Páginas

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Igrejas em processos de humanização


“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo”.
Efésios 4:31-32 (NVI) 

A expressão “igreja” sempre denotou alguma relação com o termo “espiritualidade”, que por sua vez carregava significados de uma verticalização no relacionamento homem-divindade – estas são premissas verdadeiras, essenciais e fundamentais a fé cristã. Fazer parte da Eclésia significava buscar uma aproximação com Deus, uma tentativa de se reconectar com o Criador e quem sabe resignificar as aspirações seculares com tons cristãos – pressupostos nobres de qualquer cristão em busca de uma vida aos moldes do caráter de Cristo. De fato, tudo isto está correto, porém igualmente está incompleto. Estranhamente aprendemos uma espiritualidade demasiadamente mística e desafortunadamente humanizadora, dicotomizando a fé em duas porções insolúveis: o sagrado (tudo que é igrejeiro) e o profano (tudo que se refere à normalidade da vida). É preciso redescobrir uma espiritualidade mais humana.

Jesus Cristo foi a própria personificação da necessidade de se des-espiritualizar a religiosidade, por esta razão Ele fez-se homem, habitou entre a humanidade, se secularizou, se contextualizou, viveu entre as pessoas, dialogou com as aflições humanas, fez-se gente (cf. Fp. 2:6-8). Jesus poderia ter criado uma forma espiritualizadora de reconexão com a divindade, acentuando e distanciando Deus das pessoas. Contudo, Ele optou por desestabilizar a religiosidade estabelecida (judaísmo) e aproximar-se das pessoas. Tudo isto para mostrar que o que mais precisamos não é de mais ritos espirituais unilaterais com Deus, mas precisamos redescobrir uma espiritualidade acolhedora, humanizadora e fraternal – caminho este desenhado pelo Filho do Homem.

Na igreja evangélica brasileira há muitas coisas que precisam ser repensadas com fins a não poluir mais a espiritualidade. Portanto, arrisco afirmar que não precisamos de mais 12 horas de adoração na igreja, ação esta que na verdade é uma tentativa compensatória para um cotidiano sem espiritualidade – já temos 24 horas de adoração por dia, todos os dias; não precisamos mais de músicas lentas (chamadas, estranhamente, de adoração) que nos fazem fechar os olhos durante o louvor e, então, não perceber a pessoa ao nosso lado – cantar junto sem estar junto é no mínimo bizarro; não precisamos mais de campanhas de restituições possessivas para com Deus, pois estas campanhas só têm nos feito criar uma espiritualidade bancária (extrativista) – para tristeza de alguns sanguessugas crenteiros, é preciso que entendam que o melhor de Deus não está por vir, O melhor já veio (Jesus).

É possível redescobrir uma espiritualidade mais humanizadora, é sim possível fazer da igreja uma irmandade que exala uma espiritualidade a partir das normalidades interacionistas eclesiásticas. Para isto acredito piamente, e axiomaticamente, que o caminho se dá a beira da mesa. Mesa de comida, digo. Talvez seja por estar razão que a ceia, ritual litúrgico máximo dos cristãos, se dê com comida (pão e vinho). Talvez seja por isto que o Cristo ressurreto fez-se registrar comendo peixe e mel com os discípulos antes de subir aos céus (cf. Lc. 24:42). A comida é mais que alimento, é ponto de encontro para diálogos, interações, intervenções, aproximações, abraços, sorrisos, perdão, arrependimento e etc. A comida é espiritualizadora, pois aproxima os irmãos, tornando-os de fato irmãos, gerando comprometimento/entrosamento e fortalecendo a fé um dos outros.

O escritor, Tiago, registra uma inquietante sentença ao ponderar sobre a verdadeira religiosidade não pelos parâmetros da clássica espiritualidade (homem-Deus), mas nivelando-a a partir da humanização (homem-Deus-homem), ele afirma: “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” - Tiago 1:27 (NVI). É preciso reiterar, ao fim deste texto, que igreja é lugar de encontrar Deus, mas também de encontrar gente, e não podemos esquecer, que estes dois sujeitos (Deus e o homem) também são encontrados fora da igreja, demonstrando como a fé tem proporções integrais e integradoras, rompendo os limites geográficos da espiritualidade igrejeira e resignificando a jornada cristã cotidiana.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 14 de Novembro de 2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Deus não tem que capacitar os chamados


“Fiel é o que vos chama, o qual também o fará”.
1 Tessalonicenses 5:24 (ACF)

