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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Igreja, curva do rio e desigrejados


“mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé”.
1 Timóteo 1:19 (NVI)

Os movimentos religiosos apresentam, cada qual, sua própria identidade, mesmo reconhecendo que há uma heterogeneidade nas formas de manifestações de cada uma. No Brasil, as três maiores religiões aqui presentes se expõem como: Espiritismo – crença na reencarnação, evolução do espírito e salvação pela caridade; Catolicismo – crença na mariolatria, intermediação dos santos, na autoridade vicária do Papa e valorização da tradição eclesial. Protestantismo – crença... no que mesmo? Se dissermos crença na infalibilidade/inerrância das Escrituras, isto seria questionável pelos papas evangélicos; se dissermos que é centralidade na Bíblia, isto é notoriamente destoante a partir das pregações dominicais; se dissermos crença na salvação apenas por meio de Jesus, isto também é questionável na prática neopentecostal tupiniquim; Além de não se saber hoje o que realmente estamos há protestar; então, sinceramente, não há nada nos evangélicos que os tornam excludentes, como uma espécie de identidade, pois dos pilares evangelicais boa parte das outras religiões igualmente comungam.

A bem da verdade, inúmeras pessoas se tornam evangélicas por não mais serem adeptas à identidade de outras religiões. Se você não acredita em reencarnação, não é lá muito amigável da ideia de mariolatria, então, te resta ser evangélico. Se você não gosta muito de mexer com espíritos e não é apadrinhado por algum santo, então, igualmente, só te resta ser evangélico. Não dá para ser Islâmico, ainda mais nestes tempos de midiatização da demonização ocidental na figura dos mulçumanos. Não dá para ser budista, até porque passividade e contemplação não são adjetivos presentes na modernidade capitalista urbana. Não dá para ser hinduísta, até porque o mundo ocidental está longe demais destas crenças e virtudes. Zoroastrismo, nem pensar. Religiões de adoração ao imperador ou a um rei, simplesmente não tem nada haver com nossa brasileiralidade. Ser da Umbanda ou Quimbanda, entre outras tantas bandas afrodescendentes, já são estereotipadas como religiões demoníacas. Taoísmo, Jainismo, Xintoísmo, Confucionismo... realmente não dá. Então, sinceramente, no Brasil, só resta ser evangélico. Não por opção, mas por falta de opção indenitária. E é ai que entra a curva do rio...

A curva do rio é onde fica preso, engastalhado e emaranhado toda sorte de sujeira que desce rio abaixo. A curva do rio é um depósito de dejetos e lixos que não se afixaram em lugar algum do rio, até encontrar a curva. Neste local é possível descobrir várias coisas não pertencentes ao rio, mas que por alguma razão precedente, desceu rio abaixo ficando aprisionado lá na curva. Assim é a igreja evangélica brasileira (e talvez a igreja evangélica no mundo), uma igreja que abarca tudo aquilo que não se encaixa em outras religiões. Se você não se atrelou a nenhuma outra religião ao longo da sua descida rio abaixo, é bem provável que você fique aqui, na igreja evangélica. Portanto, sem nenhuma ironia, a igreja evangélica se tornou a curva do rio. Lá tem toda sorte de tranqueira: tem gente meio espiritualizada (diferente de espiritual), mas que não quer ser espírita; tem gente com fortes tradições católicas, mas que não quer ser católico; tem gente com potencial para ser fanático, tipo homem bomba, mas que não quer ser islâmico; tem gente que adora a mãe natureza e a contemplação do vazio, mas que não quer ser panteísta ou algo do gênero. Tudo isto vai parar na “acolhedora” curva do rio, chamada carinhosamente de igreja evangélica.

Na curva do rio surgiram a universal, a mundial, a internacional, os templários, a plenitude e tantos outros lixos religiosos que desceram rio abaixo até encontrar o local ideal para proliferar e criar um habitat propício para germes, fungos e lodos. Tristemente, encontraram a igreja evangélica. Ali estão em processo de decomposição e putrefação, mas como tem muita gente descendo o rio, então, há uma forte probabilidade de muitos ficarem engastalhado lá na maldita curva do rio. É fato que estes tipos de lixo não seriam suportados em outros ambientes religiosos. Apenas na igreja evangélica, estes dementes-religiosos conseguem fixar moradia e coexistir. Estes esquizofrênicos-espirituais sabem que a curva do rio, chamada igreja evangélica, vai tolerar e provavelmente apoiar quase toda tranqueira mística. Então, na tentativa de ser acolhedora, a igreja evangélica abarcou doutrinas ultrajantes e até demoníacas. Coisas estas que encalharam na curva do rio, lá na igreja evangélica. Afinal, não é este o discurso mais comum entre os igrejeiros: “venha como você está”. Então... eles vieram, exatamente como estavam.

