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terça-feira, 26 de maio de 2015

Mcdonaldização do evangelismo


"Pregava o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, abertamente e sem impedimento algum".
Atos 28:31 (NVI)

As igrejas evangélicas brasileiras, buscando uma aceitabilidade maior do Evangelho, fez com que, ao longo dos anos, fosse assimilada a idéia de anunciar (repassar) Jesus Cristo de forma rápida e padronizada. Sendo assim, a igreja se tornou uma grande lanchonete do Mcdonald´s – moderna na estrutura física, atrativa no marketing, rápida na produção e padronizada no mundo. Partindo dessa linha de pensamento, cada crente se tornou um Big Mac que será devorado por consumidores religiosos, que de igual modo são seres padronizados.

A padronização eclesiástica, influenciada pela “Mcdonaldização do Evangelismo”, prega a homogeneização da salvação, da liturgia, da conversão, da santificação, das estratégias eclesiásticas e etc. Às vezes, parece que há uma fôrma onde se coloca a pessoa evangelizada para eliminar as virtudes e qualidades distinguíveis a cada individuo, criando cristãos imitadores (padronizados), reprodutores da fé de discipuladores hambúrguer. O cristão mcdonaldizado é aquele que vive simplesmente para ser igualzinho aos outros – cantam as mesmas canções, falam os mesmos clichês espirituais, pregam os mesmos sermões e oram da mesma forma.

Infelizmente, a igreja tupiniquim aderiu, entusiasticamente, a “Mcdonaldização do Evangelismo”. Isto fica notório, pois se trabalha exaustivamente na obra de Deus, mas não se tem tempo para o próprio Deus. Se define um evangelismo relâmpago, com resultados rápidos, produzindo conversões momentâneas. Se prefere a eficácia das estratégias de crescimento e padronização empresarial (Mcdonald´s), ao invés de buscar em Jesus o modelo para espiritualidade, evangelismo e eclesiologia.

É nas igrejas mcdonaldizadas que se cria a linha reprodução em série (leia-se multiplicação) que precisam ser provocadas para entrarem num ritmo de ativismo tamanho que impossibilite as pessoas de perceberem que estão se tornando meros cheeseburger religiosos. É necessário bradar que cada pessoa tem suas especificidades e não pode ser tratada como uma mera linha de produção de sanduíches. Por fim, o resultado de tudo isto é: limitação e boicote da Verdade contida no Evangelho, banalização do poder de Deus, crentes “fantoches” e ativismo eclesiástico.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 10 de Junho de 2005

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Orgulhosamente missionários


“É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. (...) Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me”.
Filipenses 1:15,18 (NVI)

O modelo missionário que o Brasil mais conheceu foi aquele que tentava convencer as pessoas pelo sofrimento do outro. Para tanto, usava-se fotos com as mais austeras mazelas e preconceitos humanos. Fome, nudez, negritude, doenças, amputações, pobrezas, rituais bizarros – eram comuns nos slides de retroprojetores das décadas de 1990 (não mudou muito para o slide de data show contemporâneo). Entendia-se que fazer missões era ir, somente, para lugares paupérrimos. Este sentimento já vinha carregado de uma superioridade que minava as bases da missão. Estes foram nossos dois principais erros missiológicos na década de 1990: 1) iludir-se que as pessoas serão convencidas pela sensação do sofrimento do outro, provocando choros que não se sustentavam mais do que o período de liturgia dominical – confundindo sensibilização com conscientização; e 2) acreditar que missões será feita por pessoas superiores aos selvagens tribais (ou urbanos) do campo missionário – divinizando a cultura do missionário e demonizando a cultura do autóctone. Entretanto, atualmente, superamos (ao menos parcialmente) estes deslizes. Contudo, um novo missio-mostro fora criado: o orgulho missionário.

O orgulho missionário é quando o missionário (ou pastor, evangelista, obreiro...) começa a achar que o seu local de atuação é mais importante que os demais locais, que abarcam, complexamente, uma infinidade de situações diferentes e emergentes. É preciso reiterar que missões não se define pela necessidade local, pois missões é mais que ações emergenciais de calamidade pública; missões não se dá por estar fazendo trabalho em comunidades carentes, pois é bem possível trabalhar com os pobres numa manutenção sutil do estado de pobreza; missões não é mensurado pelas estatísticas numéricas, pois a frieza dos números esconde o que habita nos corações que se emaranham com o Evangelho. Portanto, não existe um lugar restritivo para missões - com isto não quero pender para a falácia de que tudo é missões. Entretanto, é preciso que se enxergue missões para além do próprio arraial – é romper o orgulho missionário que habita em mim (você).

