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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Brasil, a Roma dos evangélicos


"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo".
Colossenses 2:8 (NVI) 

[acréscimo de 2015] Este artigo fora escrito em 15 de Abril de 2010, na época fora publicado em outras mídias institucionais. Contudo, passados mais de cinco anos (2015) e por perceber que o referido texto ainda consegue ser contemporâneo frente aos desafios da cristandade tupiniquim, então, optei em (re)posta-lo, na integra, no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013), mesmo com o evidente distanciamento dos eventos citados no artigo. Abaixo o texto no original (2010), como se segue:

O Império Romano foi um dos mais notáveis governos que o mundo já conheceu. Entre os diversos feitos, notáveis e deploráveis, há um em especial que fez de Roma um referencial no que tange a relação povo-poder, foi a famosíssima e controversa política social denominada de “panem et circenses, isto é, Pão e Circo. Basicamente a proposta era distrair as massas com os espetáculos sangrentos dos gladiadores e simultaneamente distribuir pão para os presentes nas arenas de Roma. Tal política não seria tão maquiavélica se de fato não encobrisse os problemas de Império em crise. A política do Pão e Circo surgiu quando o imperador percebeu que estava havendo uma migração dos camponeses para o centro urbano, porém não havia condições adequadas para atender as necessidades básicas desta tão grande massa, o que poderia ocasionar revoltas, reivindicações e rebeliões por todo o Império. Então, para encobrir tamanha incapacidade resolveu-se distrair a multidão (luta dos gladiadores) e aplicar medidas paliativas (distribuição de pão). Desta maneira o povo esquecia que viviam num Império em decadência e as massas ovacionavam os desonestos imperadores.

Deste os tempos de Roma até a contemporaneidade a política social do Pão e Circo nunca mais deixou de ser praticado pelos governos – afinal, é uma estratégia eficaz aos interesses dos poderosos, pois encanta o povo, desvia o foco das reais necessidades das massas e ofusca a calamidade existencial. Entretanto, mui estranho e, demasiadamente assombroso, foi perceber que a religiosidade neopentecostal brasileira está valendo desta artimanha para fascinar as massas evangelicais. O Pão e Circo Evangélico é mais maléfico que o praticado por Roma, pois os “imperadores evangélicos”, a semelhança dos fariseus bíblicos, estão conduzindo as pessoas há um cristianismo raquítico e artificial – “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” – Mt. 23:13. Portanto, como completa Philip Yancey: “A igreja existe, não para oferecer entreterimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso, a igreja fracassa”[1].

O cenário evangélico brasileiro tem sido marcado pelo suposto crescimento das igrejas e pelos constantes mega shows gospel. Há um em especial que merece destaque nas linhas que se seguem: “O Dia D – é hora da Decisão”, que acontecerá no dia 21 de Abril do corrente ano nas principais cidades do Brasil. Para as massas este é mais um mega show para glorificar a Deus, vislumbrar uma série de incontáveis milagres e um oportuno momento para ouvir música gospel de ótima qualidade, de grátis – já que atualmente na maioria dos demais eventos do gênero os preços de ingressos são altíssimos. Tudo isto é muito fascinante, imponente e espirituoso. Contudo, ao contrário daqueles que vão se juntar a multidão no “Coliseu da Fé” no dia 21 Abril, há alguns cristãos pensantes que não são facilmente encantados pela grandiosidade. Este será um típico Pão e Circo Evangélico, haverá luta entre homens e demônios, muita euforia musical e alimento “espiritual” para aqueles que se satisfaz com qualquer coisa.

