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sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Os Dez Mandamentos" e o oportunismo gospel


"Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda".
2 Pedro 2:2,3 (NVI)

O Brasil, especialmente nestes últimos anos, vem sendo arrebatado por uma corrente de oportunismo evangelical. Na crista da onda, desde sempre (exagero necessário de um imediatista moderno), está a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), na figura excêntrica de seu líder Edir Macedo (fundador extremista da referida seita anti-cristã). Neste viés, como resultado de uma série de más intenções e maus resultados, a IURD vem emporcalhando e “emburrecendo” a Igreja Evangélica Brasileira. Para tanto, como que num apogeu de toda putrefação gospel, gravou recentemente a telenovela “Os Dez Mandamentos”, que recém se tornou em longa metragem. Então, o que pretendo me atrever é fazer alguns desconfortáveis comentários sobre a repercussão deste atual remake sweeded da IURD/Record, que foi uma tentativa fútil de ser como foi o grande sucesso da década 1950, The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos), com Charlton Heston interpretando Moisés.

Reitero que a critica que se segue é sobre a repercussão do recém lançado “Os Dez Mandamentos”, produzido pela tendenciosa mídia da IURD, então, a critica que se segue não é necessariamente sobre o conteúdo do filme. Isto não quer dizer que a história narrada no filme esteja imune de observações, muito pelo contrário, são tantas desconstruções bíblicas que daria pra escrever inúmeros textos, livros, dissertações e teses, seria até oportuno a hipérbole: não caberia em todos os livros do mudo. Por esta razão, me centrarei apenas na repercussão do filme, por entender que é muita besteira num momento histórico só para que caibam nas condensadas páginas que se seguem.


A primeira falácia é achar que o filme “Os Dez Mandamentos” é uma reconstrução da história bíblica. Ledo engano. A semelhança do recém “Noé” (2014), do novíssimo “Êxodo” (2014) e do não tão novo “Príncipe do Egito” (1998), todos estão inseridos numa proposta de ficção cientifica supostamente, e duvidosamente, embasados nas histórias bíblicas. Repito, supostamente embasados, ou seja, os referidos filmes não tem a intenção de serem fidedignos aos relatos bíblicos, como os próprios produtores insistem em afirmar. Contudo, estranhamente, os crentes tupiniquins assistem tais películas como se estivessem revivendo os relatos bíblicos. Isto demostra, muito claramente, que os tais crentes não entendem nada de bíblia. Por isto, qualquer produção cinematográfica tem ares de veracidade para estes, se tornando vulneráveis as aberrações, heresias e doutrinas de demônios (cf. I Tm 4:1). Então, quando alguém diz assistir os “Os Dez Mandamentos” porque é um filme bíblico, este precisa é ler a bíblia, pois não compreendeu nada do relato bíblico.


O segundo engodo vem da essência de ser IURD, que se personifica no suposto sucesso nas vendas de ingresso para os “Os Dez Mandamentos”. A Record/IURD, epicentro de toda desconstrução cristã moderna, insiste que este foi o filme brasileiro com maior bilheteria, depois mudam um pouco as falas para não soar tão mentiroso (como se pudesse fugir de seu próprio caráter), dai dizem: ser o filme mais assistido no Brasil. Para o telespectador desapercebido pode até dar um tom de demonstração do poder de Deus, pois afinal um filme bíblico (supostamente) ter tamanho destaque só pode ser obra de Deus, só que não. A IURD tem distribuído gratuitamente os ingressos para assistirem a aberração “Os Dez Mandamentos”, isto eles não divulgam na mídia. E outra informação que eles não divulgam é que o suposto sucesso do filme é o sucesso da telenovela da Record sobre a concorrente, a rede Globo. Ou seja, tudo não passa de um jogo de manipulação, típico da IURD e do fanfarrão Edir Macedo, para atrair mais audiência.


A terceira dissimulação é achar que é melhor algo meio torto falar de Deus do que não falar de Deus. Lego engano. Nada é mais corrosivo a verdade do que a mentira com tons de verdade. E é sempre válido lembrar que uma vez ensinado/aprendido errado, para desconstruir tal compreensão errônea é muito mais difícil. Por isto, arrisco dizer que a película recente “Os Dez Mandamentos” não contribuiu para a Igreja Evangélica Brasileira, muito pelo contrário prejudicou, pois ensinou errado. Ainda há de se destacar que o símbolo imagem fica mais gravado na memória do que a leitura, então, é provável que os crentes, discípulos da IURD, ao se lembrarem da história de Moisés se lembrarão do filme, não do texto bíblico. Ou seja, a bíblica perde autoridade e referência, se tornando secundária. Por isto, não é tão incomum ouvir nos púlpitos os pregadores relatando a história de Moisés distante dos relatos bíblicos, pois estes fixaram na mente o filme, não a leitura.