Por muitos anos a igreja evangélica tupiniquim demonizou e ridicularizou os trabalhos missionários em países ricos. O resultado foi à perda da fé de inúmeros irmãos, como se estes não precisassem igualmente do Evangelho – é obvio que muitos queriam apenas os cifrões, mas não podemos generalizar. Por muitos anos inferiorizou-se os trabalhos em zonas urbanas convencionais. O resultado foi o encaramujar das pessoas em suas casas e condomínios fechados, como se estes tivessem a condição natural de se aproximar do Evangelho – é óbvio que havia uma certa facilidade de contato com igrejas, mas isto não foi suficiente. Nos últimos 20 anos quando alguém falava de missões era instantâneo condicionar os tais a comunidades pobres no Brasil, África e Índia (e alguns países perseguidos). No auge de nosso orgulho missionário pela janela 10x40, pela Missão Integral e pela Igreja Perseguida, abandonamos os demais locais. Abandonamos nossos bairros, nossas cidades, nossas escolas, nossas locais de trabalho e etc. Abandonamos os locais simples, locais estes sem estereótipos missionários. Abandonamos as várias possibilidades que existiam e extrapolavam nossos discursos missiológicos.

É preciso que se entenda que nem tudo que fazemos é fazer missões, mas é possível (e é necessário) que se faça missões em todos lugares. Inclusive nos lugares que julgamos não haver necessidade. Prioritariamente com as pessoas que acreditamos não precisarem. E, essencialmente com todos que ainda não entenderam o Evangelho, independente de sua condição social, econômica, geográfica e étnica. Que não sejamos orgulhosos ao ponto de achar que o que fazemos é mais importante que o trabalho (missionário) desenvolvido pelo outro, no outro lugar, em outras condições. Missões não se mede pelo grau de dificuldade, nem pela intemperança das adversidades. Que reconheçamos que não somos os únicos que estamos fazendo missões. Há muitos outros que estão com a enxada posta na seara do Senhor. Que não sejamos orgulhosos de achar que somos mais do que realmente somos perante o Carpinteiro. Que não sejamos orgulhosos de achar que somos tão importantes para a Obra que é dEle.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 12 de Fevereiro de 2015

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O que não é fazer missões


“quando prego o evangelho, não posso me orgulhar, pois me é imposta a necessidade de pregar. Ai de mim se não pregar o evangelho!”
1 Coríntios 9:16 (NVI) 

A história eclesiástica brasileira é relativamente recente, por causa da brevidade histórica da nação, pouco mais de 500 anos – período que constitui um pequeno soluço temporal para os padrões históricos. O protestantismo, em solos tupiniquins, é mais recente ainda, pois apesar de haver registro de cultos desde o “descobrimento” do Brasil, as primeiras igrejas evangélicas só se estabeleceram por volta do ano de 1700, sob supervisão dos primeiros missionários carreira, europeus e americanos, que por aqui chegaram – então, isto significa que temos pouco mais de 300 anos de história eclesiástica eurocêntrica-brasiliana. Mais recente ainda é o surgimento de igrejas autóctones, de origens brasileiras, pois o primeiro pastor brasileiro ordenado no Brasil (José Manuel da Conceição) se deu em Dezembro de 1865. Então, só podemos começar a falar de uma Igreja, supostamente brasileira, a partir de uma data provável dos anos de 1900. Portanto, resta-nos algo entorno de 100 anos de história eclesiástica brasileira para pensarmos o enquadramento missiológico desta, sendo que missões só ganhou destaques nos púlpitos tupiniquins por volta da década de 1980, e na maioria dos casos somente após 1990 (tente lembrar do primeiro congresso de missões que você, leitor, participou, arriscarei afirmar de deve ter sido entre as referidas duas décadas). Então, de fato, o envolvimento missiológico dos brasileiros é de no máximo 40 anos – é isto, em nível de história, o que nos resta.