Um número considerável de cristãos evangélicos protestantes, ao se aperceberem na enrascada indenitária que a igreja evangélica se enlameou, lá naquela curva do rio, escolheram repelir-se do grupo. Ao se darem conta que ser evangélico não mais representa uma identidade especifica, mas sim um compêndio de forças estranhas, portanto, não mais se identificaram com as matrizes evangélicas. Ao se verem confusos sobre o embaralhar das rotulações clássicas: Históricos, Pentecostais e Neopentecostais, e não mais saberem no que realmente acredita-se, preferiram se distanciar. Então, estes cristãos evocando um pouco de sanidade e sobriedade, escolheram descer rio abaixo, não mais se identificando com a igreja evangélica, a estes foram denominados de desigrejados. É óbvio que o movimento denominado de desigrejados é bastante pluri, a semelhança da expurgada igreja evangélica. Há desigrejados por consciência, outros por malandragem, os por sanidade, alguns por preguiça, outros tantos por amor, vários por ódio, há os por reverencia, também há os por causa de birras ministeriais... Ser desigrejado é levar um pouco da seiva tóxica da igreja evangélica.

O movimento dos desigrajedos não é novo, apenas recebeu um raio gourmetizador na pós-modernidade, ganhando status pretencioso de remanescentes. A ideia de ser desigrejado também não é uma causa com identidade especifica, há uma heterogeneidade intrínseca, e mui provavelmente abarca incontáveis outras manifestações de descontentamento com a igreja evangélica. Até porque o que torna uma pessoa desigrejada é tão somente não mais se identificar com a igreja evangélica contemporânea. É até relativamente simples ser desigrejado, basta estar insatisfeito com os rumos da (pluri)igreja evangélica. Portanto, se os desigrejados não tomarem cuidado, é muito provável que estes se tornem na próxima curva do rio, lá embaixo, atraindo e acolhendo toda sorte de lixo que não mais quer se emporcalhar com os evangélicos. Afinal, é quase improvável que um ex-evangélico vá (ou volte) para alguma outra religião, por questão indenitária, conforme dito anteriormente.

Se a igreja evangélica brasileira se tornou um escombro de tranqueira a culpa é de todos nós, inclusive dos desigrejados. Até porque para ser desigrejado precisou ser, algum dia, igrejado. Contudo, ao contrário do que possa parecer, mesmo a despeito de todo lixo existente no contêiner igreja, acredito plenamente que Deus queira que a igreja evangélica seja esta curva no rio: suja, fedida e atrapalhada. É através das nossas limitações e desvirtudes que podemos desvelar Cristo, o perfeito. Não é quando somos bons que honramos Deus, mas sim quando reconhecemos que somos maus e que necessitamos diariamente da Graça. Não precisamos de um novo movimento, precisamos é de consciência de nossa podridão e importância do Caminho único, o Salvador. Não há necessidade do triunfalismo de sermos uma igreja de “santos lutando contra o pecado”, precisamos de uma igreja de pecadores lutando para ter santidade no presente século. E sobre todo este lixo evangélico, é bom que esteja ai, pois assim, cotidianamente, seremos seduzidos pelo lixo e isto desvelará as reais intenções dos nossos corações.

Não há apenas uma curva no rio. Há outras curvas mais atraentes, outras curvas com maior fluidez e outras curvas com belas flores, outras com galhos vigorosos. O rio é longo, e não estar engastalhado na curva dos evangélicos não torna alguém ou algum movimento mais aceitável, mais plausível perante Deus. Descer rio abaixo à procura de um novo movimento nas águas é coisa antiga, tem sim suas vantagens e também tem inúmeras limitações. Entretanto, o que poucos sabem é que cada vez que um lixo se desprende de uma curva do rio, este leva um pouco (quando não muito) da sujeira daquela referida curva. Da ilusão de pureza já tivemos demonstração suficiente do horror que é possível ser feito sob tais pressupostos, basta nos lembrar da curva do rio lá na Alemanha (refiro tanto a Lutero, quanto a Hitler – resguardo às devidas proporções e intenções).