A quarta e última consideração é uma insistência já dada em outros textos de minha autoria (“Um menino chamado Edir Macedo”; “Entre Babilônia, Duas Caras e as mesmas manipulações”; e, “Brasil, a Roma dos evangélicos”). A questão é muito simples: por que a Record/IURD, sendo notoriamente anti-cristã, insiste em produzir coisas do gênero gospel? A resposta é mais simples ainda: pois enganar crente sempre foi mais fácil que enganar quem não é crente. Ser crente nesta contemporaneidade, quase sempre, está atrelado à autoridade e submissão, especialmente nas igrejas de linha neopentecostal. Desta forma é fácil induzir votos eleitorais, forçar doações financeiras desmedidas, esfacelar a vida das pessoas em prol de uma instituição e etc. A IURD/Record sabe que o crente tupiniquim julga que ter fé significa ser obediente a lideranças humanas, então, nesta jihad gospel, o mais forte tem evidência e reverência dos demais. Eis porque a IURD quer ser tão grande, pois precisa se impor sobre os frágeis corações de pastores e igrejas de médio e pequeno porte.


Minhas considerações finais são bandeiras que ainda insisto em tremular: 1) O filme “Os Dez Mandamentos” não é, sob nenhum aspecto, um filme bíblico; 2) O filme “Os Dez Mandamentos” é apenas uma jogada de marketing da Record/IURD para enganar os crentes de plantão; 3) A IURD não é uma igreja evangélica, ela é uma seita herética anti-cristã, corrosiva ao cristianismo bíblico; 4) O Edir Macedo, na representação do personagem de pastor, é uma vergonha para a Igreja Evangélica Brasileira, pois manipula intencionalmente a fé das pessoas; 5) A razão de Deus deixar a IURD e o Edir Macedo ter suposto sucesso é porque estes funcionam como contra peso para medir o coração de outros pastores igualmente corruptos que querem ter sucesso a qualquer custo; e, 6) Que Deus tenha misericórdia do circo que virou a Igreja Evangélica Brasileira e nos dê esperança após o califado da IURD.


Fortalecido pela cruz de Cristo,

Vinicius Seabra
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Artigo escrito em: 05 de Abril de 2016

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Brasil, a Roma dos evangélicos


"Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo".
Colossenses 2:8 (NVI) 

[acréscimo de 2015] Este artigo fora escrito em 15 de Abril de 2010, na época fora publicado em outras mídias institucionais. Contudo, passados mais de cinco anos (2015) e por perceber que o referido texto ainda consegue ser contemporâneo frente aos desafios da cristandade tupiniquim, então, optei em (re)posta-lo, na integra, no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013), mesmo com o evidente distanciamento dos eventos citados no artigo. Abaixo o texto no original (2010), como se segue:

O Império Romano foi um dos mais notáveis governos que o mundo já conheceu. Entre os diversos feitos, notáveis e deploráveis, há um em especial que fez de Roma um referencial no que tange a relação povo-poder, foi a famosíssima e controversa política social denominada de “panem et circenses, isto é, Pão e Circo. Basicamente a proposta era distrair as massas com os espetáculos sangrentos dos gladiadores e simultaneamente distribuir pão para os presentes nas arenas de Roma. Tal política não seria tão maquiavélica se de fato não encobrisse os problemas de Império em crise. A política do Pão e Circo surgiu quando o imperador percebeu que estava havendo uma migração dos camponeses para o centro urbano, porém não havia condições adequadas para atender as necessidades básicas desta tão grande massa, o que poderia ocasionar revoltas, reivindicações e rebeliões por todo o Império. Então, para encobrir tamanha incapacidade resolveu-se distrair a multidão (luta dos gladiadores) e aplicar medidas paliativas (distribuição de pão). Desta maneira o povo esquecia que viviam num Império em decadência e as massas ovacionavam os desonestos imperadores.

Deste os tempos de Roma até a contemporaneidade a política social do Pão e Circo nunca mais deixou de ser praticado pelos governos – afinal, é uma estratégia eficaz aos interesses dos poderosos, pois encanta o povo, desvia o foco das reais necessidades das massas e ofusca a calamidade existencial. Entretanto, mui estranho e, demasiadamente assombroso, foi perceber que a religiosidade neopentecostal brasileira está valendo desta artimanha para fascinar as massas evangelicais. O Pão e Circo Evangélico é mais maléfico que o praticado por Roma, pois os “imperadores evangélicos”, a semelhança dos fariseus bíblicos, estão conduzindo as pessoas há um cristianismo raquítico e artificial – “Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” – Mt. 23:13. Portanto, como completa Philip Yancey: “A igreja existe, não para oferecer entreterimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso, a igreja fracassa”[1].