A pouca longevidade missiológica tupiniquim pode ser uma das causas de ainda não termos muito claro o que é, ou não, missões. E para agravar tal cenário, nosso referencial missiológico (europeu e americano) tiveram limitações e desvirtudes gravíssimas, como: a não culturação, ausência de contextualização da mensagem, dependência financeira estrangeira, evangelho tipo importação, música e liturgia desconexa com a realidade, entre outros – é válido ressaltar que tais problemas resumem uma época histórica, que assim como qualquer outro período apresenta deficiências temporais, ou seja, não podemos desmerecer os esforços de outrora. Neste misto de referenciais, o Brasil vem tentando descobrir como fazer missões, e gradativamente deixar de ser campo missionário (não que não haja mais nada a ser feito nos rincões brasileiros, sempre haverá, porém precisamos assumir nossa responsabilidade na Missio Dei). É deste ponto que iniciamos nossa busca do que é fazer missões, e para tanto, faremos o caminho inverso, a pergunta norteadora será: o que não é fazer missões? A proposta é entendermos o que não é com fins a clarificar o que é. O percurso proposto nos ajudará a constituir uma definição mais plausível e coerente.

Não é fazer missões viajar para o exterior. Este é o tipo de missionário que mais temos encontrado pelas igrejas tupiniquins, gente que acha que só pelo fato de ter pisado em solos estrangeiros se tornaram missionários. A concepção é meio mística e instantânea, não interessa o que fora feito, se foi para o exterior, então, é missionário. Este tipo de missionário caiu na graça da igreja brasileira que sempre foi encantada com a desnutrição africana, com a exploração sexual do oriente, com as cicatrizes asiáticas, enfim, com toda sorte de desgraça e mazela cultural. Dai, se este tal missionário passa uns dias no exterior e tira fotos de tais atrocidades pode expô-las nas igrejas brasileiras, seria tipo uma sessão pôster do sofrimento do outro. Detalhe, provavelmente este missionário viajante só tirou as fotos, não se envolveu com os protagonistas das fotos; fica distante, pois para estes o que interessa são as fotos, não o que fora feito; para estes missionários boêmios as fotos são a porta de entrada das ofertas que financiará novas viagem pelo mundo. Precisamos diferenciar uma viagem ao exterior, de uma viagem missionária ao exterior. É preciso diferenciar conhecimento cultural adquirido numa viagem ao exterior, de uma intervenção missionária no campo transcultural. Precisamos diferenciar entre missionários e viajantes.

Não é fazer missões ser filho de missionário. Este é outro tipo de missionário que tem brotado pelos guetos evangelicais brasileiros. Gente que nasce no campo missionário, filhos de missionários de carreira. Entretanto, nascer e conviver com a realidade missiológica não torna alguém missionário, o torna apenas conhecedor da realidade dos missionários. Então, por definição, conhecer é diferente de ser. O fato de ter vivido um tempo no campo missionário não quer dizer que estes entenderam ou se comprometeram com missões, pois muitos (não todos) filhos de missionários só estão interagindo com o campo missionário porque não tem outra opção, quando atingirem a idade suficiente deixaram os pais e se distanciarão do contexto missiológico. Provavelmente, estes filhos de missionários não carregarão o estigma de ser missionário, para estes os fatos estão muito claro, “sou apenas filho do missionário, não sou missionário”. De contrapartida, as igrejas divinizam estes filhos de missionários, pois qualquer pessoa que conheça uma palavra indígena, ou cite algo de arquitetura estrangeira já está habilitado a ensinar. Talvez aqui a intenção seja até boa (insisto, talvez), mas precisamos diferenciar entre ser filho de missionário e ser missionário. É preciso diferenciar o fato de ter convivido com algo por falta de opção, e ter escolhido como modo de vida o campo missionário. Precisamos diferenciar entre conviver com, e ser.