O povo do gueto evangélico brasileiro gosta de uma frase de efeito, ama jargões triunfalísticos, se esbravejam com uma teologia de para-choque de caminhão. E são exatamente estas concepções religiosas que mais tem danificado o Evangelho tupiniquim (leia também o artigo “frase de efeito para cristãos com defeito”, do mesmo autor). Quase sempre estes clichês espiritualizadores constroem uma teologia errada, antropocêntrica e até antibíblica – mesmo que mascarada de religiosidade autêntica e inquestionável. Então, a frase: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos” é uma destas aberrações clássicas. Esta construção religiosa está completamente equivocada e desabona a soberania de Deus, pelas razões que arrazoaremos nos parágrafos a seguir.

Era necessário sabermos quem é o autor da referida frase, pois a partir do autor poderíamos conceber ideias correlatas e o contexto (histórico, literário, religioso). Contudo, ao pesquisar na internet, na tentativa de perscrutar a autoria da referida frase, não obtive bons parâmetros, pois há incontáveis autores (gente sem criatividade, que escuta a frase, e como papagaio, posta nas redes sociais a frase para se parecer inteligente para os “amigos”). Então, não dá para saber quem foi o pai do referido clichês.

Arrisco palpitar que a frase foi uma resolução (resumo equivocado e distorcido) da celebre frase de Josué Yrion na conhecidíssima série que ele ministrou na Igreja Batista da Floresta em Belo Horizonte na década de 1990 (vídeo de combate ao suposto satanismo da Disney). Quando em um dado momento ele afirma: "Quando Deus chama, Ele capacita; Quando Ele capacita, Ele envia; Quando Ele envia, Ele supri; Quando Ele supri, Ele respalda!”. Apesar de parecidas as propostas, ainda acredito que há uma diferença entre ambas. Yrion põem Deus como agente central do processo, algo que no clichê que estamos abordando não parece ser o central.

A frase “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos” esconde alguns problemas doutrinários, a saber: se Deus não escolhe os capacitados, então, o que acontece depois, quando Ele “capacita os escolhidos”? Há, portanto, uma gigantesca contradição no quesito “capacitação”. Ao que parece a frase quer supervalorizar os leigos, mas estes mesmos leigos esperam ser capacitados – tá ai uma coisa sem sentido! É válido ressaltar que no Reino Deus usa os capacitados e os não capacitados, porém a igreja ainda quer discutir qual é o mais importante. Se esquecem que para Deus títulos, ou a ausência destes, não são distintivos importantes. O que realmente importa é a disposição em servir, amar e perdoar – se engajando no Reino de forma plena, ao ponto de fazer o melhor possível para Deus, dentro de suas capacidades.

A referida frase é ainda mais prejudicial ao Evangelho se a tentativa foi fazer uma releitura do texto de Paulo: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” - 1 Tessalonicenses 5:24 (ACF). Se a ideia foi fazer relação com o texto bíblico, então, a aberração é atroz. Perceba que o texto bíblico destaca que Deus é fiel, que é Ele quem chama e que é Ele quem fará – não há referência alguma de capacitação, pelo contrário, o texto destaca a ação de Deus, não a capacitação humana. O problema reside no fato de os cristãos ainda se acharem responsáveis pela manutenção da igreja, como se os seres humanos fosse o mais importante no Reino. Até parece que Deus precisa da santidade da igreja para permanecer sendo Deus. Ilusão.

Deus não age por meritocracia. Nem precisa de advogados, com fins a manter a reputação dEle. Por isto Paulo enfatiza: “se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” - 2 Timóteo 2:13 (NVI). A pretensão “...Deus capacita os escolhidos” é uma forma velada de antropocêntrico. A Obra é dEle, Ele o fará, o máximo que podemos fazer é sermos co-participantes (coadjuvante) na história. Então, não é a capacitação que importa, mas sim o agir dEle, no propósito dEle, para os fins que Ele deseja. Enfim, Ele o fará, independente de nossa capacitação.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 22 de Outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

Cartas aos ex-membros de minha igreja


 “...ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos...”
Judas 1:3 (NVI)

Nota explicativa, antes da escrita (e leitura) da carta. A proposta de “cartas aos ex-membros de minha igreja” segue a linha exposta em outro texto anterior a este (“cartas a minha ex-igreja”) que, semelhantemente, faz-se necessário compreender o destinatário, propósito e circunstancias a derredor desta. A primeira observação necessária a ser feita é, novamente, reiterar que a utilização do pronome possessivo “minha” nesta carta, também, não se refere à possessão, mas denota afetividade. A segunda consideração refere-se à necessidade de identificação de qual igreja me referendarei, a saber: Comunidade da Fé – Igreja Cristã (Goiânia, Goiás, Brasil), igreja que atualmente pastoreio. E por fim, reitero que a utilização da expressão “cartas” no plural não significa que existem ou existirão outras cartas (pelo menos não na forma convencional da escrita), mas denota os ecos advindos desta correspondência que, igualmente, jamais conseguiria ser, por definição, uma só carta.