O cenário evangélico brasileiro tem sido marcado pelo suposto crescimento das igrejas e pelos constantes mega shows gospel. Há um em especial que merece destaque nas linhas que se seguem: “O Dia D – é hora da Decisão”, que acontecerá no dia 21 de Abril do corrente ano nas principais cidades do Brasil. Para as massas este é mais um mega show para glorificar a Deus, vislumbrar uma série de incontáveis milagres e um oportuno momento para ouvir música gospel de ótima qualidade, de grátis – já que atualmente na maioria dos demais eventos do gênero os preços de ingressos são altíssimos. Tudo isto é muito fascinante, imponente e espirituoso. Contudo, ao contrário daqueles que vão se juntar a multidão no “Coliseu da Fé” no dia 21 Abril, há alguns cristãos pensantes que não são facilmente encantados pela grandiosidade. Este será um típico Pão e Circo Evangélico, haverá luta entre homens e demônios, muita euforia musical e alimento “espiritual” para aqueles que se satisfaz com qualquer coisa.

O dia 21 de Abril será um Pão e Circo Evangélico pelas seguintes razões: 1) Quem está organizando o evento é Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), instituição que na pessoa de seu líder e outros bispos estão sendo alvo de diversas investigações criminosas – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para conseguir aliados contra a TV Globo e afirmar que tudo que está acontecendo é fruto de perseguição aos evangélicos; 2) A IURD sempre foi mal vista pela cristandade brasileira devido a liturgia nada convencional e pelas técnicas abusivas de coleta de dinheiro – então, o “Dia D” é uma excelente oportunidade para tornar as heresias mais comum ao povo, o que culminará gradativamente num sentimento de aceitação; 3) A IURD nunca foi uma igreja que primasse pela Palavra, sempre foi conhecida pelos milagres, porém nos últimos anos tem perdido este filão de mercado para outra igreja que é idêntica, a Igreja Mundial no Poder de Deus – então, o “Dia D” é uma grandiosa oportunidade para reconquistar a paixão dos crentes cambaleantes que foram hipnotizando pela Igreja Mundial e outra vez igualmente resumir a fé em milagres.

Há mais algumas razões que não podem ficar camufladas: 4) A IURD com este evento nacional está tentando desviar o foco das acusações e processos criminais entretendo o povo – então, o “Dia D” é uma oportunidade ímpar para fascinar com a grandeza do evento as cegas massas evangélicas brasileiras; 5) A IURD sabe que infelizmente as massas evangelicais respeitam uma igreja não pelo caráter cristão mais sim pelo sucesso de público (numerolatria) – então, o “Dia D” é a oportunidade perfeita para reunir centenas de milhares de pessoas e assim mostrar para a mídia que a IURD é forte, paralelamente mostrar para os pastores de outros ministérios que é mais inteligente se juntar a eles que se oporem; 6) A IURD sabe que há muitos líderes que fazem qualquer coisa para aumentar o rebanho – então, o “Dia D” é uma ótima oportunidade para, disfarçado de manifestação cristã de unidade, conseguir alguns membros para as igrejinhas locais, assim os líderes destes ministérios serão eternamente cúmplice deste Pão e Circo Evangélico; e, 7) A IURD não está fazendo este evento para promover a evangelização, pois a divulgação tem sido numa linguagem tipicamente evangélica, com “artistas” evangélicos – então, o “Dia D” é uma oportunidade para bradar em alto som a adoração extravagante, declarar no reino espiritual e fazer inúmeros atos proféticos positivistas, afinal é disto que o povo crente gosta.

Enfim, definitivamente o Brasil é a Roma dos Evangélicos. Somente em terras tupiniquins o “Coliseu da Fé” reacende suas chamas e outra vez se torna o centro da vida religiosa das massas. Ali, debaixo da euforia do povo acontece a morte da razão, o suicídio do bom senso e o exaltação dos imperadores. Na arena deste vergonhoso Pão e Circo se esconde a igreja brasileira que finge não ser doente espiritualmente, fraca socialmente, despreparada teologicamente e imatura biblicamente. Por tudo isto o dia 21 de Abril será de fato o “dia D – é hora da Decisão” – Decisão de não participar deste pelourinho evangélico; Decisão de não ir para esta arena circense; Decisão de não se juntar a estes gladiadores da fé; Decisão de não celebrar estes imperadores eclesiásticos; Decisão de não aplaudir a morte do cristianismo. Por fim é valido endossar as palavras de Ricardo Gondim: “Aconselho que os crentes parem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre Cd de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - idem, para os meus. Depois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam. Não vá a congressos - inclusive o que eu promovo. Passe ao largo dos ‘louvorzões’...”[2].

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Abril de 2010



[1] Philip YANCEY, Igreja, Por Que me Importar?, p. 25.
[2] Perícope retirada do artigo de autoria do Ricardo Gondim, intitulado: “CONSELHOS PARA SOBREVIVER AO MUNDO GOSPEL”, disponível no site: www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 31 de março de 2015

Entre Babilônia, Duas Caras e as mesmas manipulações


“O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro”.
Efésios 4:14 (NVI)

