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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aos pastores que não desistiram, ainda...


"Sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo”.
Colossenses 3:24 (NVI)

O presente tempo conseguiu criar um ser religioso que parece ser pastor, tem título de pastor e segue todos os estereótipos de pastor, mas... não é pastor. Estes pseudos-pastores ficam a disseminar teologias de frases de parachoque de caminhão pela cristandade tupiniquim. São amantes da lógica meritocrática: faça o bem e vai dar tudo bem; façam o mal e sofrerá o mal. São oradores vazios, distantes e fantasiosos. Estes se tornaram pastores não por convicção, mas por segundas intenções: quer seja por status, por dinheiro, por orgulho, por malandragem, por mulheres ou qualquer outra coisa que chame a atenção da crentaiada. São estes mesmos que mais contribuem para que os pastores queiram desistir, pois banalizam o ser pastor, e quando fazem isto não emporcalham apenas o título de pastor, mas sim a identidade pastoral. Eis a razão porque várias pessoas não mais querem serem identificadas com a figura do pastor. Tristemente, são os “bons” que cansam, não os maus, pois afinal os maus pastores se dão bem no jogo igrejeiro. E de tanto ver isto, vários pastores preferem desistir.

O próprio título de pastor já é um bom motivo para que alguns queiram desistir. De fato, o título de pastor, para muitos, é uma pavonice desvairada. Valer-se do título de pastor não é valer-se de autoridade, é abusar da autoridade. Pastor é função, e função temporária. Somente no arraial evangélico o título de pastor (ou qualquer outra hierarquia eclesial) é vitalício. Entretanto, só se é pastor por estar pastoreando, não havendo isto, então, não mais é pastor, mesmo que tenha o título. O que torna alguém pastor é o ato de pastorear. Então, ser pastor é ter tempo de validade determinado, e isto não é ruim, é reconhecer que Deus não precisa de highlander’s. O que Deus quer é que façamos o melhor possível no tempo que Ele permitir que pastoremos. A Igreja sobrevive e sobreviverá aos pastores. Entretanto, é preciso diferenciar pastorear com gerenciar, diferenciar pastorear com pregar, diferenciar pastorear com motivar, entre outras variantes temáticas. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que pastorear (diferente do psuedos-pastores) é um convite para o anonimato, invisibilidade e discrição. Ser pastor é entender que somos apenas garçons a servir a comunidade, o dono do Reino já está posto, o Carpinteiro, o Eterno.

Não são apenas os pseudos-pastores que geram desejos de desistência nos pastores, há muita coisa na igreja que faz os pastores querem desistir. Em muitos casos, ser pastor significa comprometer a renda familiar em prol da comunidade, e isto com o tempo desgasta, fadiga e desanima os pastores. Perceber que poucos na comunidade conseguem romper a linha do espetáculo dominical e ombrear assumindo responsabilidades é uma das principais causas que faz com que muitos pastores avaliem suas próprias convicções e pensem em desistir. Tristemente, no Brasil aprendemos uma liturgia muito dependente da figura do pastor, o que em pouco tempo se mostrou pesada e sufocante para muitos destes ministros. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que ao invés de estarem num ambiente de fraternidade, estão numa relação desgastante de cliente e funcionário, relação está que se autêntica na insistência do “pagar” o dizimo, criando uma relação financeira de membresia. Não se pode perder de vista que ser pastor é, antes de qualquer coisa, uma atitude de voluntariado, doação, entrega, altruísmo, mordomia e serviço junto a fraternidade.

As igrejas sem perceberem estão perdendo seus pastores, pouco a pouco estão sendo substituídos, sorrateiramente. Contudo, tal substituição não é natural e nem espontânea, muitos estão sendo “despedidos”, lançados fora na lixeira. Geralmente são os pastores com a idade mais avançada que sofrem de tal tormenta. Infelizmente, em solos tupiniquins nos encantamos com o entusiasmo dos jovens pastores e, então, estupidamente, abandonamos os velhos pastores. Juventude é bom, sem dúvida. Entretanto, sem a sabedoria peculiar aos velhos, se torna precipitação, meninice e vaidade. A igreja deveria ser o habitat natural para que a diversidade dialogasse e como um corpo fosse se ajustando mutuamente. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois com um pouco de percepção de cenário eclesial, facilmente notaria que todo esforço em prol do Reino será disperso, em pouco tempo após a “ausência” do pastor, pouco se lembrariam deste ou dos esforços deste. Antevendo tal depressão pós-pastoreio, muitos preferem desistir do pastoreio e, então, escolhem viver suas próprias vidas, fazendo o que dá, quando dá, do jeito que dá, sem muito se dar. Comprovando tal perspectiva, há estatísticas que apresentam a figura do pastor como uma das principais “carreiras” com morte prematura, entorno de 40 a 50 anos de idade. Então, não há dúvida que ser pastor é desgastante, por isto muitos querem desistir. Ser pastor é um convite a desgastar-se, a semelhança de um milho num ralador.

Aos ler os parágrafos anteriores muitos podem ter tido suas convicções de desistir do pastoreio reconfirmadas. Outros tantos, podem ter tido apenas a certeza que eu suavizei os reais problemas, pois sabem na prática, que ser pastor é mais complexo e muito mais tenso do que as linhas anteriores descreveram. Contudo, para ambos os casos, quero propor uma reflexão para aqueles que não desistiram, ainda... e inicio tal jornada partindo do pressuposto de que o pastoreio é um misto de chamado de Deus e disposição humana. Paulo afirma que “se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja” (1 Tm 3:1), porém o próprio Paulo também afirma que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:13). Ser pastor é algo intencional. Não podemos admitir que pastores sejam a última opção de gente fracassada: não conseguiu ter um profissão, não conseguiu ter seu próprio negócio, não tem emprego... então, se torna pastor. Pastoreio é uma escolha intencional de fé e entrega ao Carpinteiro. Pastoreio é opção não falta de opção.

Ser “homo pastorius” é conviver com a dúvida da desistência, sempre. Contudo, isto não deve ser um limitador do ministério. A dúvida não deveria ser tão demonizada, pois é no campo da dúvida que as certezas se estabelecem. É somente quando nos permitimos indagar nossas próprias convicções é que teremos condição de encontrar respostas. É por meio da incerteza que descobrimos o caminho de descansar em Deus. Por esta razão, nunca saberemos ao certo se é hora de desistir ou de persistir, apenas tomaremos uma das duas decisões. O tempo, com toda imanência de Deus desvelará o caminho. Ser pastor é descobrir-se, dia após dia. Então, é preciso despir do encargo de oraculo dos céus, uma espécie de Hermes ocidental, e reconhecer que não saber o que fazer é reconhecer que pastores também são humanos. Para tanto, é imprescindível admitir que pastores não são “seres” mais próximos de Deus, não tem poder especial, não detém acesso diferenciado aos céus e nem é uma espécie de intermediário divino. Pastor é um convite para se misturar as ovelhas e apontar para o Pastor de nossas almas. Pastor não é um privilegio é uma responsabilidade.