O dia 21 de Abril será um Pão e Circo Evangélico pelas seguintes razões: 1) Quem está organizando o evento é Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), instituição que na pessoa de seu líder e outros bispos estão sendo alvo de diversas investigações criminosas – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para conseguir aliados contra a TV Globo e afirmar que tudo que está acontecendo é fruto de perseguição aos evangélicos; 2) A IURD sempre foi mal vista pela cristandade brasileira devido a liturgia nada convencional e pelas técnicas abusivas de coleta de dinheiro – então, o “Dia D” é uma excelente oportunidade para tornar as heresias mais comum ao povo, o que culminará gradativamente num sentimento de aceitação; 3) A IURD nunca foi uma igreja que primasse pela Palavra, sempre foi conhecida pelos milagres, porém nos últimos anos tem perdido este filão de mercado para outra igreja que é idêntica, a Igreja Mundial no Poder de Deus – então, o “Dia D” é uma grandiosa oportunidade para reconquistar a paixão dos crentes cambaleantes que foram hipnotizando pela Igreja Mundial e outra vez igualmente resumir a fé em milagres.

Há mais algumas razões que não podem ficar camufladas: 4) A IURD com este evento nacional está tentando desviar o foco das acusações e processos criminais entretendo o povo – então, o “Dia D” é uma oportunidade ímpar para fascinar com a grandeza do evento as cegas massas evangélicas brasileiras; 5) A IURD sabe que infelizmente as massas evangelicais respeitam uma igreja não pelo caráter cristão mais sim pelo sucesso de público (numerolatria) – então, o “Dia D” é a oportunidade perfeita para reunir centenas de milhares de pessoas e assim mostrar para a mídia que a IURD é forte, paralelamente mostrar para os pastores de outros ministérios que é mais inteligente se juntar a eles que se oporem; 6) A IURD sabe que há muitos líderes que fazem qualquer coisa para aumentar o rebanho – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para, disfarçado de manifestação cristã de unidade, conseguir alguns membros para as igrejinhas locais, assim os líderes destes ministérios serão eternamente cúmplice deste Pão e Circo Evangélico; e, 7) A IURD não está fazendo este evento para promover a evangelização, pois a divulgação tem sido numa linguagem tipicamente evangélica, com “artistas” evangélicos – então, o “Dia D” é uma oportunidade para bradar em alto som a adoração extravagante, declarar no reino espiritual e fazer inúmeros atos proféticos positivistas, afinal é disto que o povo crente gosta.

Enfim, definitivamente o Brasil é a Roma dos Evangélicos. Somente em terras tupiniquins o “Coliseu da Fé” reacende suas chamas e outra vez se torna o centro da vida religiosa das massas. Ali, debaixo da euforia do povo acontece a morte da razão, o suicídio do bom senso e o exaltação dos imperadores. Na arena deste vergonhoso Pão e Circo se esconde a igreja brasileira que finge não ser doente espiritualmente, fraca socialmente, despreparada teologicamente e imatura biblicamente. Por tudo isto o dia 21 de Abril será de fato o “dia D – é hora da Decisão” – Decisão de não participar deste pelourinho evangélico; Decisão de não ir para esta arena circense; Decisão de não se juntar a estes gladiadores da fé; Decisão de não celebrar estes imperadores eclesiásticos; Decisão de não aplaudir a morte do cristianismo. Por fim é valido endossar as palavras de Ricardo Gondim: “Aconselho que os crentes parem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre Cd de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - idem, para os meus. Depois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam. Não vá a congressos - inclusive o que eu promovo. Passe ao largo dos ‘louvorzões’...”[2].

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Abril de 2010



[1] Philip YANCEY, Igreja, Por Que me Importar?, p. 25.
[2] Perícope retirada do artigo de autoria do Ricardo Gondim, intitulado: “CONSELHOS PARA SOBREVIVER AO MUNDO GOSPEL”, disponível no site: www.ricardogondim.com.br

domingo, 12 de abril de 2015

A quem tentamos enganar


“Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá”.
Gálatas 6:7 (NVI)

Tentamos enganar aqueles que sabemos que será enganado! Nossa vil natureza humana sabe trilhar na subjetividade da existência do outro, por esta razão ao intentar enganar os desatentos viajantes viramos os nossos olhos perversos sobre as frágeis vidas daqueles que facilmente se engabelarão no laço do passarinheiro. Engana-se a outrem, pois sabe-se que é possível enganar – esta é uma arte conceituadíssima e altamente admirada. É possível seduzir os errantes artistas da vida que ficam a contemplar as belezas da jornada. E estranhamente, é possível, e até mais fácil, ludibriar aqueles que tentam não ser enganados pelo “efeito manada”, isto é, aqueles que se acham inteligentes. Sendo assim, a melhor enganação é aquela que se apercebe sendo contra todo sistema, mas ironicamente, se enjaula nas cadeias dos trapaceiros intelectuais, que perversamente estão a enganar.