[acréscimo de 2015] A história se repete, infelizmente, para nossa tristeza (contrapondo o saudoso “para nossa alegria” – interpretação inusitada de Jeferson e Suellen). E diferentemente do clichê popular “mudasse os tamanduás, mas as formigas são as mesmas” – ou vice versa, desta vez os tamanduás e as formigas são as mesmas, porém com um delay de sete anos (2008, novela Duas Caras – 2015, novela Babilônia, ambas da Rede Globo). Mais uma vez os evangélicos são feitos massa de manobra pela demonizante Globo e mais ainda pela espiritualizante Record. Por esta razão, optei por reproduzir nas páginas que se segue um artigo de outrora (2008) intitulado “O Evangelho Duas Cara da Record”. Na época não tinha BLOG, por esta razão somente agora, por ocasião da efervescência religiosa babilônica, optei por posta-lo integralmente no BLOG (seabravinicius.blogspot.com.br – criado em 2013). Conforme se segue:

Há muitos anos o homem descobriu como valer-se da religiosidade das massas em prol do enriquecimento ilícito e individualista. Infelizmente, o ser humano encontrou na fé um caminho para manipular as mentes supersticiosas de uma sociedade religiosamente instável. Criou-se uma crença cega, muda, surda e irracional, depositando a esperança em homens que se revestem de uma capa de autoridade humana e que abafam o silêncio dos humildes com gritos de superioridade espiritual. Percebe-se notoriamente que a figura do simples Carpinteiro como modelo de fé cristã foi substituída pelo glamour dos filhos de Deus que preferem serem erguidos e estampados em outdoors do que se contentar em viver nas sombras da cruz de Cristo.

A religião se tornou a bandeira de guerra no comércio, na política, na família e atualmente (em verdade há muitos anos) se tornou o mais novo trunfo da mídia televisiva. Protagonizando esta vexatória Jihad Gospel (“guerra santa”) encontra-se de um lado a Rede Globo que tenta atingir a Rede Record expondo as infantilidades e extremismos dos evangélicos numa novela intitulada “Duas Caras”. Do outro lado a Rede Record que por sua vez não perdeu tempo e rapidamente elaborou uma tendenciosa reportagem exibida no programa “Domingo Espetacular” do dia 16 de março de 2008. Por detrás desta corrida (guerra) pelo Ibope escondem-se duas maquiavélicas estratégias de luta pelo poder televisivo brasileiro.

A primeira estratégia emana da Rede Globo que tenta ridicularizar os evangélicos por meio da telenovela “Duas Caras”. A lógica aqui é muito simples, pois pelo fato de o dono da Rede Record ser, supostamente, um pastor evangélico tenta-se desmoralizar a crença religiosa do Edir Macedo tendo em vista, paralelamente, desmoralizar a Rede Record. Observa-se que a origem e o núcleo do conflito não é, necessariamente, ridicularizar os evangélicos, mas sim uma jogada estratégica que intencionalmente tenta forçar a opinião pública contra “o bispo”, sua crença, seus valores e seu método religioso que ainda estão camuflados pelo crescimento da Rede Record. O que se lamenta na presente jogada de marketing da Rede Globo é que a religião (e neste momento pouco importa qual religião seja) se tornou o centro deste showzinho antiético sendo, portanto, submetido a um mero meio de manipulação dos telespectadores em detrimento das aspirações dos abutres do capitalismo.

A sutil diferença entre perceber que a Rede Globo não está, em tese, desmoralizando os evangélicos, mas sim desmoralizando uma pessoa (Edir Macedo) e uma emissora concorrente (Rede Record) é o que faz toda a diferença na hora das críticas. Infelizmente, as massas não pensam, especialmente se as referidas massas foram de cunho religioso. Daí é muito mais fácil rotular a Rede Globo como uma emissora anti-evangélica do que encarar os fatos de que nesta luta não há nada de religiosidade, apenas uma luta estritamente humana e midiática. O que se percebe, como espectador da vida religiosa e social, é que os líderes evangélicos estão (conscientes ou não) criando um dualismo como se existisse uma luta espiritual entre a rede Globo (sendo do “diabo”) e a Rede Record (sendo de “Deus”). Contudo, ratifica-se, que nesta guerra da mídia não há nada de religiosidade, apenas aspirações capitalista. O que novamente faz-se merecer o registro de lamento e tristeza ao perceber que a religião está sendo “usada” (abusada) por ambas as partes.

A segunda estratégia emana da Rede Record que tenta manipular a opinião pública dos evangélicos no Brasil usando argumentos nada confiáveis para disseminar uma inquisição e uma “caça as bruxas” contra a Rede Globo. Aqui a lógica não é tão simples, pois há pouco tempo atrás a Igreja Universal do Reino de Deus – IURD (igreja liderada pelo dono da Record) não era bem vista pelos próprios evangélicos, não sendo necessário nem mencionar a imagem negativa que a IURD conquistou perante os adeptos de outras religiões. Agora com uma emissora mais forte no cenário nacional, Edir Macedo está tentando conquistar primeiramente a confiança dos evangélicos, o que tem conseguido muito facilmente. Infelizmente tem sido fácil corromper os fracos lideres evangélicos (que não são todos, apenas uma grande maioria) que negociam a fé desde que tenham uma boa “fatia do bolo” com cobertura de fama, recheado de dinheiro e enfeitado de poder.