E se algum pastor desistir... ou melhor, se mais alguns pastores desistirem, que estes não sejam estereotipados com a marca da besta gospel. Desistir pode ser a forma mais sublime de reverência que estes pastores encontraram de servir a Deus. Não podemos dicotomizar entre vencedores e perdedores. Quem gosta destas rotulações são pessoas temporais, que não entendem da eternidade, que se engorduram com categorização infantil. Não há pastores vencedores e outros tantos perdedores, somente há pastores. Se não são igrejas que estabelecem pastores, mas sim Deus, então, é Ele quem conduz a jornada de cada um, conforme lhe apraz, inclusive de forma contraditória aos padrões terrenos e eclesiásticos. Sendo assim, pastorear está para além de igrejas. Os pastores não existem para cuidar de igrejas, até podem fazer isto, mas pastores existem para cumprir os designíos do Carpinteiro. Esta missão pastoral pode ser acolhedora, numa igreja; ou solitária, num exilio eclesiástico. Por esta razão, alguns desistiram (ou querem desistir) do pastoreio para não deixarem de ser pastores.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 13 de Outubro de 2015

sábado, 4 de outubro de 2014

Cartas aos ex-membros de minha igreja


 “...ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos...”
Judas 1:3 (NVI)

Nota explicativa, antes da escrita (e leitura) da carta. A proposta de “cartas aos ex-membros de minha igreja” segue a linha exposta em outro texto anterior a este (“cartas a minha ex-igreja”) que, semelhantemente, faz-se necessário compreender o destinatário, propósito e circunstancias a derredor desta. A primeira observação necessária a ser feita é, novamente, reiterar que a utilização do pronome possessivo “minha” nesta carta, também, não se refere à possessão, mas denota afetividade. A segunda consideração refere-se à necessidade de identificação de qual igreja me referendarei, a saber: Comunidade da Fé – Igreja Cristã (Goiânia, Goiás, Brasil), igreja que atualmente pastoreio. E por fim, reitero que a utilização da expressão “cartas” no plural não significa que existem ou existirão outras cartas (pelo menos não na forma convencional da escrita), mas denota os ecos advindos desta correspondência que, igualmente, jamais conseguiria ser, por definição, uma só carta.

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A/C
Aos ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã.

Caros ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (COFE). Não tenho muita certeza se esta carta chegará a vocês, mas faço votos sinceros que chegue e que tenham paciência para ler as linhas que seguirão. Reconheço que me sinto desconfortável na escrita desta, pois englobarei num pacote só vários tipos de pessoas e várias situações distintas. Então, me sinto receoso de ser mal interpretado por ocasião das generalizações que aqui farei. Contudo, não acredito que seja prudente desdobrar particularidades, isto não edificaria o Reino, nem a nós mesmos. Portanto, a mim resta valer das palavras como pontes para aprendermos com o passado.

Fui dar uma bisbilhotada nas listas antigas e na atual lista de membros/frequentadores da Comunidade da Fé (COFE) e tive a estranha certeza que apesar de poucos anos de igreja (2007-2014) já estamos no rol das igrejas que mais tem ex-membros do que membros. Tive, então, a curiosidade, apesar do receio, de ficar alguns instantes lembrando de cada pessoa. Reconheço que esta foi uma sensação estranha (no mínimo constrangedora e sufocante), pois pude perceber que a ausência destes (ex)membros deixaram vazios gigantescos em minha vida e na história da COFE. Vocês deixaram buracos de proporções estratosféricas, provando mais uma vez que pessoas são sim insubstituíveis.

Ao pausar por alguns instantes, e relembrar de cada um de vocês que congregaram na COFE, me fez chegar a dois lugares distintos e antagônicos (simultaneamente). Primeiro percebi que alguns não mais estão na COFE, pois suas histórias superaram a COFE e, então, devido a nossa pequenez histórica não foi possível suportar a estes. São gente que precisavam de mais “espaço” para continuar a crescer e, talvez, a COFE fossem um limitador (pelo menos naquele momento histórico). A estes fica meu lamento e meu pesar consentimento, pois a grandeza destes (sem nenhuma ironia no termo) poderiam ter feito a COFE ser uma igreja melhor hoje. As ausências de vocês não somaram a nossa coletividade, pelo contrário, perdemos muito. Perdemos amigos, histórias e lembranças.

O outro lugar que cheguei (ou fui levado até lá) ao rever as listas de ex-membros, foi à dura percepção de que há muitos ex-membros da COFE que não mais estão em igrejas evangélicas (e em nenhum movimento religioso). Esta foi uma releitura que mereceu rigorosa autocrítica. Saber que alguns de vocês não mais estão conosco por terem alavancado voo superior a COFE é uma graciosa sensação de “abandono” (o primeiro lugar), mas saber que alguns de vocês não mais estão por terem largado a fé (o segundo lugar a que me refiro), é uma sensação de profunda perturbação pessoal-pastoral. E aqui me fez indagar que tipo de evangelho nós da COFE apresentamos a vocês, ou/e o que aconteceu entre nós que não foi suficientemente cristão ao ponto de desabonar a fé, e/ou ainda, se será que nós da COFE não conseguimos ser igreja para vocês de forma real. Estas indagações me preocupam sobremodo, mas as possíveis respostas destas questões me põem em crise didático-religiosa.

A crise didático-religiosa a que me refiro se dá por não conceber a idéia de deliberadamente transferir a culpa para vocês. Prefiro passar a reflexão culposa primeiramente por mim. Faço isto não por achar que eu sou importante no processo, mas como (ex)pastor de vocês acredito que seja minha responsabilidade criticar minha forma de pastoreio. Também perpasso a reflexão culposa por mim não para me vitimizar no processo, porém julgo relevante gastar um tempo para avaliar minhas (nossas) desventuras. A minha crise didático-religiosa se refere, essencialmente, a criticar o “modelo de ensino” da COFE (inclui-se: estudo bíblico, liturgia, culto, confraternizações, grupos familiares...) – e como sou o pastor não me resta para onde fugir.

É preciso reconhecer que, talvez, o “modelo de ensino” da COFE tenha sido (e talvez esteja sendo) muito insuficiente para vocês – fraquinho, superficial, distante da realidade local. Se este for o caso, só me resta admitir que tenho (temos) minhas (nossas) limitações. Contudo, sei que tanto eu, quanto os demais membros, sempre tentamos fazer o melhor possível, mesmo sabendo que existe uma diferença monumental entre fazer o melhor e ser o melhor – e ainda, admitir que fazer o melhor, às vezes, não é suficiente. Ainda temos muito a aprender, crescer e amadurecer, estamos no processo. Espero que tais deficiências (limitações) não sejam cristalizadas em suas mentes e corações. Reconheço que existem muitas igrejas melhor que a COFE, espero que vocês as encontrem e resignifiquem a fé de vocês.