Enfim, tenho convictas dúvidas se Deus quer que descemos o rio a procura de uma nova curva, que igualmente vai se emporcalhar. Talvez, nossa atual missão seja sermos o sal da igreja, retardando a putrefação desta. Talvez, nossa missão neste presente século seja ser a luz da igreja, evitando a cegueira total desta. Talvez, neste mundo tão evangelizado, precisemos voltar nossos olhos para a igreja e reenvangelizar. Talvez, seja o tempo de olharmos para trás ao invés de olhar pra frente. Talvez, seja o momento de pegarmos as enxadas, foices e rastelos, e então, começamos a limpar a nossa curva no rio, a começar de minhas próprias sujeiras e corrupções. Afinal, ainda há sete mil que não se dobraram a Baal (cf. 1 Rs 19:18). E convenhamos, sete mil enxadas, juntas, poderiam fazer uma boa limpeza...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Setembro de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A morte que foge


“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”.
Eclesiastes 1:2 (ACRF)

A percepção normal da vida é que ao fim sejamos embalados pela morte, como que num último ato poético da vivência. Há o entendimento que a morte é sintoma, apenas, daqueles que desistiram de viver, como se morrer fosse um sinal de desistência intencional.  Compreende-se que a morte é algo que ninguém quer, a não ser pelos devassos suicidas, que permanecem destoantes dos discursos espelhados. Entendemos, então, que fomos criados para viver isto que chamamos de vida, restringindo à morte o fim de todas as coisas, desconhecendo os limites e intenções dAquele que nunca morrerá, e que nos convida para à vida eterna.

A Dona Morte não é tão demonizante como a rotulamos historicamente e religiosamente. Talvez, a morte seja apenas um instrumento da Graça. Uma espécie de passaporte para a verdadeira vida, tipo um convite para algo verdadeiro. A Dona Morte bem poderia ser a agente promotora da libertação de nossas próprias futilidades humanas. Talvez, esta seja a visão do Eterno sobre a nossa brevidade temporal-histórica, que precisava se findar de alguma forma, para desvelar a Verdade, dai, a coadjuvante morte aparece na história, roubando a cena entre os mortais.

Salomão, especialmente no livro de Eclesiastes, ao olhar para a vida, percebeu o quanto tudo aqui, debaixo do sol, é inútil, desmetido, fútil, desvairado e incontível. Por isto, para ele, amar a vida é tão anêmico quanto odiar a morte. É preciso que nos reconectemos com a eternidade e dali perceber que viver ou morrer é apenas uma questão insignificante que temos que enfrentar nos dilemas existenciais. Portanto, viver não é tão belo como se encena, e nem morrer é tão terrível como se teatraliza.

O Deus que não tem início nem fim, que existe antes da eternidade, Ele que gerou vida no Éden e predestinou o fim de todas as coisas. Ele mesmo, ao contemplar nossa presunção de vida-morte nos convida a perceber nossa pequenez, como fez com Jó. Qual sentido de viver? Qual o proposito em morrer? Estas questões não se respondem pelo que conhecemos, pois não somos autônomos ou independentes de uma História maior, incognoscível a nós. Afinal, ninguém voltou da morte para dizer como se vive lá, nem ninguém deixou de viver para contradizer a morte. É por isto, que toda esta espetacularização da vida-morte é pura vaidade, reitera Salomão.

Desejar morrer não é querer suicidar (no que tange aos postos padrões categorizáveis da sociedade contemporânea), e nem constitui num ato de desrespeito ao Autor da Vida (como se Deus e a morte vivessem a lutar numa batalha épica pela humanidade). Desejar o encontro com a Dona Morte é ato de bravura indômita de gente que entende que a morte pode ser um ato de profunda reverência ao Carpinteiro e preservação da história cristã, para além de nós mesmos.

