo? Se dissermos crença na infalibilidade/inerrância das Escrituras, isto seria questionável pelos papas evangélicos; se dissermos que é centralidade na Bíblia, isto é notoriamente destoante a partir das pregações dominicais; se dissermos crença na salvação apenas por meio de Jesus, isto também é questionável na prática neopentecostal tupiniquim; Além de não se saber hoje o que realmente estamos há protestar; então, sinceramente, não há nada nos evangélicos que os tornam excludentes, como uma espécie de identidade, pois dos pilares evangelicais boa parte das outras religiões igualmente comungam.

A bem da verdade, inúmeras pessoas se tornam evangélicas por não mais serem adeptas à identidade de outras religiões. Se você não acredita em reencarnação, não é lá muito amigável da ideia de mariolatria, então, te resta ser evangélico. Se você não gosta muito de mexer com espíritos e não é apadrinhado por algum santo, então, igualmente, só te resta ser evangélico. Não dá para ser Islâmico, ainda mais nestes tempos de midiatização da demonização ocidental na figura dos mulçumanos. Não dá para ser budista, até porque passividade e contemplação não são adjetivos presentes na modernidade capitalista urbana. Não dá para ser hinduísta, até porque o mundo ocidental está longe demais destas crenças e virtudes. Zoroastrismo, nem pensar. Religiões de adoração ao imperador ou a um rei, simplesmente não tem nada haver com nossa brasileiralidade. Ser da Umbanda ou Quimbanda, entre outras tantas bandas afrodescendentes, já são estereotipadas como religiões demoníacas. Taoísmo, Jainismo, Xintoísmo, Confucionismo... realmente não dá. Então, sinceramente, no Brasil, só resta ser evangélico. Não por opção, mas por falta de opção indenitária. E é ai que entra a curva do rio...

A curva do rio é onde fica preso, engastalhado e emaranhado toda sorte de sujeira que desce rio abaixo. A curva do rio é um depósito de dejetos e lixos que não se afixaram em lugar algum do rio, até encontrar a curva. Neste local é possível descobrir várias coisas não pertencentes ao rio, mas que por alguma razão precedente, desceu rio abaixo ficando aprisionado lá na curva. Assim é a igreja evangélica brasileira (e talvez a igreja evangélica no mundo), uma igreja que abarca tudo aquilo que não se encaixa em outras religiões. Se você não se atrelou a nenhuma outra religião ao longo da sua descida rio abaixo, é bem provável que você fique aqui, na igreja evangélica. Portanto, sem nenhuma ironia, a igreja evangélica se tornou a curva do rio. Lá tem toda sorte de tranqueira: tem gente meio espiritualizada (diferente de espiritual), mas que não quer ser espírita; tem gente com fortes tradições católicas, mas que não quer ser católico; tem gente com potencial para ser fanático, tipo homem bomba, mas que não quer ser islâmico; tem gente que adora a mãe natureza e a contemplação do vazio, mas que não quer ser panteísta ou algo do gênero. Tudo isto vai parar na “acolhedora” curva do rio, chamada carinhosamente de igreja evangélica.

Na curva do rio surgiram a universal, a mundial, a internacional, os templários, a plenitude e tantos outros lixos religiosos que desceram rio abaixo até encontrar o local ideal para proliferar e criar um habitat propício para germes, fungos e lodos. Tristemente, encontraram a igreja evangélica. Ali estão em processo de decomposição e putrefação, mas como tem muita gente descendo o rio, então, há uma forte probabilidade de muitos ficarem engastalhado lá na maldita curva do rio. É fato que estes tipos de lixo não seriam suportados em outros ambientes religiosos. Apenas na igreja evangélica, estes dementes-religiosos conseguem fixar moradia e coexistir. Estes esquizofrênicos-espirituais sabem que a curva do rio, chamada igreja evangélica, vai tolerar e provavelmente apoiar quase toda tranqueira mística. Então, na tentativa de ser acolhedora, a igreja evangélica abarcou doutrinas ultrajantes e até demoníacas. Coisas estas que encalharam na curva do rio, lá na igreja evangélica. Afinal, não é este o discurso mais comum entre os igrejeiros: “venha como você está”. Então... eles vieram, exatamente como estavam.