O que causa espanto e que promove grande surpresa ao assistir o programa “Domingo Espetacular” apresentado no dia 16 de Março de 2008 é ver que não houve ninguém da IURD se pronunciando contra as cenas da novela “Duas Caras”. Tal atitude mascara uma intenção questionável, pois assim ninguém pensaria que era apenas a IURD (leia-se Rede Record) que estava se levantando contra a Rede Globo, o que produziria um efeito cascata nas demais denominações evangélicas. Ainda no mesmo programa exibido na Rede Record percebe-se algo mais assombroso que foi assistir o discurso de pastores de igreja comprometidas com o evangelho e que aparentemente tem um alto grau de fundamentação de fé serem literalmente “usados” como “pombos correios” da IURD, visando somente desmoralizar a Rede Globo. Esta intenção fica clara quando se assiste a reportagem da Record e percebe-se que foi citado cinco vezes o nome “Rede Globo”, totalizando uma média de uma citação a cada um minuto e meio de reportagem.

O “bispo” Edir Macedo usou da religião para construir a Rede Record e agora quer usar as outras denominações evangélicas como trampolim para chegar ao topo. Não será de admirar se daqui alguns anos a IURD (ou Rede Record) eleger um presidente do Brasil. Entretanto, neste fatídico dia será então celebrado o velório do sistema religioso dos evangélicos no Brasil. A triste possibilidade de os adeptos da IURD serem manipulados é até entendível, porém não deve ser aceitável. Contudo, assistir uma emissora manipular a opinião evangélica brasileira é vergonhoso e revoltante. Existem vários inquietantes pontos de interrogação na frente e atrás da história da IURD e conseqüentemente da história da Rede Record.

As práticas religiosas da IURD sempre foram muito questionadas nos seios da igreja evangélica exatamente por extrapolarem de forma significativa o que convencionalmente e biblicamente se julga ser cristão. Há IURD foi e é muito criticada por valer-se de uma hermenêutica (isto é, interpretação bíblica) um tanto quanto confusa e descontextualizada. Os rituais da IURD explícitos nos programas de televisão sempre ganharam apelidos nada evangélicos como, “boacumba” (um neologismo que faz menção a “macumba”). Em outras palavras, antes da Rede Record ser o que ela é hoje uma grande maioria dos evangélicos não gostavam de ser comparados com os seguidores da IURD. Por isto e muito mais que ainda não foi descoberto, devesse tomar cuidado com o evangelho “duas caras” da Rede Record.

Enfim, a Rede Globo errou, pois não se usa a religião para “agredir” outros concorrentes de mercado. A Rede Record errou, pois tem manipulado a religião (leia-se evangélicos) para derrubar sua principal rival (isto é, Rede Globo). Os líderes evangélicos erraram, pois estão compactuando desta chacina espiritual, onde não há “mocinhos”, apenas “bandidos”. As massas evangélicas erraram, pois não pensaram criticamente antes de aderirem a uma guerra maquiada em religiosidade, mas que em sua essência é corrupta e maléfica a toda e qualquer manifestação religiosa. Enquanto este jogo de “duas caras” continuar acontecendo, todos serão prejudicados, pois sendo assim perdem o respeito, abafam os ideais, arruínam fé e se constroem uma religiosidade não cognitiva e impraticável.

[acréscimo de 2015] Por tudo que fora exposto e por um senso de dignidade protestante que ainda ousa permanecer em meu coração (e de tantos outros) reafirmo que não devemos assistir a novela Babilônia (Globo), e igualmente, é imperativo não assistir a novela “Os Dez Mandamentos” (Record) - ambas são construções intencionais de manipulação dos não-cristãos e principalmente dos cristãos. Reafirmo que precisamos de uma cristandade racional, crítica, evangélica e bíblica que não se silencia frente às malandragens do Edir Macedo e que igualmente não se encanta com as sutilezas culturais advindas dos descendentes do Roberto Marinho. Reafirmo que é possível encontrar o Cristianismo longe da suntuosidade da IURD e do poder dos grupos majoritários da Globo.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Maio de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2014

Deus, ausências e pastores a suicidar


“Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer”.
Salmos 51:10-12 (NVI)
 

O título deste artigo pode ter causado estranheza, pois será discorrido sobre dois dos maiores tabus do mundo evangelical: a ausência de Deus – tema pouco difundido nos rincões gospel por gerar um sentimento de orfandade divina; e, o suicídio de pastores – tema absolutamente silenciado nos porões eclesiásticos por desnudar a humanidade que sustenta a invicta espiritualidade. Descrever sobre os dois temas separadamente já seria um desafio de proporções gigantescas, então faremos mais, associaremos ambos os assuntos como causa e efeito. É válido ponderar que as alienas que se seguirão não são as únicas abordagens possíveis, nem temos a intenções de simplificar a complexa junção de ausência de Deus e pastores suicidas. Contudo, é preciso romper o discurso programado de frases de efeito que povoa a previsibilidade de senso comum existente nas igrejas tupiniquins. É necessário ver mais que o perceptível; é imprescindível que se escute além das locuções; é fundamental que haja sensibilidade acima das oscilações emotivas; é indispensável que sejamos sinceros, mesmo que isto custe desnudar a fragilidade da nossa fé.