Não é fazer missões participar de projetos missionários de curto prazo. Este é outro tipo de missionário que está a brotar nas igrejas brasilianas. Gente que confunde ter uma experiência missionária com o ser missionário. Os projetos de curto prazo (dias, semanas ou mês – quase sempre nas férias) são extremamente importantes para se iniciar a jornada missionária, serve como um estágio para degustar as vivências missionárias. Os projetos missionários de curto prazo ajudam a despertar igrejas locais para se envolverem com missões, fortalece o interesse de pessoas com o campo missionário, interage e torna dinâmico o Reino, fazendo as pessoas contribuírem, mesmo que temporalmente, com os desafios atuais da missiologia moderna. Entretanto, chamar estes de missionários minimizar a extensão/complexidade da Missio Dei. O preocupante neste tipo de missionário é que podem entender que tudo se resume numas semanas dedicadas a Jesus, e se esquecem de que missões é um pacto de comprometimento de vida, não de dias. É preciso, então, diferenciar entre estágios missionários e os missionários. Precisamos diferenciar entre participar de uma ação missionária, de ser missionário. É necessário diferenciar algo que introduza as pessoas em missões, de uma vida em missões.

Não é fazer missões organizar/realizar/participar de congressos de missões. Este tipo de missionário tem ganhado destaque no cenário nacional, pois missões mais tem se tornado algo a ser assistido do que vivido. Fazer congressos de missões é importante para atualização ministerial, conhecer novos desafios, engajar em novas missões, despertar para novos contextos, enfim, o congresso em si não é o problema. O grande câncer na questão exposta é que vários congresso de missões, ou cultos de missões em igrejas locais, tem se resumido em ouvir e nada se fazer. Os igrejeiros missionários gostam de saber sobre, mas tem dificuldade de interagir/comprometer com as informações expostas. São nestes momentos que me recordo (fato que ainda me incomoda profundamente) de um discurso feito em sala, logo no meu primeiro ano de Seminário Teológico (2000), quando o professor, pastor africano, Menga Maynoma, disse: “você se torna responsável por tudo que escuta”. Precisamos, então, diferenciar entre a sensação de ouvir sobre missões, de ser missionário. Diferenciar entre participar de algo que tem como temática missões, de comprometer-se com missionários (ou ser missionários). É preciso diferenciar entre saber mais de missões, de fazer algo por missões.

Por tudo que fora exposto é razoável ponderar que na breve historicidade eclesiástica-missional brasileira é possível que estejamos denominando de missões algo que não é missões – pelo menos não em sua totalidade. Portanto, para finalizar esta pensata é prudente que tentemos definir o que é fazer missões – digo tentar, pois tal conceito dependerá do referencial temporal, étnico, teológico, histórico e antropológico. Contudo, embasaremos a partir dos seguintes pilares: Missões é o cumprimento integral da chamada de Cristo aos Seus discípulos para serem sal e luz no mundo, de forma prática, interativa, social, intencional e redentora – atitudes que trazem implicação direta na existência dos cristãos. Fazer missões é se comprometer com o Reino, de tal maneira, que não reste espaço para exibicionismos humanos ou supervalorização de alguém em detrimento da calamidade do outro – não precisamos explorar as fragilidades/pobreza dos povos como se nossa missão fosse mais importante que o Carpinteiro. Fazer missões é ir de encontro às pessoas, de qualquer etnia, com o propósito de anunciar o plano de salvação de forma contextualizada e inteligível aos ouvintes. Fazer missões também deve incluir a responsabilidade de sustentar os que estão no campo. Neste caso é preciso mais que saber sobre o missionário, é preciso se comprometer com a manutenção financeira, apoio espiritual, assistência emocional, ajuda na logística e, principalmente, manter comunicação constante com os missionários – este último item fortalece o vínculo e estabelece a continuidade da Igreja de forma fraternal e solidária.

Descubra qual o campo missionário que Deus tem para você e sua igreja no presente tempo histórico. Esteja atento para aderir aos novos desafios missionários do tempo porvir, perceba a mutabilidade das missões e aproveite as oportunidades. Se comprometa em realizar missões a partir do seu contexto local e simultaneamente se envolva com missões a nível transcultural (ou vice-versa, se for o caso). É desta forma que se faz missões: não supervalorizando as necessidades locais e consequentemente ignorando os desafios globais; como também não mistificar exacerbadamente as experiências transculturais e consequentemente desassociar-se das realidades regionais em que se está inserido. Enfim, viaje sempre que puder, mas não rotule tal roteiro de missões se você não for capaz de deixar parte de si neste país, e se tais pessoas não conseguirem significar mais que fotos para você; igualmente, não use a experiência de seus pais (ou tios, avós, amigos) como escudo missional, pois a vivência missionária não é transferível; também não rotule a si mesmo de “O” missionário por ter participado de projetos missionários de curto prazo, há muitas coisas no campo que precisam de tempo para florescer, do mesmo modo que para muitas experiências o tempo é o próprio algoz da história missionária; além disto, não acredite saber (ou fazer) muito de missões por você ser um exímio participante dos congressos de missões, a vivência sempre é diferente dos discursos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 23 de Maio de 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