A morte é bem-vinda quando o pecado já é indivisível a nossa personalidade, tornando a existência uma tormenta insuportável, com dores alucinógenas de consciência. E não é simples abandonar os pecados que nos definem, pois os próprios pecados são submetidos a critérios de avaliação coletiva que julga entre pecados aceitáveis e pecados não aceitáveis. Para Deus pode até não haver diferença entre ambos, mas para a sociedade, e para a igreja, há enorme distinção. Há pecados com consequências diferentes, apesar da mesma natureza. Contudo, para aqueles mortais que carregam o estigma do pecado não tolerável, a estes a busca pela morte é uma questão de vida.

Ao conhecer a Cristo, a vida se resignifica. Entretanto, o difícil não se converter, mas sim permanecer convertido. E desta distinção entre um momento sui generis como a conversão para um cotidiano convertido, há um abismo gigantesco. Então, há aqueles que percebem que não tem para onde ir, só Jesus tem as palavras de vida eterna (conforme acentua Pedro em Jo 6:68), porém estranhamente seus corações e intenções vão se distanciando do Reino. Quando estes se apercebem do quanto suas histórias perderam sentido, então buscam a morte. Buscam-na não por demérito ou fraqueza, mas por zelo em não corromper a eclesia em artimanhas sutis de manutenção do status quo e, principalmente, para que haja preservação dos santos que conseguiram permanecer firmes.

A morte pode ser um refúgio para aqueles que muito tentaram e quase sempre fracassaram. Há quem consiga superar os mais improváveis desafios da vida e ainda sim permanecer em pé. Parabéns para estes, mas isto não quer dizer que todos conseguem. E contra argumentar que se alguém conseguiu, então, outros podem conseguir, é considerar todos iguais. O que definitivamente não o somos. A nossa idiossincrasia nos permite não conseguir o que muitos conseguem facilmente, pois somos diferentes. Criados com propósito diferentes. Inclusive, alguns criados como “vasos de desonra” (cf. Rm 9:21). Entretanto, para estes pode até ser que aceitem o destino inglório, mas não significa que tem prazer nesta vida. Para estes a morte se torna num descanso para uma história de desonra ao Mestre, a semelhança de Judas (cf. Mt. 27:3-5).

Há muitas pessoas que buscam a morte, diariamente, de forma disfarçada para não serem identificados como suicidas ou outras designações depreciativas frente aos abutres sapiens. Arriscam suas vidas de diversas formas, esperam um acidente qualquer, aguardam um erro do sistema, torcem para algo dar erro. Mas... ainda sim a morte foge para longe e acomete em lugares distantes com pessoas improváveis. Isto acontece, pois a morte (assim como a vida) não está a serviço de nossas histórias, intenções e desejos. Viver ou morrer não são opções disponíveis a nossa temporalidade.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 19 de Agosto de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A cultura de guerrilha dos evangélicos brasileiros


"O Deus da paz seja com todos vocês. Amém”.
Romanos 15:33 (NVI) 

Ao se fazer uma análise de qualquer que seja o fato, é preciso que haja um norte indicativo dos valores históricos e culturais do referido tempo a que se refere, bem como saber acerca da implicação de significados linguísticos da referida época. Não se pode julgar o passado com a balança do presente, pois sendo assim não haverá coerência na análise, e provavelmente será acometido de injustos comentários.  É preciso ir se contextualizando para torna os discursos adequados e apropriados para cada tempo. Neste viés, os evangélicos tupiniquins, às vezes, parecem estar vivendo hoje, alguns séculos atrasados: com pregações arcaicas de enfrentamento do inimigo, jargões ultrapassados com tons territoriais e louvor com mensagens obsoletas de triunfalismo tático. De uma forma geral, ainda se é praticado nos rincões gospeis uma cultura de guerrilha. Talvez, num passado distante tais temáticas tivessem conexões com a cultura local, mas atualmente, é necessário reavaliar sua importância e aplicabilidade religiosa.

A cultura de guerra que orbita em torno das igrejas tupiniquins tem sua relevância embrionária, até justificável, do ponto de vista histórico-bíblico, mas continuar a pratica-la hoje é no mínimo bizarro e desconexo. A história bíblica, especialmente o Antigo Testamento, é engordurado de guerras entre os povos, o que fica notório nos salmos, orações e discursos veterotestamentarios. Falar de guerra e inimigo era o contexto da referida geração e nação. Ingressados no Novo Testamento, ainda se vivencia uma cultura de expansão dos impérios por meio das guerras, especialmente o Romano, o que influenciou igualmente alguns ditames de guerrilha nos textos neotestamentarios.