Ao longo dos anos aprendi uma verdade inquietadora: ninguém muda de igreja por acaso; ninguém se desliga de um grupo religioso sem razão; ninguém sai de uma igreja despretensiosamente. E sempre que alguém sai (inclusive os chatos e os inúteis) o grupo perde. O bom da igreja é esta diversidade incontrolável (que, às vezes, faz expelir pessoas – mudar de igreja ou abandonar a igreja). Podemos até escolher onde congregar, não se pode escolher com quem vamos congregar. A todos vocês que são ex-membros da COFE fica registrado minha profunda gratidão e inquietação pelo tempo que congregamos juntos. Perdoe minhas (nossas) limitações e infantilidades, e quem sabe um dia poderemos caminhar juntos outra vez (isto seria fabuloso). Todos vocês deixaram marcar inesquecíveis em minha vida e na história da Comunidade da Fé – Igreja Cristã. Lamento por não mais estarmos juntos, mas agradeço por termos um dia estado juntos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 03 de Outubro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"LER" pastoral


“Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho”.
1 Pedro 5:2-3 (NVI) 

Ser pastor para muitos aventureiros gospeis resume-se a fazer um show dominical, e nada mais. Converge todo o ministério pastoral numa festiva seção religiosa coletiva que estranhamente pouco tem de envolvimento. São pastores de auditórios. Que de longe discursam sobre seus triunfalismos, que quase sempre são recheados de testemunhos pessoais próprios, como se suas vidas pastoris fossem a base para a fé dos ouvintes. Fazem da religião uma panaceia neurótica desprovida de relevância cotidiana. São pastores que não são pastores, mas sim animadores de palco, gerentes eclesiásticos e/ou apenas pastores de títulos (nunca pastorearam efetivamente). Para estes, pastorear é uma diversão com ares de status social-religioso, afinal para muitos o pastor é o ungido intocável todo poderoso.

Longe desta palhaçada contemporânea que fez do pastor um super-herói da religiosidade moderna existe os pastores (ordenados ou não) que, intencionalmente, escolheram pastorear “não por ganância, mas com o desejo de servir. Não como dominadores dos que lhes foram confiados...” - I Pe. 5:2-3. Entretanto, não sejamos ingênuos, este não estão imunes às mazelas da vocação pastoral e, então, são atormentados com a LER pastoral – LER aqui não se refere ao verbo “ler”, mas sim a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) aplicado a corriqueira rotina pastoral de muitos.

A LER pastoral leva anos para demonstrar sintomas visíveis, pois afinal, é resultado de ações repetitivas cotidianamente que aparentemente são inofensivas, mas com o tempo se mostra sobremodo prejudiciais. E é exatamente sobre estas inofensividades cotidianas repetitivas que abordaremos neste texto, desnudando como os próprios pastores, a igreja e o sistema eclesial moderno corroboram para a degeneração dos pastores vocacionados. Automaticamente fortalecendo o aparecimento dos super-pastores que nunca sofreram da LER pastoral, pois para todos os efeitos estes não são pastores.

A LER pastoral inicia quando o referido pastor (insisto, ordenado ou não, ser pastor não tem muito haver com a nomeação, mas sim com a função prática e a vocação desenvolvida) tem que constantemente ensinar as mesmas coisas quase que dominicalmente. Repete o mesmo sermão várias vezes, não com o mesmo texto, nem com os mesmos argumentos, mas sim com a mesma essência educativa-religiosa proposta, pois parece que os ouvinte não tem mais capacidade de interiorização das temáticas apresentadas. Repete-se os estudos bíblicos, pois percebe-se que o que fora exposto não teve relevância (apropriação) para os fieis. Repete-se, e repete-se os ensinos. Até que o referido pastor cansa de tentar convencer os ouvintes acerca das verdades bíblicas e dai começa até a questionar se realmente são “verdades”.

A LER pastoral se dá quando o pastor tem que ficar mantendo membros na igreja através de visitas sistemáticas aos fieis. A visitação faz parte do ministério pastoral, contudo, valer-se deste para manter membros na igreja é um convite à repetição mecanicista e desprovida de efetiva fraternidade. Repete-se as visitas com freqüência, pois se não visitar os membros embirram e vão para outra igreja ou “desviam”. Repete-se as visitas, pois as pessoas precisam ser mimadas para suprir um carência afetiva do nosso tempo. Repete-se, e repete-se as visitas. Até que o referido pastor cansa de repetir uma ação que julga ser apenas mecânica e dai começa a distanciar das pessoas.

A LER pastoral se manifesta quando em toda reunião de conselho, presbitério, diaconal, ou qualquer outra forma organizacional de governo eclesiástico, tem-se que ficar a repetir as mesmas orientações básicas. Quase que não precisa mudar a pauta da reunião: os problemas estruturais continuam os mesmos, o pessoal do louvor permanece insubmisso, na liderança dos departamentos sempre tem um líder que precisa ser exortado/corrigido e por ai vai... Ao que parece os problemas permanecem os mesmos, o que muda é somente o rosto dos envolvidos. Então, repete-se as reuniões de conselho para tomar as mesmas decisões que já tinham sido deliberadas. Repete-se as reuniões para reafirmar o que fora definido na reunião anterior. Repete-se, e repete-se as reuniões. Até que o referido pastor cansa de repetir as mesmas reuniões chatas/improdutivas e dai começa a tomar decisões isoladamente ou decide afastar do pastoreio para não ter que aguentar esta estagnação de maturidade coletiva.

A LER pastoral é real, e afeta os pastores de forma violenta, ao ponto de alguns não resistirem a tamanho desgaste intelectual, emocional e físico, não restando outra opção a não ser abandonar o pastoreio. Este intencional abandono não é sintoma de fraqueza, mas sim um suspiro de reverência, pois quando os tais pastores com LER pastoral se olham no espelho não conseguem ver alguém que esteja contribuindo com o Reino, por isto preferem sumirem, renegando a si mesmos ao campo da inutilidade. Estes reconhecem a visibilidade de suas patologias pastorais e não querem bandidar para o outro extremo se tornando super-pastores de platéias.