Um número considerável de cristãos evangélicos protestantes, ao se aperceberem na enrascada indenitária que a igreja evangélica se enlameou, lá naquela curva do rio, escolheram repelir-se do grupo. Ao se darem conta que ser evangélico não mais representa uma identidade especifica, mas sim um compêndio de forças estranhas, portanto, não mais se identificaram com as matrizes evangélicas. Ao se verem confusos sobre o embaralhar das rotulações clássicas: Históricos, Pentecostais e Neopentecostais, e não mais saberem no que realmente acredita-se, preferiram se distanciar. Então, estes cristãos evocando um pouco de sanidade e sobriedade, escolheram descer rio abaixo, não mais se identificando com a igreja evangélica, a estes foram denominados de desigrejados. É óbvio que o movimento denominado de desigrejados é bastante pluri, a semelhança da expurgada igreja evangélica. Há desigrejados por consciência, outros por malandragem, os por sanidade, alguns por preguiça, outros tantos por amor, vários por ódio, há os por reverencia, também há os por causa de birras ministeriais... Ser desigrejado é levar um pouco da seiva tóxica da igreja evangélica.

O movimento dos desigrajedos não é novo, apenas recebeu um raio gourmetizador na pós-modernidade, ganhando status pretencioso de remanescentes. A ideia de ser desigrejado também não é uma causa com identidade especifica, há uma heterogeneidade intrínseca, e mui provavelmente abarca incontáveis outras manifestações de descontentamento com a igreja evangélica. Até porque o que torna uma pessoa desigrejada é tão somente não mais se identificar com a igreja evangélica contemporânea. É até relativamente simples ser desigrejado, basta estar insatisfeito com os rumos da (pluri)igreja evangélica. Portanto, se os desigrejados não tomarem cuidado, é muito provável que estes se tornem na próxima curva do rio, lá embaixo, atraindo e acolhendo toda sorte de lixo que não mais quer se emporcalhar com os evangélicos. Afinal, é quase improvável que um ex-evangélico vá (ou volte) para alguma outra religião, por questão indenitária, conforme dito anteriormente.

Se a igreja evangélica brasileira se tornou um escombro de tranqueira a culpa é de todos nós, inclusive dos desigrejados. Até porque para ser desigrejado precisou ser, algum dia, igrejado. Contudo, ao contrário do que possa parecer, mesmo a despeito de todo lixo existente no contêiner igreja, acredito plenamente que Deus queira que a igreja evangélica seja esta curva no rio: suja, fedida e atrapalhada. É através das nossas limitações e desvirtudes que podemos desvelar Cristo, o perfeito. Não é quando somos bons que honramos Deus, mas sim quando reconhecemos que somos maus e que necessitamos diariamente da Graça. Não precisamos de um novo movimento, precisamos é de consciência de nossa podridão e importância do Caminho único, o Salvador. Não há necessidade do triunfalismo de sermos uma igreja de “santos lutando contra o pecado”, precisamos de uma igreja de pecadores lutando para ter santidade no presente século. E sobre todo este lixo evangélico, é bom que esteja ai, pois assim, cotidianamente, seremos seduzidos pelo lixo e isto desvelará as reais intenções dos nossos corações.

Não há apenas uma curva no rio. Há outras curvas mais atraentes, outras curvas com maior fluidez e outras curvas com belas flores, outras com galhos vigorosos. O rio é longo, e não estar engastalhado na curva dos evangélicos não torna alguém ou algum movimento mais aceitável, mais plausível perante Deus. Descer rio abaixo à procura de um novo movimento nas águas é coisa antiga, tem sim suas vantagens e também tem inúmeras limitações. Entretanto, o que poucos sabem é que cada vez que um lixo se desprende de uma curva do rio, este leva um pouco (quando não muito) da sujeira daquela referida curva. Da ilusão de pureza já tivemos demonstração suficiente do horror que é possível ser feito sob tais pressupostos, basta nos lembrar da curva do rio lá na Alemanha (refiro tanto a Lutero, quanto a Hitler – resguardo às devidas proporções e intenções).