Nossa jornada se inicia a partir da ideia de “ausência de Deus”. No contexto bíblico percebem-se algumas situações em que esperávamos que Deus agisse de forma diferente por causa de quem Ele é, mas não O fez. Por exemplo: Onde Deus estava quando a serpente corrompeu Adão e Eva no Éden? Deus podia ter intervindo ali, mas não fez. Onde Deus estava quando Caim assassinou Abel? Deus podia ter impedido tal atrocidade, mas se omitiu. Onde Deus estava quando Estevão fora apedrejado injustamente? Deus podia ter evitado que o Reino perdesse um de Seus mais promissores pregadores, mas novamente Ele preferiu nada fazer. Além disto, a questões de ausências que nos emudecem, como: Por que Deus dá aos homens chance de arrependimento, mas para o diabo não há possibilidade de perdão? Por que Deus prometeu a Abraão um filho e demorou tanto ao ponto de isto ter provocado um desconforto/conflito histórico? Por que Deus não deixou Moises entrar na terra prometida depois de tudo que ele teve que suportar no deserto? Por que os profetas sofreram tanto para anunciar uma mensagem contrariamente de esperança? Por que a igreja primitiva sofreu tanta perseguição e Deus se silenciou? ...Por quê?

No contexto contemporâneo as indagações não perdem força, pelo contrário, agregam valores contextuais inquietadores, tipo: por que há tantas igrejas comprometidas com o Reino que não crescem? Por que há cristãos que estão a chorar por ocasião de tantas mazelas não provocadas por estes? Por que os ímpios prosperam? Por que, às vezes, dá a impressão que os descrentes são mais felizes que os igrejeiros? Por que o discurso de santidade não funciona? Por que nos sentimos tão vazios mesmo buscando sinceramente a Deus? ...enfim: Onde Deus está? Não são poucas as ocasiões em que temos a absoluta certeza de estarmos longe de Deus não por causa do pecado, mas sim porque a ausência dEle é perceptível e sufocante. E esta ausência é tão profunda que indagamos, frustradamente, a real existência dEle. Onde Ele está? Por que Ele prefere o silêncio? Então, depois de esgotarmos todas as engenhosas respostas criadas pelos teóricos (não teólogos) com fins a responder as interrogações, as dúvidas permanecem... pois, para cada resposta apresentada mais indigesto se torna  a jornada, ficando engordurada com frases de efeito, jargões ou reproduções autoritativas invictas.

Neste tempestuoso cenário de perguntas sem respostas surge o oráculo evangelical, um ser diferente dos demais seres-gospeis. Um homem (ou mulher) que se reveste da figura de “hermes” e faz aproximação entre Deus e mortais. Estes são chamados e aclamados pelo título (não função): pastores. A ironia foi proposital para ingressarmos no trágico segundo tópico proposto neste artigo, ou seja, pastores suicidas. De fato há poucos relatos de pastores que se suicidaram: Pr. Cosmo Rocha dos Santos (33 anos) em Alagoas, Brasil, em Abril de 2011 – “O corpo foi encontrado de joelhos sobre a cama nas dependências da igreja, com um fio de telefone envolta do pescoço”[1]. Pr. Teddy Parker (42 anos) em Geórgia, EUA, em Novembro de 2013 – Parker disse em um sermão: “Às vezes, eu não sinto que Deus está me ouvindo (...) Sabe, várias vezes sentimos que quando estamos passando por muita coisa de uma vez, é tanto que parece que estamos sozinhos. E adivinha? Deus quer que você se sinta assim. Sei que vocês já foram salvos há muito tempo. Sei que vocês são santos e super espirituais, mas há momentos em sua vida, não na de vocês, mas na minha, há momentos em minha vida em que passo por coisas e eu não consigo sentir que Deus está ali”[2].

Há registros do suicídio de três pastores nos EUA no final do ano de 2013, a partir de então os estudiosos decidiram investigar e chegaram a dados nada animadores: “70% dos pastores lutam constantemente com a depressão, e 71% estão 'esgotados'. Além disso, 72% dos pastores dizem que só estudam a Bíblia quando precisam preparar sermões, 80% acredita que o ministério pastoral afeta negativamente as suas famílias, e 70% dizem não ter um amigo próximo (...) O Instituto Schaeffer também estima que 80% dos estudantes de seminário (incluindo os recém-formados) irão abandonar o ministério dentro de cinco anos”[3]. Todos estes relatos e dados refere-se a pastores que interromperam suas próprias vidas ainda no oficio pastoral. Contudo, é preciso ir além, pois empiricamente sabemos haver muitos outros pastores que antes de se suicidarem se desviaram, não entrando nestes horríveis números estatísticos. O suicídio de ex-pastores é mais tolerável pela cristandade, alias, assim fica até fácil explicar o suicídio, responsabilizando o diabo e o pecado – simplificando o desejo da morte. É necessário investigar as causas, não explicar os fatos. É imprescindível delinear sobre as ausências, não justificar as presenças.