A boa notícia é que se a LER pastoral é provocada por uma rotina mecanicista que sufoca a essência ministerial, então, podemos combate-la através de um esforço coletivo (pastores, igreja e sistema). Talvez se houvesse mais intencionalidade em engajarmos nossas vidas no ministério; Talvez se nos dispormos a ser ao invés de fazer; Talvez se decidirmos congregar não esperando receber, mas sim em doarmos parte de nós; Talvez se pastorear não fosse um distintivo de diferenciação entre os irmãos; Talvez se pararmos de inventar desculpas; Talvez se começássemos a assumir nossas culpas... talvez...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 11 de Setembro de 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

Deus, ausências e pastores a suicidar


“Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer”.
Salmos 51:10-12 (NVI)
 

O título deste artigo pode ter causado estranheza, pois será discorrido sobre dois dos maiores tabus do mundo evangelical: a ausência de Deus – tema pouco difundido nos rincões gospel por gerar um sentimento de orfandade divina; e, o suicídio de pastores – tema absolutamente silenciado nos porões eclesiásticos por desnudar a humanidade que sustenta a invicta espiritualidade. Descrever sobre os dois temas separadamente já seria um desafio de proporções gigantescas, então faremos mais, associaremos ambos os assuntos como causa e efeito. É válido ponderar que as alienas que se seguirão não são as únicas abordagens possíveis, nem temos a intenções de simplificar a complexa junção de ausência de Deus e pastores suicidas. Contudo, é preciso romper o discurso programado de frases de efeito que povoa a previsibilidade de senso comum existente nas igrejas tupiniquins. É necessário ver mais que o perceptível; é imprescindível que se escute além das locuções; é fundamental que haja sensibilidade acima das oscilações emotivas; é indispensável que sejamos sinceros, mesmo que isto custe desnudar a fragilidade da nossa fé.

Nossa jornada se inicia a partir da ideia de “ausência de Deus”. No contexto bíblico percebem-se algumas situações em que esperávamos que Deus agisse de forma diferente por causa de quem Ele é, mas não O fez. Por exemplo: Onde Deus estava quando a serpente corrompeu Adão e Eva no Éden? Deus podia ter intervindo ali, mas não fez. Onde Deus estava quando Caim assassinou Abel? Deus podia ter impedido tal atrocidade, mas se omitiu. Onde Deus estava quando Estevão fora apedrejado injustamente? Deus podia ter evitado que o Reino perdesse um de Seus mais promissores pregadores, mas novamente Ele preferiu nada fazer. Além disto, a questões de ausências que nos emudecem, como: Por que Deus dá aos homens chance de arrependimento, mas para o diabo não há possibilidade de perdão? Por que Deus prometeu a Abraão um filho e demorou tanto ao ponto de isto ter provocado um desconforto/conflito histórico? Por que Deus não deixou Moises entrar na terra prometida depois de tudo que ele teve que suportar no deserto? Por que os profetas sofreram tanto para anunciar uma mensagem contrariamente de esperança? Por que a igreja primitiva sofreu tanta perseguição e Deus se silenciou? ...Por quê?

No contexto contemporâneo as indagações não perdem força, pelo contrário, agregam valores contextuais inquietadores, tipo: por que há tantas igrejas comprometidas com o Reino que não crescem? Por que há cristãos que estão a chorar por ocasião de tantas mazelas não provocadas por estes? Por que os ímpios prosperam? Por que, às vezes, dá a impressão que os descrentes são mais felizes que os igrejeiros? Por que o discurso de santidade não funciona? Por que nos sentimos tão vazios mesmo buscando sinceramente a Deus? ...enfim: Onde Deus está? Não são poucas as ocasiões em que temos a absoluta certeza de estarmos longe de Deus não por causa do pecado, mas sim porque a ausência dEle é perceptível e sufocante. E esta ausência é tão profunda que indagamos, frustradamente, a real existência dEle. Onde Ele está? Por que Ele prefere o silêncio? Então, depois de esgotarmos todas as engenhosas respostas criadas pelos teóricos (não teólogos) com fins a responder as interrogações, as dúvidas permanecem... pois, para cada resposta apresentada mais indigesto se torna  a jornada, ficando engordurada com frases de efeito, jargões ou reproduções autoritativas invictas.

Neste tempestuoso cenário de perguntas sem respostas surge o oráculo evangelical, um ser diferente dos demais seres-gospeis. Um homem (ou mulher) que se reveste da figura de “hermes” e faz aproximação entre Deus e mortais. Estes são chamados e aclamados pelo título (não função): pastores. A ironia foi proposital para ingressarmos no trágico segundo tópico proposto neste artigo, ou seja, pastores suicidas. De fato há poucos relatos de pastores que se suicidaram: Pr. Cosmo Rocha dos Santos (33 anos) em Alagoas, Brasil, em Abril de 2011 – “O corpo foi encontrado de joelhos sobre a cama nas dependências da igreja, com um fio de telefone envolta do pescoço”[1]. Pr. Teddy Parker (42 anos) em Geórgia, EUA, em Novembro de 2013 – Parker disse em um sermão: “Às vezes, eu não sinto que Deus está me ouvindo (...) Sabe, várias vezes sentimos que quando estamos passando por muita coisa de uma vez, é tanto que parece que estamos sozinhos. E adivinha? Deus quer que você se sinta assim. Sei que vocês já foram salvos há muito tempo. Sei que vocês são santos e super espirituais, mas há momentos em sua vida, não na de vocês, mas na minha, há momentos em minha vida em que passo por coisas e eu não consigo sentir que Deus está ali”[2].

Há registros do suicídio de três pastores nos EUA no final do ano de 2013, a partir de então os estudiosos decidiram investigar e chegaram a dados nada animadores: “70% dos pastores lutam constantemente com a depressão, e 71% estão 'esgotados'. Além disso, 72% dos pastores dizem que só estudam a Bíblia quando precisam preparar sermões, 80% acredita que o ministério pastoral afeta negativamente as suas famílias, e 70% dizem não ter um amigo próximo (...) O Instituto Schaeffer também estima que 80% dos estudantes de seminário (incluindo os recém-formados) irão abandonar o ministério dentro de cinco anos”[3]. Todos estes relatos e dados refere-se a pastores que interromperam suas próprias vidas ainda no oficio pastoral. Contudo, é preciso ir além, pois empiricamente sabemos haver muitos outros pastores que antes de se suicidarem se desviaram, não entrando nestes horríveis números estatísticos. O suicídio de ex-pastores é mais tolerável pela cristandade, alias, assim fica até fácil explicar o suicídio, responsabilizando o diabo e o pecado – simplificando o desejo da morte. É necessário investigar as causas, não explicar os fatos. É imprescindível delinear sobre as ausências, não justificar as presenças.