Enfim, tenho convictas dúvidas se Deus quer que descemos o rio a procura de uma nova curva, que igualmente vai se emporcalhar. Talvez, nossa atual missão seja sermos o sal da igreja, retardando a putrefação desta. Talvez, nossa missão neste presente século seja ser a luz da igreja, evitando a cegueira total desta. Talvez, neste mundo tão evangelizado, precisemos voltar nossos olhos para a igreja e reenvangelizar. Talvez, seja o tempo de olharmos para trás ao invés de olhar pra frente. Talvez, seja o momento de pegarmos as enxadas, foices e rastelos, e então, começamos a limpar a nossa curva no rio, a começar de minhas próprias sujeiras e corrupções. Afinal, ainda há sete mil que não se dobraram a Baal (cf. 1 Rs 19:18). E convenhamos, sete mil enxadas, juntas, poderiam fazer uma boa limpeza...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Setembro de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A cultura de guerrilha dos evangélicos brasileiros


"O Deus da paz seja com todos vocês. Amém”.
Romanos 15:33 (NVI) 

Ao se fazer uma análise de qualquer que seja o fato, é preciso que haja um norte indicativo dos valores históricos e culturais do referido tempo a que se refere, bem como saber acerca da implicação de significados linguísticos da referida época. Não se pode julgar o passado com a balança do presente, pois sendo assim não haverá coerência na análise, e provavelmente será acometido de injustos comentários.  É preciso ir se contextualizando para torna os discursos adequados e apropriados para cada tempo. Neste viés, os evangélicos tupiniquins, às vezes, parecem estar vivendo hoje, alguns séculos atrasados: com pregações arcaicas de enfrentamento do inimigo, jargões ultrapassados com tons territoriais e louvor com mensagens obsoletas de triunfalismo tático. De uma forma geral, ainda se é praticado nos rincões gospeis uma cultura de guerrilha. Talvez, num passado distante tais temáticas tivessem conexões com a cultura local, mas atualmente, é necessário reavaliar sua importância e aplicabilidade religiosa.

A cultura de guerra que orbita em torno das igrejas tupiniquins tem sua relevância embrionária, até justificável, do ponto de vista histórico-bíblico, mas continuar a pratica-la hoje é no mínimo bizarro e desconexo. A história bíblica, especialmente o Antigo Testamento, é engordurado de guerras entre os povos, o que fica notório nos salmos, orações e discursos veterotestamentarios. Falar de guerra e inimigo era o contexto da referida geração e nação. Ingressados no Novo Testamento, ainda se vivencia uma cultura de expansão dos impérios por meio das guerras, especialmente o Romano, o que influenciou igualmente alguns ditames de guerrilha nos textos neotestamentarios.

A bíblia expõe certa cultura de guerra, pois este era o contexto imediato destes. Passados os anos, e mesmo no findar do século XX, e início do século XXI, ainda se tem guerras no mundo, e ao que tudo indica, sempre haverá. Contudo, tais contextos nem sempre fazem parte do cotidiano de muitos cristãos e nações, a exemplo do Brasil, que mui raramente se envolve com guerras bélicas ou de expansão territorial.  Entretanto, ao adentrar nas igrejas brasileiras, especialmente as de linha neopentecostal, o cenário de guerrilha é perceptível efervescente e notoriamente conquistador. Os cânticos denunciam nossa paixão pela guerra, nossas roupas simulando camuflagem evoca o espírito de guerrilha e os pregadores esbravejam ordem de comando. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