---

A/C
Aos ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã.

Caros ex-membros da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (COFE). Não tenho muita certeza se esta carta chegará a vocês, mas faço votos sinceros que chegue e que tenham paciência para ler as linhas que seguirão. Reconheço que me sinto desconfortável na escrita desta, pois englobarei num pacote só vários tipos de pessoas e várias situações distintas. Então, me sinto receoso de ser mal interpretado por ocasião das generalizações que aqui farei. Contudo, não acredito que seja prudente desdobrar particularidades, isto não edificaria o Reino, nem a nós mesmos. Portanto, a mim resta valer das palavras como pontes para aprendermos com o passado.

Fui dar uma bisbilhotada nas listas antigas e na atual lista de membros/frequentadores da Comunidade da Fé (COFE) e tive a estranha certeza que apesar de poucos anos de igreja (2007-2014) já estamos no rol das igrejas que mais tem ex-membros do que membros. Tive, então, a curiosidade, apesar do receio, de ficar alguns instantes lembrando de cada pessoa. Reconheço que esta foi uma sensação estranha (no mínimo constrangedora e sufocante), pois pude perceber que a ausência destes (ex)membros deixaram vazios gigantescos em minha vida e na história da COFE. Vocês deixaram buracos de proporções estratosféricas, provando mais uma vez que pessoas são sim insubstituíveis.

Ao pausar por alguns instantes, e relembrar de cada um de vocês que congregaram na COFE, me fez chegar a dois lugares distintos e antagônicos (simultaneamente). Primeiro percebi que alguns não mais estão na COFE, pois suas histórias superaram a COFE e, então, devido a nossa pequenez histórica não foi possível suportar a estes. São gente que precisavam de mais “espaço” para continuar a crescer e, talvez, a COFE fossem um limitador (pelo menos naquele momento histórico). A estes fica meu lamento e meu pesar consentimento, pois a grandeza destes (sem nenhuma ironia no termo) poderiam ter feito a COFE ser uma igreja melhor hoje. As ausências de vocês não somaram a nossa coletividade, pelo contrário, perdemos muito. Perdemos amigos, histórias e lembranças.

O outro lugar que cheguei (ou fui levado até lá) ao rever as listas de ex-membros, foi à dura percepção de que há muitos ex-membros da COFE que não mais estão em igrejas evangélicas (e em nenhum movimento religioso). Esta foi uma releitura que mereceu rigorosa autocrítica. Saber que alguns de vocês não mais estão conosco por terem alavancado voo superior a COFE é uma graciosa sensação de “abandono” (o primeiro lugar), mas saber que alguns de vocês não mais estão por terem largado a fé (o segundo lugar a que me refiro), é uma sensação de profunda perturbação pessoal-pastoral. E aqui me fez indagar que tipo de evangelho nós da COFE apresentamos a vocês, ou/e o que aconteceu entre nós que não foi suficientemente cristão ao ponto de desabonar a fé, e/ou ainda, se será que nós da COFE não conseguimos ser igreja para vocês de forma real. Estas indagações me preocupam sobremodo, mas as possíveis respostas destas questões me põem em crise didático-religiosa.

A crise didático-religiosa a que me refiro se dá por não conceber a idéia de deliberadamente transferir a culpa para vocês. Prefiro passar a reflexão culposa primeiramente por mim. Faço isto não por achar que eu sou importante no processo, mas como (ex)pastor de vocês acredito que seja minha responsabilidade criticar minha forma de pastoreio. Também perpasso a reflexão culposa por mim não para me vitimizar no processo, porém julgo relevante gastar um tempo para avaliar minhas (nossas) desventuras. A minha crise didático-religiosa se refere, essencialmente, a criticar o “modelo de ensino” da COFE (inclui-se: estudo bíblico, liturgia, culto, confraternizações, grupos familiares...) – e como sou o pastor não me resta para onde fugir.