O suicídio de pastores (ou de ex-pastores) está intimamente ligado à ausência de Deus. É fruto de uma reflexão lógica de descrença total na ação de Deus a partir de suas vidas pastorais. Muitos dos que estão por ai pastoreando em solos tupiniquins não podem ser sinceros com seus próprios sentimentos, desilusões e frustrações. Não podem contar quantas vezes ficaram num banheiro imaginando de que forma poderiam acabar com a dor profunda de não saber se é verdade o que prega. Não podem dizer por ai quantas vezes se arriscaram com a esperança de que numa destas morreria e terminaria então não como suicida, mas como herói. Não podem declarar nos rincões gospel que não sabem explicar o porquê que Deus salvou uma pessoa de um acidente e, estranhamente, Deus nada fez para livrar o outro gerando dor nos familiares. Não podem reconhecer que ser pastor não os torna melhores, superiores ou mais chegados a Deus, pois para muito é só isto os distintivos de pastores. Não podem verbalizar que, às vezes, se arrependem de terem sido ordenados a pastores e que tem plena certeza de não estarem preparados. Não podem... até que dizem para o mundo o que realmente queriam dizer: morrer.

Não quero finalizar este artigo com teologias de frases de parachoque de caminhão. Não quero tentar defender Deus acerca de Suas ausências, pois disto Ele não precisa (e nem eu entendo!). Não quero tentar explicar de forma espiritualizada os suicídios de pastores, pois a muito silêncio antes da morte. Alguns poderiam apenas se contentar com explicações infantilizadas e estupidas como as que foram postadas por Edir Macedo (suposto pastor), quando afirma sobre os suicídios de pastores: “Isso aconteceu porque a fé do pastor estava alicerçada nos seus sentimentos e não na Palavra de Deus. (...) A fé inteligente despreza a visão, audição, tato, olfato e paladar. Ela é a certeza de coisas que se não veem ou sentem... A crença verdadeira se fundamenta naquilo que está prometido, escrito ou falado pela boca de Deus. Nada mais além disso”[4]. Isto é pura teologia de frase de parachoque de caminhão, pois exclui toda a humanidade do processo, distancia a vivência do espiritual e fomenta a figura heroica do pastor. Edir Macedo nunca quis que o povo vissem os pastores como gente, por isto no conhecidíssimo discurso gravado em 1995[5], ele afirma: “O povo tem que ter confiança no pastor. Se você mostrar aquela maneira xôxa, o povo não vai confiar em você para orar. Você tem que ser o super-heroi (...) é a fé ou não é? (...) tem aqueles que são tradicionais... agora tem outros (que dirão): poxa, a quanto tempo eu queria isto. Poxa, tô cansado de ler a bíblia, de ver tantas palavras e não acontecer nada na minha vida...”.

Por fim, temos que reconhecer que a ausência de Deus é mais agressiva que a Sua presença julgadora. Igualmente temos que admitir que a morte seja mais atrativa que viver uma farsa. Portanto, continuaremos ouvido, sorrateiramente, acerca do suicídio de pastores nos próximos anos. Haverá alguns que com profunda devoção e respeito, apesar de toda descrença em Deus, vão visivelmente se desviar, entrando pro rol dos ex-pastores suicidas – estes optaram por uma morte solitária, distante inclusive de Deus. E, enquanto “pastor” for um título de diferenciação entre nós, ao invés de um serviço fraternal e temporal, estaremos, então, sendo co-responsáveis pelos suicídios – aquele que aperta o gatilho não é o único a cometer suicídio, ele apenas protagoniza.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 26 de Fevereiro de 2014



[1] Confira a reportagem completa no link: http://leopoldinaparacristo.blogspot.com.br/2011/04/pastor-comete-suicidio-um-alerta-para.html
[2] Confira a reportagem completa no link: http://www.christiantoday.com/article/pastor.teddy.parker.commits.suicide.congregation.waits.for.him.after.confessing.sometimes.he.cant.feel.god/34672.htm
[3] Confira reportagem completa no link: http://noticias.gospelprime.com.br/pastores-suicidios-igreja-americana/
[4] Leia o comentário completo no link: http://www.bispomacedo.com.br/2013/12/23/pastor-comete-suicidio/
[5] Vídeo disponível no link: http://www.dailymotion.com/video/xe4xpr_jornal-nacional-denuncia-edir-maced_shortfilms

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A sociedade dos servos inúteis


“...quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever".
Lucas 17:10 (NVI) 

A muitos e muitos anos atrás, num reino tão distante, havia um pequeno grupo de servos que dotados de grandes talentos e capacidades diversas, serviam o rei com destreza e excelência. Gente esta que lutavam grandes batalhas, venciam ferozes dragões, enfrentavam exércitos e ao fim eram recebidos como heróis na vila onde moravam. Eram arqueiros que manuseavam habilidosamente o arco e flecha. Eram soldados que empunha suas espadas no mais alto estilo da nobre esgrima. Eram generais que ousadamente enfrentavam os perigos das guerras épicas, sucumbindo suas vidas em nome do rei. Estes são homens de honra que mesmo nunca tendo posto a coroa viviam suas vidas em nome desta que enobrece a cabeça de um só.

Numa fatídica manhã, porém previsível aos olhos mais sensíveis do reino, estes homens que valiam de suas vidas para manter a vida, enfrentaram a maior batalha de todos os tempos. Lutaram como antes, com punho fechado, com precisão nos golpes, com os olhos postos na glória do rei, com coragem tamanha que impunham respeito aos frágeis militantes que lá de longe observam um duelo digno de saudosas homilias gregas. A batalha parecia não ter fim, foram dias, semanas, em que as espadas não descansavam, e apesar de todo cansaço oriundo desta empreitada os nobres servos mantinham a guarda, zelando pelo nome do rei e exercendo seus votos de usarem tudo que tinham para expandir o reino. Finalmente, após longo período de pleito, mais uma vez... venceram, e então se puseram no caminho de volta para casa.

Durante o trajeto de volta, estes homens, que agora já estavam acostumados com as ovações de outrora, acreditavam que depois desta batalha seriam recebidos como reis na vila, afinal, nunca antes se vira tamanha disposição e disponibilidade em servir. Contudo, traiçoeiro é o caminho da glória, capaz de tornar os tais homens nobres em insaciáveis cumbucas de elogios e reconhecimentos – recipientes estes apropriados para os mais vis sentimentos de rebeldia contra o rei. Diferente das calorosas recepções do passado, foram humildemente recebidos pelos pequenos que brincavam na beira do portão da vila. Todos os demais habitantes estão interditos com suas obrigações domésticas e afazeres profissionais, não puderam ir aplaudir os destemidos servos do reino. E isto não passou despercebido pelos que voltavam...