Os discursos de batalha espiritual só agravou o cenário de brutalidade, conquista e neurose. Entra no ringue: Diabo, Deus, anjos, cristãos e os não-cristãos. Neste balaio de desorientação e perda de identidade percebe-se os cristãos se achando os guerreiros imbatíveis, com estratégias de guerra supostamente espiritual, mas com implicações territoriais, politicas e financeiras. Percebe-se igualmente um Deus fraco, que precisa de nossa permissão para fazer as coisas, sendo este Deus legalista, limitado e rendido aos propósitos da igreja. Percebe-se um Diabo forte, que mesmo a Bíblia tendo assegurado que ele já perdeu por causa da obra da cruz de Cristo, ainda os cristãos estão chamando o Diabo para guerra. Percebe-se os anjos como soldados do além para guerrilhar e ameaçar os ímpios, como se os anjos fossem assombrações para atormentar os que não se alistaram ao exercito igrejeiro. E percebe-se os não cristãos como o alvo para fazer as igrejas crescerem, não por causa do amor, mas sim pela força sinérgica de guerrilha de se ter muita gente aglomerada. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

A cultura de guerra que emerge de nossas cerimonias religiosas gospeis-tupiniquim é algo importado, não apenas pelo contexto cultural dos autores bíblicos, mas especialmente dos Estados Unidos, que insistem em ter uma cultura de guerra ao terror árabe, vietnamita e iraniano. Boa parte das canções do louvor são traduções de canções em inglês, quase todos os livros teológicos e de gênero espiritual tem como autores pessoas norte-americanas e grande parte dos modelos de crescimento de igrejas também são estadunidense. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

As pessoas que vivenciaram a segunda guerra mundial (1945), e a geração imediatamente posterior, que ainda respirou os ensaios da guerra fria (1989), tem em suas percepções culturais um DNA de guerrilha indivisível. O que consequentemente influenciou a liturgia da igreja neste período histórico. Contudo, já é tempo de tentarmos impregnar na igreja uma nova cultura, uma cultura de paz. Uma cultura de amor. A cultura de Jesus Cristo. A cultura de Deus. O escritor e poeta Jonathan Swift (1667-1745) já denunciava, muito antes de nossas contemporâneas guerras, tal necessidade de mudança na cultura religiosa ao afirmar: “nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.

Deus sempre usou a cultura local para se comunicar, tornar-se conhecido, e para tanto, obviamente usou, no contexto bíblico, da linguem de guerra para mostrar sua força - uma forma de atropopatismo hermenêutico, coerente com a cultural da época. Contudo, a cultura mudou, e Deus quer valer-se desta nova cultura tupiniquim para continuar a ser conhecido, como dantes, a partir de nossa atual cosmovisão. Entretanto, enquanto usarmos padrões culturais desconexos e destemporalizados não será possível haver conexões com o Carpinteiro.  Talvez, por esta razão é que haja tanto barulho em nossas igrejas, na tentativa de chamar a atenção de Deus. Talvez, por isto haja tantas pessoas fingindo espiritualidade nas igrejas, na tentativa compensar os vazios da guerra. Talvez por causa disto que ainda queremos guerrear, na tentativa de encontra o “cativeiro” do Príncipe da Paz.

A cultura de guerra nas igrejas evangélicas brasileira fora um catalizador de culturas de povos bíblicos e de culturas estrangeiras, culturas estas que não representam nossa cultura tupiniquim. E Deus quer ser conhecido pelos brasileiros, não com sotaque gringo, nem com estirpe hebraica. Deus quer ser brasileiro, fazer parte desta historia, e então, nos reconectar com a cultura celestial que invariavelmente comunga do amor, paz e fraternidade. É preciso que o Reino seja efetivamente implantado em nossa cultura, transformando nossas vidas e nos transportando para Reino do Seu amor (cf. Cl. 1:13). Enfim, a igreja brasileira está em guerra! E Deus está nos oferecendo a paz.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 02 de Agosto de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Mcdonaldização do evangelismo


"Pregava o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, abertamente e sem impedimento algum".
Atos 28:31 (NVI)

As igrejas evangélicas brasileiras, buscando uma aceitabilidade maior do Evangelho, fez com que, ao longo dos anos, fosse assimilada a idéia de anunciar (repassar) Jesus Cristo de forma rápida e padronizada. Sendo assim, a igreja se tornou uma grande lanchonete do Mcdonald´s – moderna na estrutura física, atrativa no marketing, rápida na produção e padronizada no mundo. Partindo dessa linha de pensamento, cada crente se tornou um Big Mac que será devorado por consumidores religiosos, que de igual modo são seres padronizados.