O suicídio de pastores (ou de ex-pastores) está intimamente ligado à ausência de Deus. É fruto de uma reflexão lógica de descrença total na ação de Deus a partir de suas vidas pastorais. Muitos dos que estão por ai pastoreando em solos tupiniquins não podem ser sinceros com seus próprios sentimentos, desilusões e frustrações. Não podem contar quantas vezes ficaram num banheiro imaginando de que forma poderiam acabar com a dor profunda de não saber se é verdade o que prega. Não podem dizer por ai quantas vezes se arriscaram com a esperança de que numa destas morreria e terminaria então não como suicida, mas como herói. Não podem declarar nos rincões gospel que não sabem explicar o porquê que Deus salvou uma pessoa de um acidente e, estranhamente, Deus nada fez para livrar o outro gerando dor nos familiares. Não podem reconhecer que ser pastor não os torna melhores, superiores ou mais chegados a Deus, pois para muito é só isto os distintivos de pastores. Não podem verbalizar que, às vezes, se arrependem de terem sido ordenados a pastores e que tem plena certeza de não estarem preparados. Não podem... até que dizem para o mundo o que realmente queriam dizer: morrer.

Não quero finalizar este artigo com teologias de frases de parachoque de caminhão. Não quero tentar defender Deus acerca de Suas ausências, pois disto Ele não precisa (e nem eu entendo!). Não quero tentar explicar de forma espiritualizada os suicídios de pastores, pois a muito silêncio antes da morte. Alguns poderiam apenas se contentar com explicações infantilizadas e estupidas como as que foram postadas por Edir Macedo (suposto pastor), quando afirma sobre os suicídios de pastores: “Isso aconteceu porque a fé do pastor estava alicerçada nos seus sentimentos e não na Palavra de Deus. (...) A fé inteligente despreza a visão, audição, tato, olfato e paladar. Ela é a certeza de coisas que se não veem ou sentem... A crença verdadeira se fundamenta naquilo que está prometido, escrito ou falado pela boca de Deus. Nada mais além disso”[4]. Isto é pura teologia de frase de parachoque de caminhão, pois exclui toda a humanidade do processo, distancia a vivência do espiritual e fomenta a figura heroica do pastor. Edir Macedo nunca quis que o povo vissem os pastores como gente, por isto no conhecidíssimo discurso gravado em 1995[5], ele afirma: “O povo tem que ter confiança no pastor. Se você mostrar aquela maneira xôxa, o povo não vai confiar em você para orar. Você tem que ser o super-heroi (...) é a fé ou não é? (...) tem aqueles que são tradicionais... agora tem outros (que dirão): poxa, a quanto tempo eu queria isto. Poxa, tô cansado de ler a bíblia, de ver tantas palavras e não acontecer nada na minha vida...”.

Por fim, temos que reconhecer que a ausência de Deus é mais agressiva que a Sua presença julgadora. Igualmente temos que admitir que a morte seja mais atrativa que viver uma farsa. Portanto, continuaremos ouvido, sorrateiramente, acerca do suicídio de pastores nos próximos anos. Haverá alguns que com profunda devoção e respeito, apesar de toda descrença em Deus, vão visivelmente se desviar, entrando pro rol dos ex-pastores suicidas – estes optaram por uma morte solitária, distante inclusive de Deus. E, enquanto “pastor” for um título de diferenciação entre nós, ao invés de um serviço fraternal e temporal, estaremos, então, sendo co-responsáveis pelos suicídios – aquele que aperta o gatilho não é o único a cometer suicídio, ele apenas protagoniza.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 26 de Fevereiro de 2014



[1] Confira a reportagem completa no link: http://leopoldinaparacristo.blogspot.com.br/2011/04/pastor-comete-suicidio-um-alerta-para.html
[2] Confira a reportagem completa no link: http://www.christiantoday.com/article/pastor.teddy.parker.commits.suicide.congregation.waits.for.him.after.confessing.sometimes.he.cant.feel.god/34672.htm
[3] Confira reportagem completa no link: http://noticias.gospelprime.com.br/pastores-suicidios-igreja-americana/
[4] Leia o comentário completo no link: http://www.bispomacedo.com.br/2013/12/23/pastor-comete-suicidio/
[5] Vídeo disponível no link: http://www.dailymotion.com/video/xe4xpr_jornal-nacional-denuncia-edir-maced_shortfilms

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um menino chamado Edir Macedo


“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição...”
2 Pedro 2:1 (NVI)

Nos últimos tempos poucas pessoas têm conseguido ocupar tanto espaço na mídia como o excêntrico “Bispo” Edir Macedo, principalmente no que concerne ao lado empresarial encabeçado pela Rede Record que constantemente se encontra numa concorrência com a principal rival, Rede Globo. Nesta luta para saber quem mandará no Brasil nas próximas décadas vale tudo, inclusive manipular as massas evangélicas para apoiar manifestos tendenciosos e meramente mercantilistas. Contudo, o propósito do presente artigo não é apimentar este conflito, mas sim fazer uma breve reflexão sobre o lado religioso deste homem (Edir Macedo) que não poucas vezes tem agido de forma infantil. A intenção é refletir (pensar) sobre as premissas teológicas e religiosas que o líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem propagado e como que estas são prejudiciais a fé cristã.