A elitização dos congressos de missões no Brasil


“...a fim de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros”.
1 Coríntios 12:25 (NVI) 

O discurso missiológico em solos tupiniquins vem sofrendo uma inevitável mutação ideológica, assim como todas as variáveis existenciais do presente tempo. Sendo, portanto, importante se redefinir, de tempo em tempos, o que estamos fazendo e o que estamos falando que estamos fazendo. E deste hiato conceitual sermos sinceros. Reconheço que escrever um texto/artigo sobre a elitização dos congressos de missões no Brasil é entrar em um terreno escorregadio, pois é preciso ter cuidado para não desmerecer os esforços de outrora, bem como não generalizar vagamente uma problemática contemporânea. Contudo, não discursar sobre esta temática é verbalizar um silêncio com tom de consentimento. Portanto, o termo elitização será utilizado neste texto para designar uma exclusão missiológica, intencional ou não, de uma grande maioria de igrejas “pobres” em detrimento do discurso das torres de marfins das igrejas “ricas”. O foco aqui não é a execução de missões em si, mas sim os perigos que estão orbitando na elitização dos congressos de missões. Não será avaliado os projetos, ações e inciativas de missão integral, mas sim o aglomerado discursivo, ou seja, a proposta é olhar para o que virou os eventos de missões nas terras tupiniquins.

Inicialmente é preciso delimitar o que seria uma igreja “pobre” e o que seria uma igreja “rica”, bem como qual seria a relação destas com o discurso de missões. Então, sejamos práticos, igreja “pobre” é aquela que não tem condição financeira de custear os gastos de se trazer um palestrante conhecido nacionalmente ou um missionário do campo transcultural para sua conferência missionária. Isto é bem real para milhares de igrejas no Brasil que mal conseguem pagar aluguel, conta de energia, telefone e água, entre outros gastos. Alguns poderiam ser simplistas e afirmar, é apenas uma questão de prioridade. Não é verdade, é uma questão de sobrevivência/manutenção da igreja – realidade nas periferias das cidades e nos interiores distantes (abandonados). Outro fato que precisa ficar claro neste momento é que não quer dizer que precisemos trazer gente de fora para que o evento de missões seja relevante. De fato! O foco aqui não é a relevância dos congressos, mas sim a falta de acessibilidade/oportunidade aos de igrejas “pobres”. Imagine o quanto seria produtivo, enriquecedor, encorajador, reflexivo, transformador se uma igreja “pobre” da periferia pudesse ter um tempo para aprender com os caciques do nosso tempo (não entenda esta expressão ofensivamente).

Do outro lado da força têm-se as igrejas “ricas” que, seguindo a mesma lógica prática proposta no parágrafo anterior, tem condições de trazer a nata de missões para seus eventos missionários. Então, esperava-se que estes popularizassem o acesso das igrejas “pobres” aos eventos, mas não é isto que acontece, por algumas razões: 1) Cobram muito caro, dai precisamos dimensionar isto, por exemplo, se o evento custa aproximadamente R$ 150 reais por pessoa, levar cinco pessoas da igreja “pobre” já dá mais de um salário mínimo – uma fortuna para o contexto de igrejas “pobres”; 2) Disponibilizam o evento pela internet, julgando ser esta uma iniciativa de acessibilidade a todos, fato inverídico, pois separar geograficamente os que não tem condição de pagar é explicitamente uma ação de exclusão – lembrando que se a igreja é “pobre” provavelmente não terá internet para assistir ao evento; e, 3) Divulgam apenas nas igrejas do mesmo nível financeiro, argumentando não ter contatos dentro das igrejas “pobres”, isto configura problemas graves, sendo que a falta de contato com os “pobres” cristãos não é a causa, é o efeito da elitização, bem como descortina uma real intenção de não levar gente que não sabe se portar num congresso elitizado – é fato latente que nas igrejas “pobres” silêncio não é uma das virtudes.