A padronização eclesiástica, influenciada pela “Mcdonaldização do Evangelismo”, prega a homogeneização da salvação, da liturgia, da conversão, da santificação, das estratégias eclesiásticas e etc. Às vezes, parece que há uma fôrma onde se coloca a pessoa evangelizada para eliminar as virtudes e qualidades distinguíveis a cada individuo, criando cristãos imitadores (padronizados), reprodutores da fé de discipuladores hambúrguer. O cristão mcdonaldizado é aquele que vive simplesmente para ser igualzinho aos outros – cantam as mesmas canções, falam os mesmos clichês espirituais, pregam os mesmos sermões e oram da mesma forma.

Infelizmente, a igreja tupiniquim aderiu, entusiasticamente, a “Mcdonaldização do Evangelismo”. Isto fica notório, pois se trabalha exaustivamente na obra de Deus, mas não se tem tempo para o próprio Deus. Se define um evangelismo relâmpago, com resultados rápidos, produzindo conversões momentâneas. Se prefere a eficácia das estratégias de crescimento e padronização empresarial (Mcdonald´s), ao invés de buscar em Jesus o modelo para espiritualidade, evangelismo e eclesiologia.

É nas igrejas mcdonaldizadas que se cria a linha reprodução em série (leia-se multiplicação) que precisam ser provocadas para entrarem num ritmo de ativismo tamanho que impossibilite as pessoas de perceberem que estão se tornando meros cheeseburger religiosos. É necessário bradar que cada pessoa tem suas especificidades e não pode ser tratada como uma mera linha de produção de sanduíches. Por fim, o resultado de tudo isto é: limitação e boicote da Verdade contida no Evangelho, banalização do poder de Deus, crentes “fantoches” e ativismo eclesiástico.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 10 de Junho de 2005

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Casa eles, Deus!


“Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como convém a quem está no Senhor. Maridos, amem suas mulheres e não as tratem com amargura”.
Colossenses 3:18-19 (NVI) 

As fases da vida, não poucas vezes, se resumem em nascer, crescer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Este ciclo padrão tem potência para ser uma bomba relacional, especialmente nos discursos evangelicais. Na igreja evangélica há um “ministério oculto”, que se resume em fazer de tudo para que os solteiros casem. Esta intenção em si mesma não é o problema em xeque, o real problema é que depositam no casamento uma panaceia para a vida. Isto sim é folclore gospel. Acreditar que tudo se resolve se casar é tonificar as desvirtudes. Depositar no casamento todas as esperanças de reconexão vivencial é entrar em rota de colisão com a desesperança. Achar que os solteiros têm problemas por não serem casados é fingir não entender as causas de ser o que se é. É válido ressaltar que casamento é benção de Deus, mas isto não quer dizer que casar por casar seja benção, pois se pode casar pelas razões erradas.

A pergunta que precisamos fazer é: por que casar? A resposta deveria orbitar e se embasar na plataforma do amor, companheirismo, altruísmo, glorificação a Deus. Fora destas estacas é arriscar-se em terreno demasiadamente escorregadio. E é exatamente neste campo de areia movediça que boa parte dos cristãos está entrando entusiasticamente. Por isto, quando ouvir: “vamos orar para os solteiros casarem”, ou, “fulano precisa é casar”, ou ainda “quando casar tudo vai melhor/resolver”, saiba que este é o sinal de não entre. Há homens que casam por quererem roupa lavada e casa limpa, para estes o melhor é contratar uma diarista. Há mulheres que casam por quererem conquistar sua autonomia, para estas o melhor é arrumarem emprego. Razões erradas para casar não faltam.