Tentamos enganar aqueles que querem ser enganados! A historicidade dos homo sapiens se desnuda altamente dialética, pois quase sempre o que dizemos não querer é exatamente o que queremos. Igualmente, nossas radicais defesas morais são na verdade fragilidades de caráter que queremos transparecer aos que sabemos querem ser enganados. Afirmar que alguém quer ser enganado parece ultrajante, mas na verdade é “libertador”. Até porque no mais absoluto fracasso, então, teremos a consciência limpa de que fizemos apenas aquilo que se esperava de nós. Sempre haverá pessoas malandras o suficiente para fingirem que não querem ser enganadas – na arte de enganar o primeiro passo é sempre da vítima que intencionalmente se prontifica a entrar no pelotão de fuzilamento como herói. Isto é necessário, pois para se enganar bem é preciso parecer que não se está enganando.

Tentamos enganar aqueles que são nossos amigos! Não é possível enganar a distância, é necessário proximidade. Para se enganar é preciso cativar, cultivar, sorrir – carece de ser amigo. A celebração do ato de enganar encontra no palco da amizade o cenário ideal para encenar o glorioso ato maior do teatro da vida: enganar com plateia. Isto não quer dizer que toda forma de amizade é intencionalmente manipuladora, porém é sensato ponderar que sendo “amigo” a enganação é mais facilmente impregnada, sem grandes contestações e com relativa satisfação. Amigos são confidentes, o que fornece ao amigo-inimigo todas as informações necessárias para criar os estratagemas manipulativos. Para enganar, sem ser percebido como enganador, é imprescindível amigar-se com.

Tentamos enganar aqueles que são superiores a nós! Enganar um subordinado não tem tanta relevância e beira a ignomínia, pois afinal engana-se para ser promovido, destacado, valorizado, aplaudido, admirado e elogiado. Por esta razão os mestres enganadores sempre se trejeitam de diversos personagens que se amoldam as corruptas intenções de elogiar os superiores com fins a serem promovidos. Para se enganar com precisão é imperativo que haja elogios frequentes aos caciques da tribo dos enganadores. Elogiar publicamente, exaustivamente e solenemente faz com que a enganação seja travestida de cordialidade, amizade, consideração, respeito, entre outros distintivos honrosos. Por esta razão engana-se, pois há distinção entre nós, dai precisamos de “pessoas modelos” – gente capaz de enganar e, ainda sim, ser admirada. Engana-se para parecer ser bom e ser engrandecido perante as mentes fracas dos que desejam cargos e títulos, ainda que estes mesmos jurem não gostar das ovações, sem nunca as dispensarem.

Tentamos enganar.... porque é isto quem somos! Não são os outros quem enganam, como se o estigma de enganação fosse uma mancha a ser detectada apenas nos outros, sendo um tipo de patologia diagnosticável apenas em terceiros. Lego engano de gente que vive a enganar-se... se há enganação, ali estamos nós... coparticipando, fomentando, instigando, fingindo, encenando e essencialmente enganando-se. Desde o jardim do Éden até a contemporaneidade somos (e queremos ser) seduzidos pela enganação do que somos. Na contemporaneidade atingimos um nível grandioso de normalização da enganação ao ponto de tal adjetivo ser parte estruturante de nossas vidas. Enganamos porque somos homens, por causa dos homens, para sermos homens (não gênero, mas sim humanidade). Enganamos a nós mesmos para que nos esqueçamos de nossa herança divina.