É preciso reconhecer que, talvez, o “modelo de ensino” da COFE tenha sido (e talvez esteja sendo) muito insuficiente para vocês – fraquinho, superficial, distante da realidade local. Se este for o caso, só me resta admitir que tenho (temos) minhas (nossas) limitações. Contudo, sei que tanto eu, quanto os demais membros, sempre tentamos fazer o melhor possível, mesmo sabendo que existe uma diferença monumental entre fazer o melhor e ser o melhor – e ainda, admitir que fazer o melhor, às vezes, não é suficiente. Ainda temos muito a aprender, crescer e amadurecer, estamos no processo. Espero que tais deficiências (limitações) não sejam cristalizadas em suas mentes e corações. Reconheço que existem muitas igrejas melhor que a COFE, espero que vocês as encontrem e resignifiquem a fé de vocês.

Ao longo dos anos aprendi uma verdade inquietadora: ninguém muda de igreja por acaso; ninguém se desliga de um grupo religioso sem razão; ninguém sai de uma igreja despretensiosamente. E sempre que alguém sai (inclusive os chatos e os inúteis) o grupo perde. O bom da igreja é esta diversidade incontrolável (que, às vezes, faz expelir pessoas – mudar de igreja ou abandonar a igreja). Podemos até escolher onde congregar, não se pode escolher com quem vamos congregar. A todos vocês que são ex-membros da COFE fica registrado minha profunda gratidão e inquietação pelo tempo que congregamos juntos. Perdoe minhas (nossas) limitações e infantilidades, e quem sabe um dia poderemos caminhar juntos outra vez (isto seria fabuloso). Todos vocês deixaram marcar inesquecíveis em minha vida e na história da Comunidade da Fé – Igreja Cristã. Lamento por não mais estarmos juntos, mas agradeço por termos um dia estado juntos.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 03 de Outubro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Cartas a minha ex-igreja


“Lembrem-se dos seus líderes, que lhes falaram a palavra de Deus...”
Hebreus 13:7 (NVI)

Nota explicativa, antes da escrita (e leitura) da carta. O título “cartas a minha ex-igreja” precisa ser compreendido para que saibamos qual o destinatário, propósito e circunstancias a derredor da mesma. A primeira observação necessária a ser feita é a utilização do pronome possessivo “minha”, que nesta carta não se refere à possessão, mas denota afetividade. A segunda consideração refere-se à utilização do termo no singular “ex-igreja”, pois me referendarei nesta carta a primeira igreja que congreguei, a saber: Igreja Cristã Evangélica do Avivamento – Ministério Geração Eleita (Goiânia, Goiás, Brasil). E por fim, a utilização da expressão “cartas” no plural não significa que existem ou existirão outras cartas (pelo menos na forma convencional da escrita), mas sim denota os ecos advindos desta correspondência que nunca conseguiria ser, por definição, uma só carta.

---

A/C
Meus ex-líderes, ex-pastores e ex-amigos de congregação.

Caros ex-líderes, ex-pastores e ex-amigos de congregação. Reconheço que esta carta está sendo escrita tardiamente, não que não houvesse interesse anterior de tal escrita, neste intervalo de 10 anos (2004-2014) muitas vezes balbuciei algumas palavras, que por vezes acreditei não serem capaz de expressar o real intento de meu coração - ou por simplesmente não conseguir entender plenamente meu coração, assim como minha razão e intenção. Contudo, mesmo admitindo que as palavras não conseguem expressar o que precisa ser dito, e nem eu mesmo consiga perscrutar minhas mais profundas (e escondidas) intenções, resolvi escrever. Resolvi escrever para dialogar um pouco mais comigo mesmo e com aqueles que se emaranham comigo.

Inicio meu discurso com tons de desafortunada gratidão, pois nós convivemos por mais de 20 anos na mesma igreja (ICEA – Ministério Geração Eleita) e hoje sei que fora o melhor lugar para eu estar nestes referidos anos. Ali aprendi valores que a mim hoje são inegociáveis, como caráter, honestidade, organização, doação, transparência, altruísmo, espiritualidade e respeito. Ali aprendi a não ser expectador do Reino, e assim assumindo responsabilidades eclesiásticas com humildade, comprometimento e paixão. Ali aprendi que servir a Deus é mais vocação do que profissão, por esta razão não posso, até hoje, oferecer a Deus menos do que a minha vida inteira. Ali aprendi a ser cristão.