O casamento é uma dádiva de Deus, mas pode se tornar numa tormenta se ocasionado pelas matrizes erradas. Para muitos jovens nas igrejas evangélicas o casamento é apenas uma bandeira verde para o sexo, e só. Quando se casa para satisfizer os desejos sexuais, então, não resta espaço para o amor. Para outros jovens nas igrejas evangélicas o casamento é uma fuga da casa dos pais, uma oportunidade para conquistar a independência. Quando isto acontece não resta espaço para compartilhar histórias a dois. Há ainda jovens que se casam pela aventura, estes são inquestionavelmente doidos. Quando isto acontece é apenas questão de tempo para a adrenalina baixar e o relacionamento se tornar enfadonho. Há, também, os que casam por medo de ficar sozinhos (encalhados). Quando isto acontece o casamento se torna uma concessão de favores do outro que salvou o encalhado, sendo assim, não há cumplicidade, e a sensação de rejeição é mais perceptiva. E por fim, há os que casam com a ilusão de que será só os dois (marido e mulher). Ilusão. A verdade é que vem um pacote surpresa chamado família, dos dois lados, que casam juntos (inseparáveis).

Casar pelos motivos errados não garante que tudo vai dar errado, da mesma maneira que casar pelos motivos corretos não garante que tudo vai dar certo. A vida não é simplista, não é matemática, não é causa e efeito. Viver é complexo e inexplicável. E, viver casado é muito mais. Contudo, começar um relacionamento pelas razões erradas é meio caminho andado para o desastre. Por esta razão, fuja das pessoas que querem casar os outros a qualquer custo. Se for pastor é provável que o que ele esteja querendo é apenas fixar as pessoas na igreja, e em breve o referido pastor vai querer que os recém casados tenham filhos para assim fazer a igreja crescer – fuja destes. Se for um “amigo” casado a esbravejar a ordem de casamento veja como é o casamento deste, pois é provável que este “amigo” esteja projetando uma tentativa de ser feliz no outro casamento, pois provavelmente este é infeliz no próprio casamento – fuja destes.

O casamento é uma oportunidade de glorificação de Deus através do amor, partilha, entrega e altruísmo. O casamento é uma maneira que Deus fez para que homens e mulheres aprendam a compartilhar suas próprias vidas. É uma oportunidade de minimizar o egoísmo de se ser humano e reacender a partilha da seiva divina. É reencontrar a vida. É benção. Contudo, cuidado! Há muitos que casaram e ficaram mais sozinhos que antes; que casaram e se tornaram mais egoístas; que casaram e ficaram mais tristes; que casaram e não casaram, de fato. Por tudo isto, se faz imperativo que não escute o canto da sereia que insiste em seduzir as pessoas (especialmente os cristãos) para casarem por casar.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 23 de Fevereiro de 2015

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

No jogo da vida, e da igreja


"Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas".
Mateus 10:16 (NVI)

A vida no século XXI não poucas vezes se parece com um jogo qualquer, onde cada qual estabelece suas próprias regras e jogam, displicentemente, jogam. Por esta razão, constantemente as pessoas se sentem como peças no tabuleiro, vazias, ocas e manipuláveis. No jogo da vida os seres humanos perdem o valor como gente, se tornam objetos. Dai, o respeito se desnuda em negociações simplórias e desqualificadas de estratégias do mercado humano-mítico.

O mundo está podre e doente, pois as pessoas perderam o valor em si mesmo, se inferiorizaram a semelhança de peças de tabuleiro para mais uma vez jogar, apenas mais um jogo qualquer, em nome do poder, ou até mesmo em nome de Deus. Infelizmente, a igreja tem entrado pelo mesmo caminho, percorrendo um giro de 360º, ou seja, volta sempre para o mesmo lugar. Caminha em círculos, não há irmandade, apenas competitividade.