Chateados, como era de se esperar, os servos-guerreiros começaram a arrazoar entre si sobre a ingratidão dos da vila. Ponderaram acerca da ousadia destes em não reconheceram os esforços dos tais. Arquitetaram argumentos mil sobre o que seria do rei sem estes robustos servos que não temiam a morte. Julgaram ser o mínimo serem recebidos com aplausos, ramos de gratulações e gritos de estímulos. Decidiram então abandonar o reino, pois ninguém merece ficar num local que não há valorização e gratidão. Foram embora. Deixaram o rei, os da vila e os pequeninos que ainda brincavam na beira do portão. Exilados numa floresta não muito longe da vila, os ex-soldados do rei se confabularam e decidiram eleger um rei para si, mas não conseguiram chegar num acordo, pois todos queriam ser reis, afinal era o grau mais nobre de reconhecimento que se existia e que estes aspiravam.

Algum tempo depois, com tentativas mal sucedidas de coroação, os ex-servos foram bisbilhotar como os da vila estavam conseguindo viver sem a proteção e qualificação destes que foram embora. Queria saber como o rei estava se portando sem o seu grupo de elite. Os tais nobres soldados acreditavam que a vila tinha perdido muito sem eles e precipitavam discursos orgulhosos de que agora o reino iria ver o quando eles eram preciosos e indispensáveis. Contudo, ao chegarem nas frestas do muro da vila perceberam que a vida continuava e que nada tiravam a paz do rei. Decepcionados, mas curiosos, foram à procura do rei. Os servos expuseram suas insatisfações, diziam serem merecedores de honra, não iriam aceitar a ausência de ovações pelo serviço que faziam no reino. Então o rei amorosamente apenas disse: “quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever” - Lucas 17:10.

Deste dia em diante, os soldados voltaram para a vila, lutaram batalhas diversas, enfrentaram seus próprios medos em dias sóbrios de guerra e entenderam que no reino só pode haver um rei, digno de toda honra e reconhecimento. Agora, quando chegavam na vila não mais queriam ser recebidos com aplausos, alias nem faziam questão de serem vistos. E, se alguém da vila ousasse fazer qualquer forma de reconhecimento, estes nobres soldados logo os exortavam dizem com o argumento de que: “tudo que fizemos, fizemos pelo rei. Era nossa obrigação, fomos treinados para isto, vivem para isto e se for preciso morreremos por isto. Nossos talentos e virtudes são responsabilidades, não nos tornam melhores que os outros. Fazemos o que fazemos porque nascemos para isto, e se no final da jornada alguém quiser nos exaltar lembrem estes que fomos apenas servos inúteis”.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 05 de Fevereiro de 2014

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um menino chamado Edir Macedo


“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição...”
2 Pedro 2:1 (NVI)

Nos últimos tempos poucas pessoas têm conseguido ocupar tanto espaço na mídia como o excêntrico “Bispo” Edir Macedo, principalmente no que concerne ao lado empresarial encabeçado pela Rede Record que constantemente se encontra numa concorrência com a principal rival, Rede Globo. Nesta luta para saber quem mandará no Brasil nas próximas décadas vale tudo, inclusive manipular as massas evangélicas para apoiar manifestos tendenciosos e meramente mercantilistas. Contudo, o propósito do presente artigo não é apimentar este conflito, mas sim fazer uma breve reflexão sobre o lado religioso deste homem (Edir Macedo) que não poucas vezes tem agido de forma infantil. A intenção é refletir (pensar) sobre as premissas teológicas e religiosas que o líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem propagado e como que estas são prejudiciais a fé cristã.

No dia 27 de Abril de 2009, Edir Macedo registrou em seu blog as seguintes alíneas: “Será que os que me acusam de aproveitador, vigarista e ladrão não gostariam de estar em meu lugar???… Será que eles me acusam porque são honestos, íntegros, verdadeiros e santos? E se a santidade deles é tão acentuada assim, por que não são tão abençoados por Deus como gostariam? Seria Deus injusto para com eles? Que Deus é Esse que abençoa um “bandido” e amaldiçoa os certinhos? Ou será que mesmo na integridade eles não conseguem sucesso porque são incompetentes? E não seria tamanha incompetência a verdadeira razão da inveja? (...)” – cf. www.bispomacedo.com.br/blog , acessado em 16 de Maio de 2009. Tristemente, Edir Macedo não está totalmente errado, o que não torna suas idéias aceitáveis. É indiscutível que inúmeros líderes eclesiásticos fariam qualquer coisa para ter o suposto “sucesso” e “crescimento” que a IURD obteve nas últimas décadas, a prova disto é que estão imitando os heréticos programas da IURD em diversas igrejas.

A perícope acima demonstra que o Sr. Edir Macedo se esqueceu do texto do livro de Jó que exemplifica que coisas ruins acontecem com pessoas boas e que a recíproca também é verdadeira, ou seja, coisas boas acontecem com gente ruim. Este estalo teológico apresentado por Jó é o que equilibra o radicalismo defendido por alguns baseando exclusivamente no texto de Deuteronômio, capítulo 28, onde apresenta a súmula: sejam pessoas boas e Deus abençoará; sejam pessoas más e Deus amaldiçoará. Sendo assim, Macedo se esquece que o que se está em “xeque” nesta vida não é o sucesso adquirido perante os homens, nem o nebuloso fracasso, mas sim a fidelidade com que se é mordomo de Deus. Portanto, santidade não é pré-requisito para adquirir bens materiais, integridade não garante riqueza, e ao que parece a lógica do mercado capitalista é exatamente o contrário.

Há vários textos bíblicos que estão em acordo ao dogmatizar que prosperidade, sucesso, felicidade não são necessariamente atributos daqueles que são fieis cristãos. Para tanto vale observar o texto de Salmos 94:3: “até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios saltarão de prazer?”. Tal texto está próximo da indagação registrada em Juízes 12:1: “...por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente?”. Portanto, ao contrário do que Macedo intenta ensinar, bênçãos nesta terra não pode ser o critério exato para discernir se alguém está com Deus ou não. Contudo, não se pode radicalizar afirmando que Deus é contra a prosperidade. Torna-se, então, razoável e é no mínimo sensato arrazoar que, toda e qualquer riqueza quando não é utilizada para a glória de Deus deve ser questionável.

Outro caminho demasiadamente perigoso que o Sr. Edir Macedo induz a cristandade atual a trilhar em seu blog é o pressuposto de que as pessoas ao olhar para ele sentem inveja. Os líderes evangélicos que comungam deste sentimento devem repensar seriamente a fé, pois o referencial de pastor deveria ser não o sucesso, mas sim o caráter, porém tal fato é omitido em seu blog, focando que a razão da inveja dos outros por ele é essencialmente o “sucesso” da IURD. Ambos erram, pois o que a igreja precisa atualmente é de pastores de caráter, não de pastores-empresários que se orgulham do sucesso como se este fosse mérito pessoal. Para tanto, novamente o texto bíblico, especificamente o de Salmos 73:2-3, ajuda o leitor a não ceder para o “canto da sereia”, pois argumenta: “quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos. Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”.