Tentamos enganar... porque sabemos que não enganaremos a Deus, mas... alguém precisa ser enganado, então! Ao longo da narrativa bíblica percebe-se Deus insistindo por meio dos diálogos que Ele não é homem (cf. Nm 23:19; I Sm 16:7). E por mais que sejamos criados a imagem e semelhança dEle, habita em nós, especialmente após o Jardim do Éden, uma deformidade chamada “enganador” (impostor, como gostava nomear Brennan Manning). Sabemos (?) que Deus nunca será iludido com nossas sutilizas enganadoras, pois Ele nos conhece melhor do que a nós mesmos (cf. Sl. 139) e não é possível zombar dEle com nossas disfarçadas dissimulações (cf. Gl. 6:7). Enfim, Deus está fora da nossa lista de enganados (em tese, tão somente em tese). Por esta razão, só nos resta enganador a todos outros, tantos quantos forem possíveis.

Tentamos enganar.... e é isto que denuncia o quanto estamos distantes do novo nascimento! É possível (e bem provável) sermos exímios lideres religiosos sem nunca termos encontrado o Salvador – aliás, ao que parece, quanto mais distante se está de Deus, mas as massas tendem a coroar os tais como lideres. É possível (e bem provável) sermos referenciais em nossas comunidades locais sem nunca termos abandonado o velho homem – aliás, ao que parece, isto até parece tornar o evangelho (não o Evangelho) mais acessível. É possível (e bem provável) sermos tão enganadores ao ponto de criarmos uma nova religiosidade onde Deus se torna um objeto de consumo complacente com a nossa miserabilidade – aliás, ao que parece, uma religião sem Deus, em nome de Deus, tem maior credibilidade frente a esta sociedade que insiste em se esconder de Deus.

Tentamos enganar... sim, sempre tentamos.... e não poucas vezes conseguimos de fato. Às vezes dá até a impressão, não fosse biblicamente impossível (e é necessário ratificar ser impossível – tudo é apenas ilusão de gente que já se acostumou a enganar), que enganamos o próprio Deus. Nesta enganação, engenhosamente arquitetada com tons de espiritualidade revigorante, tem-se a sensação (e somente a sensação enganosa) de que Deus ficou a gangorrear entre o esperto e o bobo descrito por Clarice Lispector no poema “das vantagens de ser bobo”. Desta forma se atingi o estágio de completa putrefação existencial que é enganar-se tanto ao ponto de acreditar ser possível enganar a Deus. Nestes dias tenho a certeza axiomática que o Carpinteiro fica a se perguntar: a quem estes homens tentam enganar?

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 10 de Abril de 2015

terça-feira, 31 de março de 2015

Entre Babilônia, Duas Caras e as mesmas manipulações


“O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro”.
Efésios 4:14 (NVI)

[acréscimo de 2015] A história se repete, infelizmente, para nossa tristeza (contrapondo o saudoso “para nossa alegria” – interpretação inusitada de Jeferson e Suellen). E diferentemente do clichê popular “mudasse os tamanduás, mas as formigas são as mesmas” – ou vice versa, desta vez os tamanduás e as formigas são as mesmas, porém com um delay de sete anos (2008, novela Duas Caras – 2015, novela Babilônia, ambas da Rede Globo). Mais uma vez os evangélicos são feitos massa de manobra pela demonizante Globo e mais ainda pela espiritualizante Record. Por esta razão, optei por reproduzir nas páginas que se segue um artigo de outrora (2008) intitulado “O Evangelho Duas Cara da Record”. Na época não tinha BLOG, por esta razão somente agora, por ocasião da efervescência religiosa babilônica, optei por posta-lo integralmente no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013). Conforme se segue:

Há muitos anos o homem descobriu como valer-se da religiosidade das massas em prol do enriquecimento ilícito e individualista. Infelizmente, o ser humano encontrou na fé um caminho para manipular as mentes supersticiosas de uma sociedade religiosamente instável. Criou-se uma crença cega, muda, surda e irracional, depositando a esperança em homens que se revestem de uma capa de autoridade humana e que abafam o silêncio dos humildes com gritos de superioridade espiritual. Percebe-se notoriamente que a figura do simples Carpinteiro como modelo de fé cristã foi substituída pelo glamour dos filhos de Deus que preferem serem erguidos e estampados em outdoors do que se contentar em viver nas sombras da cruz de Cristo.