Há aqueles que julgam estar ganhando o jogo pelo fato de terem muitas peças no tabuleiro eclesiástico, politico, financeiro e social – se destacando numa grandeza invejável aos demais jogadores. Todavia, temos que lembrar que os tumores também crescem e ganham proporções estratosféricas. Ter muito, fazer muito, saber muito, ser muito não tem muita relevância. Tristemente, a sociedade (e a igreja) ensina há estes personagens mímicos que vence aquele jogar melhor. Estes já perderam, mas ainda não o sabem.

Os fariseus insistentemente chamavam Jesus para o jogo deles. Instigavam o Mestre, fazendo propostas desafiadoras, porém Cristo não queria jogar. Os religiosos sempre apareciam perante o Carpinteiro com o tabuleiro e as peças na mão. Entretanto, Ele não queria fazer parte do jogo. Que possamos voltar à simplicidade e humildade ministerial, entendendo que somos pó e ao pó retornaremos. Nenhuma disputa compensa o fracasso de se jogar, pois nenhum jogo tem valor perante Cristo.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 16 de Setembro de 2005

sábado, 4 de outubro de 2014

Cartas aos ex-membros de minha igreja


 “...ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos...”
Judas 1:3 (NVI)

Nota explicativa, antes da escrita (e leitura) da carta. A proposta de “cartas aos ex-membros de minha igreja” segue a linha exposta em outro texto anterior a este (“cartas a minha ex-igreja”) que, semelhantemente, faz-se necessário compreender o destinatário, propósito e circunstancias a derredor desta. A primeira observação necessária a ser feita é, novamente, reiterar que a utilização do pronome possessivo “minha” nesta carta, também, não se refere à possessão, mas denota afetividade. A segunda consideração refere-se à necessidade de identificação de qual igreja me referendarei, a saber: Comunidade da Fé – Igreja Cristã (Goiânia, Goiás, Brasil), igreja que atualmente pastoreio. E por fim, reitero que a utilização da expressão “cartas” no plural não significa que existem ou existirão outras cartas (pelo menos não na forma convencional da escrita), mas denota os ecos advindos desta correspondência que, igualmente, jamais conseguiria ser, por definição, uma só carta.

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A/C
Aos ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã.

Caros ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (COFE). Não tenho muita certeza se esta carta chegará a vocês, mas faço votos sinceros que chegue e que tenham paciência para ler as linhas que seguirão. Reconheço que me sinto desconfortável na escrita desta, pois englobarei num pacote só vários tipos de pessoas e várias situações distintas. Então, me sinto receoso de ser mal interpretado por ocasião das generalizações que aqui farei. Contudo, não acredito que seja prudente desdobrar particularidades, isto não edificaria o Reino, nem a nós mesmos. Portanto, a mim resta valer das palavras como pontes para aprendermos com o passado.

Fui dar uma bisbilhotada nas listas antigas e na atual lista de membros/frequentadores da Comunidade da Fé (COFE) e tive a estranha certeza que apesar de poucos anos de igreja (2007-2014) já estamos no rol das igrejas que mais tem ex-membros do que membros. Tive, então, a curiosidade, apesar do receio, de ficar alguns instantes lembrando de cada pessoa. Reconheço que esta foi uma sensação estranha (no mínimo constrangedora e sufocante), pois pude perceber que a ausência destes (ex)membros deixaram vazios gigantescos em minha vida e na história da COFE. Vocês deixaram buracos de proporções estratosféricas, provando mais uma vez que pessoas são sim insubstituíveis.

Ao pausar por alguns instantes, e relembrar de cada um de vocês que congregaram na COFE, me fez chegar a dois lugares distintos e antagônicos (simultaneamente). Primeiro percebi que alguns não mais estão na COFE, pois suas histórias superaram a COFE e, então, devido a nossa pequenez histórica não foi possível suportar a estes. São gente que precisavam de mais “espaço” para continuar a crescer e, talvez, a COFE fossem um limitador (pelo menos naquele momento histórico). A estes fica meu lamento e meu pesar consentimento, pois a grandeza destes (sem nenhuma ironia no termo) poderiam ter feito a COFE ser uma igreja melhor hoje. As ausências de vocês não somaram a nossa coletividade, pelo contrário, perdemos muito. Perdemos amigos, histórias e lembranças.