Ainda é preciso dizer mais sobre os eventos missionários organizados pelas igrejas “ricas”. O fato de se fazer um congresso de missões em um hotel nada popular no que tange a preço só fomenta a elitização. Algo bem perto da crítica que o filme “Amor Sem Fronteiras” (2003, PARAMOUNT PICTURES) propõem quando um grupo de ricos se reúne num baile glamoroso de consciência social, quando são surpreendidos pela invasão de uma criança africana que personifica a realidade, provocando um indigesto confronto: discurso versus realidade. Outro problema que precisa ser destacado é que, para os organizadores dos elitizados congressos de missões, a igreja local deveria pagar para o pastor ou líder de missões participar, algo até regulamentado em alguns denominações por meio do estatuto ou regimento interno. Isto também não resolve o problema, pois o que precisamos é de popularizar missões não concentrar em uma ou duas pessoas (pastor ou líder de missões), é a igreja que precisa se conscientizar, não a elite da igreja. E, mais uma consideração precisa ser feita, acredito (empiricamente) que os atuais cacique de missões não cobram uma fortuna para ministrarem, porém estranhamente, num cálculo simples, de 500 pessoas pagando R$ 150 reais chega-se ao valor de R$ 75.000 reais (setenta e cinco mil reais!!!!!), valor excessivamente alto que, com certeza, cobre as todas despesas (mesmo não sendo necessário os participantes cobri-las, pois lembremos que quem está promovendo o evento é uma igreja “rica”).

O leitor deve estar se perguntando o que, então, poderia ser feito. Aliás, qualquer crítica precisa propor um novo caminho possível (referência ao artigo “Viva os Críticos”, escrito pelo mesmo autor), do contrário é apenas falatório inútil. Por estar razão, nos próximos parágrafos aventurarei propor algumas idéias (umas já praticadas por ai nos rincões brasilianos e outras tantas que beira da utopia – quem sabe, Lars Grael tenha razão quando diz que utopias podem virar sonhos, sonhos podem virar realidade). A primeira proposta é que se tragam, subsidiado pelas “igrejas ricas”, os caciques de missões para palestrarem em congressos de missões nas periferias, em igrejas “pobres” e a partir da realidade local proporem discursos e uma práxis que sejam associadas não a elite, mas as massas evangelicais e seus desafios contemporâneos/contextuais. A idéia aqui é que as igrejas “ricas” cubram os gastos pela capacitação/treinamento missionário das igrejas “pobres”. Afinal, isto por si só já seria de caráter missionário – igrejas que se ajudam mutuamente, não visando seu próprio arraial, mas o Reino. Obviamente que esta proposta está acima da zona de utopias, até porque a riqueza é fruto da não distribuição de renda, ou seja, só se é rico porque não se gasta com, se acumula.  Enquanto as igrejas “ricas” entenderem que mordomia cristã se aplica a gerar conforto para os seus, então, continuaremos a viver num guerra fria entre denominações, o que gera a elitização.

Outro caminho possível é que nestes elitizados congressos de missões se tenha uma isenção das taxas de inscrições para os membros (não só pastores e líderes de missões) de igrejas “pobres”. Alguns poderiam argumentar que é dificílimo definir o que seria uma igreja “pobre”, contudo, como já foi dito anteriormente não é. Uma simples pergunta na ficha de inscrição poderia resolver este problema: “você ou sua igreja local não tem condição de pagar a taxa de inscrição?” abaixo teria a opção para assinalar “sim” ou “não”. Aqui alguns poderiam contra argumentar, como poderíamos acreditar na resposta, será que alguns não iria se aproveitar desta situação? A resposta é SIM! Sempre haverá discípulos de Gerson (referência a Lei de Gerson – levar vantagem em tudo). Entretanto, temos que partir do pressuposto que estamos lidando com cristãos, não com malandros. Se partirmos do pressuposto que os participantes do congresso de missões não são pessoas confiáveis, então não há o que se discursar nestas plenárias. Temos que sempre nos lembrar da história atribuída a Tomás de Aquino quando foi chamado por joviais frades a ir para o pátio do convento para ver uma vaca voando, e após ter sido motivo de rizadas argumentou: prefiro acreditar que vacas possam voar a ter que admitir que um cristão possa mentir.