Sou grato a Deus por ter tido o privilégio de congregar numa igreja que me concedeu a oportunidade de me desenvolver no ministério. Contudo, seria eu faltoso com a verdade se também não admitisse que neste mesmo ambiente vivenciei situações de profunda desilusão, dor, tristeza e decepção. Por esta razão esperei 10 anos para escrever, pois ainda tenho muitas dúvidas sobre as desventuras que vivenciei ai. Dúvidas digo, pois por vezes ainda não entendo os acontecidos. Às vezes acho que houve umas armadilhas coletivas para nos fazer desentender – sempre tem gente na igreja que quer ver os outros brigarem. Outras vezes tenho a impressão que vocês (lideres/pastores) só queriam manter a autoridade/superioridade – e nestes dias a pauta das reuniões era irrelevante. Outras tantas vezes tenho a certeza de que a mim faltou humildade – tá ai uma virtude que persigo deste adolescência, mas que insiste em me escapar com certa frequência.

Ao contrário do que possa parecer não guardo magoa de ninguém dai (minha ex-igreja), pois estes momentos de desconforto ministerial produziram, tempos depois, maturidade tanto em mim como a vocês. Contudo, isto não significa esquecer, ou deletar tais situações do passado. Até porque se isto fosse possível perderíamos o fator pedagógico inserido nas vivências. O que lamento, e lamento profundamente, é perceber, depois de uma década, que poderíamos ter agido diferente, em quase todas as situações, evitando ferir/machucar a nós mesmos. Por esta razão, sei e admito, com profundo pesar, que provavelmente hoje tenham várias pessoas que não mais estão em igrejas por minha causa, pela forma como as tratei, de como falei e das coisas que fiz em nome de Deus (e acredito que tal fantasma assombra alguns de vocês ai também).

A minha saudosa gratidão externada nos parágrafos anteriores não exclui minhas desilusões. Por esta razão, reafirmo, especialmente para os leitores desatentos, que sou grato a Deus pela minha ex-igreja. E como fruto desta gratidão reafirmo (digo reafirmo, pois tal fato já fora verbalizado em outros momentos de forma pessoal)  publicamente meu pedido de perdão a todos os que comigo conviveram neste período (1981-2004) e que se sentiram prejudicados por minha causa. Meu pedido de perdão e meu sincero sentimento de gratidão não são para que haja liberação espiritual (não acredito nestas hierarquias espiritualizadoras), nem tem haver com ser abençoado (não acredito nesta relação meritocrata com Deus). Peço perdão e sou agradecido, pois este é sentimento (ação) que tenho em meu coração. Não há nenhum interesse por detrás, não quero nada, é apenas gratidão e perdão.

O leitor contemporâneo das citadas vivências nesta carta deve estar inquieto, a se perguntar: será que esta carta é uma declaração de arrependimento de ter saído da referida igreja? A resposta cambaleia ora para o sim, ora para o não – depende do sentido proposto. Sim, me arrependo de não ter tentado de outras formas, me arrependo de minha inflexibilidade, me arrependo de ter sido precipitado, me arrependo de ter me encantado com as ovações das pessoas, me arrependo de ter acredito que eu era mais que de fato era, me arrependo de ter perdido amigos, me arrependo de ter perdido parte de minha história. E não, não me arrependo de ter tentado, não me arrependo de ter aventurado naquilo que acredito ser a vontade de Deus, não me arrependo de ter tido a experiência de me lançar no desconhecido, não me arrependo de ter descoberto coisas novas, não me arrependo de ter fundado uma agência missionária (anos depois - 2007 - fundamos uma igreja também), não me arrependo de ter sido acolhido por outros amigos, não me arrependo de estar perdendo minha vida, não me arrependo de ainda não entender o que estou fazendo.

Esta carta não é para demonstrar quem estava certo ou errado, acredito que ambos (eu e minha ex-igreja) já superamos esta infantilidade advinda da afirmativa do vencer, nós dois perdemos (e igualmente ganhamos). A história continua, e Deus tem sido graciosos para conosco. Pessoas entram e saem das igrejas, algumas passam por lá como numa rodoviária, não criam vínculos, se mantem distantes – estes nunca entenderão esta carta. Há outros que fazem da igreja uma escolha, e então, passam por lá como se fosse numa família, criam vínculos, se aproximam, conhecem e são conhecidos – estes sabem que a ex-igreja continua sendo parte deles. Esta carta é um manifesto contra a ruptura de histórias, é um convite para a fraternidade do Reino.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
_______________________________
Artigo escrito em: 26 de Setembro de 2014