O outro lugar que cheguei (ou fui levado até lá) ao rever as listas de ex-membros, foi à dura percepção de que há muitos ex-membros da COFE que não mais estão em igrejas evangélicas (e em nenhum movimento religioso). Esta foi uma releitura que mereceu rigorosa autocrítica. Saber que alguns de vocês não mais estão conosco por terem alavancado voo superior a COFE é uma graciosa sensação de “abandono” (o primeiro lugar), mas saber que alguns de vocês não mais estão por terem largado a fé (o segundo lugar a que me refiro), é uma sensação de profunda perturbação pessoal-pastoral. E aqui me fez indagar que tipo de evangelho nós da COFE apresentamos a vocês, ou/e o que aconteceu entre nós que não foi suficientemente cristão ao ponto de desabonar a fé, e/ou ainda, se será que nós da COFE não conseguimos ser igreja para vocês de forma real. Estas indagações me preocupam sobremodo, mas as possíveis respostas destas questões me põem em crise didático-religiosa.

A crise didático-religiosa a que me refiro se dá por não conceber a idéia de deliberadamente transferir a culpa para vocês. Prefiro passar a reflexão culposa primeiramente por mim. Faço isto não por achar que eu sou importante no processo, mas como (ex)pastor de vocês acredito que seja minha responsabilidade criticar minha forma de pastoreio. Também perpasso a reflexão culposa por mim não para me vitimizar no processo, porém julgo relevante gastar um tempo para avaliar minhas (nossas) desventuras. A minha crise didático-religiosa se refere, essencialmente, a criticar o “modelo de ensino” da COFE (inclui-se: estudo bíblico, liturgia, culto, confraternizações, grupos familiares...) – e como sou o pastor não me resta para onde fugir.

É preciso reconhecer que, talvez, o “modelo de ensino” da COFE tenha sido (e talvez esteja sendo) muito insuficiente para vocês – fraquinho, superficial, distante da realidade local. Se este for o caso, só me resta admitir que tenho (temos) minhas (nossas) limitações. Contudo, sei que tanto eu, quanto os demais membros, sempre tentamos fazer o melhor possível, mesmo sabendo que existe uma diferença monumental entre fazer o melhor e ser o melhor – e ainda, admitir que fazer o melhor, às vezes, não é suficiente. Ainda temos muito a aprender, crescer e amadurecer, estamos no processo. Espero que tais deficiências (limitações) não sejam cristalizadas em suas mentes e corações. Reconheço que existem muitas igrejas melhor que a COFE, espero que vocês as encontrem e resignifiquem a fé de vocês.

Ao longo dos anos aprendi uma verdade inquietadora: ninguém muda de igreja por acaso; ninguém se desliga de um grupo religioso sem razão; ninguém sai de uma igreja despretensiosamente. E sempre que alguém sai (inclusive os chatos e os inúteis) o grupo perde. O bom da igreja é esta diversidade incontrolável (que, às vezes, faz expelir pessoas – mudar de igreja ou abandonar a igreja). Podemos até escolher onde congregar, não se pode escolher com quem vamos congregar. A todos vocês que são ex-membros da COFE fica registrado minha profunda gratidão e inquietação pelo tempo que congregamos juntos. Perdoe minhas (nossas) limitações e infantilidades, e quem sabe um dia poderemos caminhar juntos outra vez (isto seria fabuloso). Todos vocês deixaram marcar inesquecíveis em minha vida e na história da Comunidade da Fé – Igreja Cristã. Lamento por não mais estarmos juntos, mas agradeço por termos um dia estado juntos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 03 de Outubro de 2014