A religião se tornou a bandeira de guerra no comércio, na política, na família e atualmente (em verdade há muitos anos) se tornou o mais novo trunfo da mídia televisiva. Protagonizando esta vexatória Jihad Gospel (“guerra santa”) encontra-se de um lado a Rede Globo que tenta atingir a Rede Record expondo as infantilidades e extremismos dos evangélicos numa novela intitulada “Duas Caras”. Do outro lado a Rede Record que por sua vez não perdeu tempo e rapidamente elaborou uma tendenciosa reportagem exibida no programa “Domingo Espetacular” do dia 16 de março de 2008. Por detrás desta corrida (guerra) pelo Ibope escondem-se duas maquiavélicas estratégias de luta pelo poder televisivo brasileiro.

A primeira estratégia emana da Rede Globo que tenta ridicularizar os evangélicos por meio da telenovela “Duas Caras”. A lógica aqui é muito simples, pois pelo fato de o dono da Rede Record ser, supostamente, um pastor evangélico tenta-se desmoralizar a crença religiosa do Edir Macedo tendo em vista, paralelamente, desmoralizar a Rede Record. Observa-se que a origem e o núcleo do conflito não é, necessariamente, ridicularizar os evangélicos, mas sim uma jogada estratégica que intencionalmente tenta forçar a opinião pública contra “o bispo”, sua crença, seus valores e seu método religioso que ainda estão camuflados pelo crescimento da Rede Record. O que se lamenta na presente jogada de marketing da Rede Globo é que a religião (e neste momento pouco importa qual religião seja) se tornou o centro deste showzinho antiético sendo, portanto, submetido a um mero meio de manipulação dos telespectadores em detrimento das aspirações dos abutres do capitalismo.

A sutil diferença entre perceber que a Rede Globo não está, em tese, desmoralizando os evangélicos, mas sim desmoralizando uma pessoa (Edir Macedo) e uma emissora concorrente (Rede Record) é o que faz toda a diferença na hora das críticas. Infelizmente, as massas não pensam, especialmente se as referidas massas foram de cunho religioso. Daí é muito mais fácil rotular a Rede Globo como uma emissora anti-evangélica do que encarar os fatos de que nesta luta não há nada de religiosidade, apenas uma luta estritamente humana e midiática. O que se percebe, como espectador da vida religiosa e social, é que os líderes evangélicos estão (conscientes ou não) criando um dualismo como se existisse uma luta espiritual entre a rede Globo (sendo do “diabo”) e a Rede Record (sendo de “Deus”). Contudo, ratifica-se, que nesta guerra da mídia não há nada de religiosidade, apenas aspirações capitalista. O que novamente faz-se merecer o registro de lamento e tristeza ao perceber que a religião está sendo “usada” (abusada) por ambas as partes.

A segunda estratégia emana da Rede Record que tenta manipular a opinião pública dos evangélicos no Brasil usando argumentos nada confiáveis para disseminar uma inquisição e uma “caça as bruxas” contra a Rede Globo. Aqui a lógica não é tão simples, pois há pouco tempo atrás a Igreja Universal do Reino de Deus – IURD (igreja liderada pelo dono da Record) não era bem vista pelos próprios evangélicos, não sendo necessário nem mencionar a imagem negativa que a IURD conquistou perante os adeptos de outras religiões. Agora com uma emissora mais forte no cenário nacional, Edir Macedo está tentando conquistar primeiramente a confiança dos evangélicos, o que tem conseguido muito facilmente. Infelizmente tem sido fácil corromper os fracos lideres evangélicos (que não são todos, apenas uma grande maioria) que negociam a fé desde que tenham uma boa “fatia do bolo” com cobertura de fama, recheado de dinheiro e enfeitado de poder.