E por fim, não esgotando as possibilidades de deselitização dos congressos de missões, finalizo propondo que os caciques de missões tenham mais critérios ao aceitar os convites para participar destes eventos. Enquanto, não vermos grandes nomes associados aos pequenos eventos, não teremos condição de mudar tal cenário de elitização. Obviamente que reconheço que muitos dependem financeiramente destas participações, contudo, não acredito que empobrecerá se o tal cacique dispuser algumas datas para imergir na realidade missiológica das igrejas “pobres”. Este tópico não é tão utópico, pois se têm notícias por ai deste tipo de ação de deselitização – claro que são raras, mas são reais. O contexto missionário brasileiro precisa de exemplos, palestrantes/missionários que optem em fazer a deselitização, não apenas discorrer sobre esta como num discurso mitológico. O mundo evangélico tupiniquim está em constante mutação, passando de uma geração para outra, substituído gradativamente seus caciques – processo normal e natural, inevitável e saudável para o Reino. Todavia, é preciso arrazoar sobre qual a herança que a próxima geração terá destes que estão à frente dos congressos de missões no Brasil. É imprescindível que se reavalie os impactos sociais, culturais, teológicos e missiológicos do que está sendo feito hoje para que não culpemos o passado, desassociando as atuais vivências de nós mesmos.

O caminho não é acabar com os grandes congressos de missões, mas sim oportunizar o acesso, real e não discriminatório, de cristãos de igrejas “pobres”, igualmente inverter o processo, termos gente grande (caciques) de missões em congressos de periferias e/ou interiores. Não podemos nos iludir com a folclórica homilia dos ricos que afirmam que precisamos de igrejas “ricas” para ajudar em missões, pois para ser ricos é preciso não distribuir. Além do mais é preciso avaliar não os valores em si, mas sim os percentuais equivalentes. Por exemplo: uma igreja “pobre”, com receita de aproximadamente R$ 2.000 reais que envia R$ 300 reais por mês pro campo equivale a 15% das entradas; de contra partida uma igreja rica com receita aproximada de R$ 150.000 reais que envia R$ 10.000 por mês pro campo equivale a apenas 6 % das entradas. Então, por tudo que fora exposto neste artigo, o leitor pode ter chegado, iludidamente, a conclusão que a solução seja não cobrar pelos congressos de missões. Leto engano! No centro-oeste brasileiro (contexto do autor) é comum encontrarmos excelentes congressos de missões com entrada franca, e estranhamente, ter uns poucos gatos-pingados de gente. Ao que parece já fomos contaminados pelo vírus do capitalismo, ou seja, se o evento não for caro, não deve ser bom. Finalizo, então, temoroso, pois acho que já criamos um monstro chamado “elitização dos congressos de missões”.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 14 de Abril de 2014

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natividade, por uma visão integradora


"A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel que significa ‘Deus conosco’ (...) e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria”.
Mateus 1:23 (NVI), Lucas 2:7 (NVI)

O nascimento de Jesus é celebrado pela sua importância soteriológica (i.e. salvífica). Naquele dia a humanidade descobriu o que significa “Deus amou o mundo de tal maneira” (cf. Jo. 3:16). De agora em diante teríamos um lugar para atracar nossas vidas. Este que nasceu levará sobre si mesmo nossas mais horrendas transgressões, Ele será “moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (cf. Is. 53:5). De agora em diante nossas almas poderiam descansar sob a justiça de Deus. A natividade trouxe mais que uma promessa futura de vida eterna, veio junto da sentença “não temas” (cf. Mt. 1:20). De agora em diante teríamos fé em dias de incertezas. O nascimento de Jesus trouxe Deus para perto de nós, não que Ele outrora estive inacessível, mas agora temos o Emanuel “Deus Conosco” (cf. Mt. 1:23). De agora em diante nunca mais estaríamos sozinhos. A natividade traz consigo todas estas dádivas, é Graça para gente sem graça.