Ao ler a perícope destacada do blog do Edir Macedo e após fazer as devidas considerações anteriormente relatadas, uma cena da infância vem à mente. Se parece muito com uma criança mimada que conseguiu um carrinho importado de controle remoto sem fio e que agora frente aos “amigos” do bairro menos favorecidos fica fazendo “figuinha” e esnobando os outros se achando o melhor entre todos. Contudo, depois que se cresce vê que aquele carrinho não tem importância nenhum. Se for um carrinho feito à mão com garrafas pet ou importado sem fio, isto não tem o menor valor quando se adquire um pouco de maturidade. O que importava realmente era estar junto um dos outros. Parafraseando, quando na Igreja se deixa de ser criança o que importa não é mais a beleza dos templos, nem o sucesso aclamado pelas multidões e muito menos a prosperidade dos outros, tudo isto são paixões infantis.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Junho de 2009

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Aos pastores de igrejas pequenas



“Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo”.
Colossenses 3:23-24 (NVI)

Num contexto onde muito se ensina as igrejas a crescerem, acredito ser oportuno refletir sobre o propósito de Deus junto aos pastores de igrejas pequenas. Ao contrário da panacéia contemporânea que insiste em rotular as igrejas pequenas como fracassadas, incapazes, pecadoras, entre outros adjetivos notoriamente depreciativos, faz-se necessário enfatizar que não há algo de errado em ser pastor de uma igreja pequena. Contudo, é preciso fazer uma análise mais sincera sobre o pastoreio destes, é válido descortinar as frustrações que assolam o coração daqueles pastores, é imprescindível que haja uma reflexão menos fantasiosa sobre os fatos congregacionais destes, e, é oportuno vislumbrar a humanidade deste “homo pastorius”.

Há muitas lendas que permeiam o imaginário pastoril. Provavelmente a mais comum é aquela falsa sensação de que o pastor dá conta sozinho, afinal a igreja é pequena. Nada é mais irreal que tal pressuposto. Por isto, afirmo com toda certeza, ele não dá conta! Mas, provavelmente ele tentará. Este esforço passional pode ser um grande problema para o ministério, pois a igreja não é o resultado do esforço de alguns, mas sim a soma da integração dos que congregam. Contudo, quanto menos trabalhadores se atrincheiram na seara mais pesaroso se torna a carga dos que, mesmo em lágrimas, não soltam a enxada. O resultado provável é um pastor cansado da igreja e membros que se sentam dominicalmente esperando mais da igreja (como se a igreja não fossem eles próprios).

Outra fantasia que persegue este “homo pastorius” é a presunção de achar que a igreja é fruto do esforço humano, especialmente do homem pastor. O pior disto tudo é que tais pastores acreditam entusiasticamente nisto. Não querendo contradizer o parágrafo anterior, mas completando-o, afirmo que nenhuma igreja, grande ou pequena, é fruto exclusivamente do labor humano. Deus é o Senhor da Igreja, e em Seu plano eterno faz com que pequenos e grandes sejam igualmente úteis ao Reino – nada é mais prejudicial à Igreja (e igrejas) do que homens que desconhecem Deus e insistem em padronizar a fé, tentando mensurar a operação do Espírito Santo e intentando fazer mais que o proposto pelo Senhor do Tempo. Ser pastor é ser chamado a servir, não nos compete mensurar ou dimensionar tal grandeza.

O pastoreio de igrejas pequenas permite alguns vislumbres preciosíssimos, a saber: conhecer os membros pelo nome – a expressão “irmão” ou “amado” denuncia o quanto se esta longe da vida das pessoas. Outra virtude das igrejas pequenas é poder fazer muitas confraternizações – numa igreja de grande porte é inevitável que se limite a quantidade de pessoas nas referidas confraternizações cobrando valores que excluem boa parte dos “irmãos”. Há mais vislumbres da grandeza da igreja pequena como, por exemplo, alterar a liturgia pensando nas pessoas – a liturgia é importante! Entretanto, quando programas são mais relevantes que as pessoas que frequentam tais programas tornam um martírio coletivo dominical, às vezes, é preciso mudar a forma de culto.

Prosseguindo nesta narrativa dos pequenos é preciso destacar outras grandiosidades, a saber: Os sermões nas igrejas pequenas tendem (porém, não necessariamente) a ser mais relevantes, pois a aplicabilidade dos textos bíblicos encontra um contexto social conhecido por todos da congregação – diferente de megas-igrejas em que o sermão é descontextualizado e genérico, pois não leva em consideração a realidade do ouvinte já que há uma multidão de desconhecidos dizimistas. É valido ainda fomentar pelo menos mais uma virtude das igrejas pequenas, a figura do pastor, pois este num grupo reduzido se torna gente da gente sem pretensões vaidosas de autoridade pastoral – diferente das figuras “mitológicas” que desenham acerca dos pastores de igrejas grandes com tons invictos, quase perfeitos e homens modelos em tudo, visão clássica de membros que vivem longe dos referidos pastores (de longe tudo é belo, cheiroso e perfeito).

Depois do exposto o leitor deste artigo pode estar sendo iludido a se encantar com as maravilhas de se ser igreja pequena. Todavia, é preciso arrazoar sobre o outro lado da moeda, e este lado não é nada convidativo. Primeiro, é preciso pontuar a inevitável falta de recursos financeiros que assombram o sono destes pastores – por ser um grupo menor obviamente as entradas também são menores, exigindo um malabarismo inimaginável para conseguir quitar os compromissos, por esta razão é inevitável que o pastor tenha que intervir com suas próprias fontes de subsistência pessoal, causando desconforto familiar imperceptível aos membros. E, para piorar tal situação, tem que conviver com a semanal necessidade eclesiástica de comprar algo, reformar alguma coisa, dar manutenção em, entre outras contas.

Em segundo lugar, tais pastores convivem diariamente com um monstro chamado “medo” – distante da hipocrisia e máscara que nós pastores insistimos em estampar no culto temos que ser sinceros e reconhecermos que temos medo. Medo de perder os poucos membros que há na congregação e que fazem parte de nossas histórias, sonhos e amizades; medo de não conseguirmos nos manter fieis a exposição bíblica tendo em vista os resultados inexpressivos que temos alcançado; medo de não estar no caminho certo e sendo assim ter que viver com um grande ponto de interrogação ministerial que incomoda e perturba as nossas razões; medo de se estar criando justificativas para o porquê da igreja ser pequena e se esconder atrás de tais desculpas; medo de tantos medos que aos olhos de quem não é pastor poderia ponderar serem desnecessários, mas asseguro que há medos mais profundos e mais desconcertantes do que os aqui foram descritos.