No dia 27 de Abril de 2009, Edir Macedo registrou em seu blog as seguintes alíneas: “Será que os que me acusam de aproveitador, vigarista e ladrão não gostariam de estar em meu lugar???… Será que eles me acusam porque são honestos, íntegros, verdadeiros e santos? E se a santidade deles é tão acentuada assim, por que não são tão abençoados por Deus como gostariam? Seria Deus injusto para com eles? Que Deus é Esse que abençoa um “bandido” e amaldiçoa os certinhos? Ou será que mesmo na integridade eles não conseguem sucesso porque são incompetentes? E não seria tamanha incompetência a verdadeira razão da inveja? (...)” – cf. www.bispomacedo.com.br/blog , acessado em 16 de Maio de 2009. Tristemente, Edir Macedo não está totalmente errado, o que não torna suas idéias aceitáveis. É indiscutível que inúmeros líderes eclesiásticos fariam qualquer coisa para ter o suposto “sucesso” e “crescimento” que a IURD obteve nas últimas décadas, a prova disto é que estão imitando os heréticos programas da IURD em diversas igrejas.

A perícope acima demonstra que o Sr. Edir Macedo se esqueceu do texto do livro de Jó que exemplifica que coisas ruins acontecem com pessoas boas e que a recíproca também é verdadeira, ou seja, coisas boas acontecem com gente ruim. Este estalo teológico apresentado por Jó é o que equilibra o radicalismo defendido por alguns baseando exclusivamente no texto de Deuteronômio, capítulo 28, onde apresenta a súmula: sejam pessoas boas e Deus abençoará; sejam pessoas más e Deus amaldiçoará. Sendo assim, Macedo se esquece que o que se está em “xeque” nesta vida não é o sucesso adquirido perante os homens, nem o nebuloso fracasso, mas sim a fidelidade com que se é mordomo de Deus. Portanto, santidade não é pré-requisito para adquirir bens materiais, integridade não garante riqueza, e ao que parece a lógica do mercado capitalista é exatamente o contrário.

Há vários textos bíblicos que estão em acordo ao dogmatizar que prosperidade, sucesso, felicidade não são necessariamente atributos daqueles que são fieis cristãos. Para tanto vale observar o texto de Salmos 94:3: “até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios saltarão de prazer?”. Tal texto está próximo da indagação registrada em Juízes 12:1: “...por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente?”. Portanto, ao contrário do que Macedo intenta ensinar, bênçãos nesta terra não pode ser o critério exato para discernir se alguém está com Deus ou não. Contudo, não se pode radicalizar afirmando que Deus é contra a prosperidade. Torna-se, então, razoável e é no mínimo sensato arrazoar que, toda e qualquer riqueza quando não é utilizada para a glória de Deus deve ser questionável.

Outro caminho demasiadamente perigoso que o Sr. Edir Macedo induz a cristandade atual a trilhar em seu blog é o pressuposto de que as pessoas ao olhar para ele sentem inveja. Os líderes evangélicos que comungam deste sentimento devem repensar seriamente a fé, pois o referencial de pastor deveria ser não o sucesso, mas sim o caráter, porém tal fato é omitido em seu blog, focando que a razão da inveja dos outros por ele é essencialmente o “sucesso” da IURD. Ambos erram, pois o que a igreja precisa atualmente é de pastores de caráter, não de pastores-empresários que se orgulham do sucesso como se este fosse mérito pessoal. Para tanto, novamente o texto bíblico, especificamente o de Salmos 73:2-3, ajuda o leitor a não ceder para o “canto da sereia”, pois argumenta: “quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos. Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”.

Ao ler a perícope destacada do blog do Edir Macedo e após fazer as devidas considerações anteriormente relatadas, uma cena da infância vem à mente. Se parece muito com uma criança mimada que conseguiu um carrinho importado de controle remoto sem fio e que agora frente aos “amigos” do bairro menos favorecidos fica fazendo “figuinha” e esnobando os outros se achando o melhor entre todos. Contudo, depois que se cresce vê que aquele carrinho não tem importância nenhum. Se for um carrinho feito à mão com garrafas pet ou importado sem fio, isto não tem o menor valor quando se adquire um pouco de maturidade. O que importava realmente era estar junto um dos outros. Parafraseando, quando na Igreja se deixa de ser criança o que importa não é mais a beleza dos templos, nem o sucesso aclamado pelas multidões e muito menos a prosperidade dos outros, tudo isto são paixões infantis.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 15 de Junho de 2009