O que causa espanto e que promove grande surpresa ao assistir o programa “Domingo Espetacular” apresentado no dia 16 de Março de 2008 é ver que não houve ninguém da IURD se pronunciando contra as cenas da novela “Duas Caras”. Tal atitude mascara uma intenção questionável, pois assim ninguém pensaria que era apenas a IURD (leia-se Rede Record) que estava se levantando contra a Rede Globo, o que produziria um efeito cascata nas demais denominações evangélicas. Ainda no mesmo programa exibido na Rede Record percebe-se algo mais assombroso que foi assistir o discurso de pastores de igreja comprometidas com o evangelho e que aparentemente tem um alto grau de fundamentação de fé serem literalmente “usados” como “pombos correios” da IURD, visando somente desmoralizar a Rede Globo. Esta intenção fica clara quando se assiste a reportagem da Record e percebe-se que foi citado cinco vezes o nome “Rede Globo”, totalizando uma média de uma citação a cada um minuto e meio de reportagem.

O “bispo” Edir Macedo usou da religião para construir a Rede Record e agora quer usar as outras denominações evangélicas como trampolim para chegar ao topo. Não será de admirar se daqui alguns anos a IURD (ou Rede Record) eleger um presidente do Brasil. Entretanto, neste fatídico dia será então celebrado o velório do sistema religioso dos evangélicos no Brasil. A triste possibilidade de os adeptos da IURD serem manipulados é até entendível, porém não deve ser aceitável. Contudo, assistir uma emissora manipular a opinião evangélica brasileira é vergonhoso e revoltante. Existem vários inquietantes pontos de interrogação na frente e atrás da história da IURD e conseqüentemente da história da Rede Record.

As práticas religiosas da IURD sempre foram muito questionadas nos seios da igreja evangélica exatamente por extrapolarem de forma significativa o que convencionalmente e biblicamente se julga ser cristão. Há IURD foi e é muito criticada por valer-se de uma hermenêutica (isto é, interpretação bíblica) um tanto quanto confusa e descontextualizada. Os rituais da IURD explícitos nos programas de televisão sempre ganharam apelidos nada evangélicos como, “boacumba” (um neologismo que faz menção a “macumba”). Em outras palavras, antes da Rede Record ser o que ela é hoje uma grande maioria dos evangélicos não gostavam de ser comparados com os seguidores da IURD. Por isto e muito mais que ainda não foi descoberto, devesse tomar cuidado com o evangelho “duas caras” da Rede Record.

Enfim, a Rede Globo errou, pois não se usa a religião para “agredir” outros concorrentes de mercado. A Rede Record errou, pois tem manipulado a religião (leia-se evangélicos) para derrubar sua principal rival (isto é, Rede Globo). Os líderes evangélicos erraram, pois estão compactuando desta chacina espiritual, onde não há “mocinhos”, apenas “bandidos”. As massas evangélicas erraram, pois não pensaram criticamente antes de aderirem a uma guerra maquiada em religiosidade, mas que em sua essência é corrupta e maléfica a toda e qualquer manifestação religiosa. Enquanto este jogo de “duas caras” continuar acontecendo, todos serão prejudicados, pois sendo assim perdem o respeito, abafam os ideais, arruínam fé e se constroem uma religiosidade não cognitiva e impraticável.

[acréscimo de 2015] Por tudo que fora exposto e por um senso de dignidade protestante que ainda ousa permanecer em meu coração (e de tantos outros) reafirmo que não devemos assistir a novela Babilônia (Globo), e igualmente, é imperativo não assistir a novela “Os Dez Mandamentos” (Record) - ambas são construções intencionais de manipulação dos não-cristãos e principalmente dos cristãos. Reafirmo que precisamos de uma cristandade racional, crítica, evangélica e bíblica que não se silencia frente às malandragens do Edir Macedo e que igualmente não se encanta com as sutilezas culturais advindas dos descendentes do Roberto Marinho. Reafirmo que é possível encontrar o Cristianismo longe da suntuosidade da IURD e do poder dos grupos majoritários da Globo.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Maio de 2008