O nascimento de Jesus também descortina outras visões redentoras, como por exemplo, a proposta de nascer numa manjedoura. Ao contrário do que encenamos como algo ruim e depreciativo, o fato de Cristo ter nascido entre os animais foi majestoso. O Deus encarnado escolheu vir ao mundo junto da criação, não apenas dos homens. Ele escolheu nascer num lugar democrático, onde animais e homens celebrassem o Redentor, pois “toda a criação geme” (cf. Rm. 8:22), então, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (cf. II Co. 5:19). O fato de não haver lugar na hospedaria não fora um golpe do destino nos planos de Deus, muito pelo contrário, era a intenção de Deus, demostrando que a criação precisa reconectar-se. Ali, animais e homens entenderiam que “tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor” (cf. Sl. 150:6). Não tinha lugar mais adequado para Ele nascer, a estrebaria seria o símbolo da nossa missão integral.

O nascimento de Jesus continua a fornece uma nova cosmovisão acerca do caráter de Deus e sua relevância integradora para nossas jornadas cristãs. Sendo assim, o Rei escolheu nascer junto à plebe revelando que a grandiosidade do Reino nada tem haver com privilégios exclusivistas exibicionistas. O Grande Eu Sou escolheu vir junto dos camponeses para que entendêssemos que “quem quiser tornar-se importante deverá ser servo” (cf. Mc. 10:43). Neste Reino do Emanuel não haverá lugar para diferenciação de classes sociais, somos uma irmandade. Não pode haver maiores. Não pode haver títulos. Não pode haver privilegiados. Não pode haver acumulo de riqueza. Não pode haver necessitados. Não pode haver desigualdade. O Rei deu-nos o exemplo a ser seguido e assim “olhando para Jesus, autor e consumador da fé” (cf. Hb. 12:2) podemos redescobrir nossa missão junto aos desafortunados, demonstrando que a Graça não é apenas um discurso natalino, mas é o marco regulador da nossa fé.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 24 de Dezembro de 2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O pecado que move o Reino

 mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloqüente nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus.
Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado.

1 Coríntios 2:1-2

"Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloqüente nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado".
1 Coríntios 2:1-2 (NVI)

A crescente explosão da Igreja Evangélica no Brasil e no mundo promove inconscientemente uma crise de definições sem precedentes. As perspectivas religiosas e teológicas da atualidade confrontam posições ortodoxias da Eclésia. A raquítica educação cristã e a incompatibilidade global forçam lideres religiosos a buscarem suas identidades num mudo tão igual. 

A Igreja é a personificação de Cristo eternizada em seus representantes humanos (igreja visível), constituída numa rocha identificada como o próprio Jesus, que historicamente efetuou sua obra soteriológica através da morte na cruz. Contudo, é necessário lembrar que ser cristão é ser Igreja, edificado e fundamentado exclusivamente nos ensinos do Carpinteiro Jesus. 

O fato de a Igreja ser a representante de Cristo Jesus promove a extensão da obra expiatória de Cristo. Portanto, tornando a salvação acessível aos homens por meio do sacrifício no Gólgota. Entretanto, a falta de posicionamento sobre o quê e como se processa a salvação tem colidido substancialmente com a própria definição de Igreja, pois teologicamente ambas as definições caminham de mãos dadas.

O entendimento teológico de salvação perscruta os caminhos missiologicos, partindo de uma perspectiva holística do homem. A morte salvífica de Cristo na cruz do Calvário abrange redenção, regeneração, justificação e santificação. Portanto, a Igreja como representante do Reino de Deus tem a responsabilidade de proporcionar, nas mais diversas manifestações, o acolhimento e solidificação da fé desde o mais miserável dos homens como também nas mais privilegiadas classes sociais. Entretanto, a salvação esbarra na historicidade do pecado, pois os pré-requisitos para salvação são fé, arrependimento e confissão.

O pecado é toda ação e pensamento que desobedece a vontade de Deus e Seus princípios documentados na Bíblia. A exemplo disto temos a queda do homem, em Gênesis 2, onde Adão e Eva após terem desobedecido uma ordem direta de Deus, sentiram desconforto frente ao Criador, por causa de uma barreira teologicamente denominada de pecado.

A partir da realidade pecaminosa da humanidade caída, a missão da Igreja é ser o reflexo exato do projeto regenerativo da criação previsto por Deus, confirmado em Jesus Cristo e expandido aos cristãos. Por isto, a narrativa histórica da Igreja continua sendo escrita nos corações humanos. 

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br 
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Artigo escrito em: 15 de Dezembro de 2005