Chegando ao fim deste discurso uma pergunta orbita (melhor seria dizer: perfura) em nossos corações, qual deve ser a atitude de um pastor de igreja pequena? Este é o tipo de questionamento que não encontra apenas uma única resposta, são respostas (plural), e estas são essencialmente pessoais, pois Deus não trata a Sua Igreja como uma linha de montagem de uma fábrica, Ele é um Carpinteiro Artesão. Felizmente (isto mesmo, felizmente), não sei responder a tal questão, conviverei pastoralmente com esta interrogação. Confortarei e orientarei a minha jornada pastoral sob a admoestação de Pedro: “Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória”- 1 Pedro 5:2-4 (NVI).

Fortalecido pela cruz de Cristo, 
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br 
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Artigo escrito em: 05 de Setembro de 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pregadores nas mãos de um Deus irado

em todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.
Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? ’
Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal! ’ "

Mateus 7:2

“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’”. 
Mateus 7:21-23 (NVI) 

Há alguns séculos atrás Deus levantou um homem que transformou a perspectiva teológica conhecida até então, chamava-se: Jonathan Edwards (1703-1758). Em 8 de Julho de 1741 em Enfield, Connecticut (Estados Unidos), ele proferiu o famoso sermão: “pecadores nas mãos de um Deus irado”, causando um impacto inesquecível naqueles que ouviram. Atualmente este sermão tem sido publicado em várias línguas, trazendo proveito espiritual a milhares de pessoas em toda parte do mundo.

Do século XVIII até a era presente vários oradores parafrasearam o sermão de Edwards aplicando-o nas mais diversas situações eclesiásticas e teológicas, a exemplo temos: “Deus nas mãos de pecadores irados”, “Pecadores nas mãos de um Deus muito irado” e etc. Contudo, a vivencia na sociedade pós-moderna oriunda dos caprichos do século XXI nos leva a um vislumbre nebuloso de “pregadores nas mãos de um Deus irado”.

A leitura do cenário pós-moderno revela que a desnutrida formação teológica dos pregadores tem contribuído substancialmente para que as heresias e aberrações se tornem rotinas no seio eclesiástico. A raquítica e superficial educação bíblica ministrada nas igrejas só tendem a acentuar o problema. A falta de incentivo hermenêutico por parte da liderança corrobora e acelera as manifestações de abusos ministeriais.

Na “crista da onda” das heresias encontra-se a Teologia da Prosperidade. Pode ser entendida como um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral, e de exigi-la através de decretos e ordenanças. Segundo os adeptos desta linha de pensamento, Jesus veio ao mundo pregar o Evangelho aos pobres justamente para que eles deixassem de ser pobres.

Tudo começou com Essek William Kenyon (Nova York, EUA, 1867), ex-pastor das igrejas batista, metodista e depois outras de linha pentecostal, que influenciado por idéias de seitas cristãs/metafísicas, desenvolveu estudos que entre outras coisas tratava de: poder da mente, a inexistência das doenças e o poder do pensamento positivo. Posteriormente, entra em cena Kenneth Hagin (Texas, EUA, 1918), discípulo fiel de Kenyon. Sofreu várias enfermidades e pobreza na juventude. Contudo, aos 16 anos diz ter recebido uma revelação quando lia Mc. 11.23,24, entendendo que tudo se pode obter de Deus, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário.

Outro problema é que a “Santa Igreja Evangélica” tem pregado doutrinas que assemelham (para não dizer que copiam) das: católico romanas, judaicas, espíritas e até mesmo umbanda. O pior é que os membros, conselhos ministeriais e assembléias gerais parecem fazer vista grossa frente à tamanha distorção bíblica. Em meio a este sincretismo religioso disfarçado de novas estratégias para o crescimento da Igreja percebe-se um estupro dos ensinos de Cristo Jesus. Tal realidade é uma agressão moral ao caráter de Deus.

Os cultos giram em torno de temas como: dinheiro, demônios e enfermidades. Pode-se freqüentemente observar práticas pagãs, bastante comuns no catolicismo popular e mesmo na umbanda, como distribuição de "fitinha da prosperidade", "sal grosso", “sabonete da purificação”, “espada da vitória”, “chaves do sucesso”, “rosas ungidas”, “cruz do triunfo”, lenços, rituais de descarrego com "arruda" para dar sorte, água benta, óleo ungido etc.

A igreja “picadeiro de Jesus” também não fica para traz. Os pregadores só faltam se vestirem de palhaços, pois as piadas e os showzinhos já acontecem normalmente nos púlpitos. O termômetro que ajusta a aceitação do sermão são as gargalhadas eufóricas da platéia. A cada domingo a preocupação é aprender novas piadas para não cansar as pessoas com as mesmas crônicas. O louvor também aproveita o picadeiro aberto para lançar as mais loucas músicas. Assim, o circo está armado e por algumas horas tudo se resume no bem estar dos ouvintes. E Deus? Ah! Deve estar lá na última fileira de bancos apenas olhando e tentando descobrir do que as pessoas tanto riem daquele que deveria ser Seu porta-voz.

A triste realidade de pregadores que inquestionavelmente mais se parecem com animadores de palco tem sido comum, até mesmo nas mais conservadoras denominações. A liturgia dos cultos está sendo assassinada, dando espaço para shows no mínimo esquisitos. As músicas outrora infundidas por Deus sedem espaço para plágios de sucessos do meio secular, mudando apenas a letra para não “escandalizar”. A Escola Bíblica Dominical perde ibope, pois o foco não mais é ensinar, mas sim empolgar as platéias com mega produções impressionistas.

A Igreja “fast-food” é a moda do momento. Os estudo teológicos que antes eram de quatro anos se resumem agora a meros meses. Os ensinos bíblicos sedem lugar para lições levianas da famosa super legalidade hierárquica. O pensar se condiciona à vontade do cacique da Igreja. A reação provocada por atitudes como as mencionadas anteriormente é de fácil percepção. Contudo, a miopia oriunda da falta de educação teológica tem dificultado o amadurecimento eclesiástico.

O terrível diagnóstico pós-moderno eclesiástico não cessa. Talvez, como num golpe final no que ainda restou de dignidade na igreja se contempla um estilo de pregação cada vez mais crescente: os anti-teologia e anti-missões. A falta de incentivo ministerial e financeiro para com os seminaristas retrata o perfil dominador-medroso dos lideres. A decorada justificativa de não se ter recursos para sustentar missionários no campo reflete tão somente o quanto a Igreja está longe do propósito de Deus.

A grande verdade por detrás deste pano de fundo é que Deus tem tolerado a Igreja Evangélica. Haverá um tempo onde o próprio Deus há de intervir derramando juízo sobre os Seus. Quando este dia chegar contemplaremos a apavorante e assombrosa visão de “pregadores nas mãos de um Deus irado”. 

Fortalecido pela cruz de Cristo, 
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br 
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Artigo escrito em: 12 de Setembro de 2007