A bíblia expõe certa cultura de guerra, pois este era o contexto imediato destes. Passados os anos, e mesmo no findar do século XX, e início do século XXI, ainda se tem guerras no mundo, e ao que tudo indica, sempre haverá. Contudo, tais contextos nem sempre fazem parte do cotidiano de muitos cristãos e nações, a exemplo do Brasil, que mui raramente se envolve com guerras bélicas ou de expansão territorial.  Entretanto, ao adentrar nas igrejas brasileiras, especialmente as de linha neopentecostal, o cenário de guerrilha é perceptível efervescente e notoriamente conquistador. Os cânticos denunciam nossa paixão pela guerra, nossas roupas simulando camuflagem evoca o espírito de guerrilha e os pregadores esbravejam ordem de comando. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

Os discursos de batalha espiritual só agravou o cenário de brutalidade, conquista e neurose. Entra no ringue: Diabo, Deus, anjos, cristãos e os não-cristãos. Neste balaio de desorientação e perda de identidade percebe-se os cristãos se achando os guerreiros imbatíveis, com estratégias de guerra supostamente espiritual, mas com implicações territoriais, politicas e financeiras. Percebe-se igualmente um Deus fraco, que precisa de nossa permissão para fazer as coisas, sendo este Deus legalista, limitado e rendido aos propósitos da igreja. Percebe-se um Diabo forte, que mesmo a Bíblia tendo assegurado que ele já perdeu por causa da obra da cruz de Cristo, ainda os cristãos estão chamando o Diabo para guerra. Percebe-se os anjos como soldados do além para guerrilhar e ameaçar os ímpios, como se os anjos fossem assombrações para atormentar os que não se alistaram ao exercito igrejeiro. E percebe-se os não cristãos como o alvo para fazer as igrejas crescerem, não por causa do amor, mas sim pela força sinérgica de guerrilha de se ter muita gente aglomerada. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

A cultura de guerra que emerge de nossas cerimonias religiosas gospeis-tupiniquim é algo importado, não apenas pelo contexto cultural dos autores bíblicos, mas especialmente dos Estados Unidos, que insistem em ter uma cultura de guerra ao terror árabe, vietnamita e iraniano. Boa parte das canções do louvor são traduções de canções em inglês, quase todos os livros teológicos e de gênero espiritual tem como autores pessoas norte-americanas e grande parte dos modelos de crescimento de igrejas também são estadunidense. Enfim, a igreja brasileira está em guerra!

As pessoas que vivenciaram a segunda guerra mundial (1945), e a geração imediatamente posterior, que ainda respirou os ensaios da guerra fria (1989), tem em suas percepções culturais um DNA de guerrilha indivisível. O que consequentemente influenciou a liturgia da igreja neste período histórico. Contudo, já é tempo de tentarmos impregnar na igreja uma nova cultura, uma cultura de paz. Uma cultura de amor. A cultura de Jesus Cristo. A cultura de Deus. O escritor e poeta Jonathan Swift (1667-1745) já denunciava, muito antes de nossas contemporâneas guerras, tal necessidade de mudança na cultura religiosa ao afirmar: “nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.

Deus sempre usou a cultura local para se comunicar, tornar-se conhecido, e para tanto, obviamente usou, no contexto bíblico, da linguem de guerra para mostrar sua força - uma forma de atropopatismo hermenêutico, coerente com a cultural da época. Contudo, a cultura mudou, e Deus quer valer-se desta nova cultura tupiniquim para continuar a ser conhecido, como dantes, a partir de nossa atual cosmovisão. Entretanto, enquanto usarmos padrões culturais desconexos e destemporalizados não será possível haver conexões com o Carpinteiro.  Talvez, por esta razão é que haja tanto barulho em nossas igrejas, na tentativa de chamar a atenção de Deus. Talvez, por isto haja tantas pessoas fingindo espiritualidade nas igrejas, na tentativa compensar os vazios da guerra. Talvez por causa disto que ainda queremos guerrear, na tentativa de encontra o “cativeiro” do Príncipe da Paz.

A cultura de guerra nas igrejas evangélicas brasileira fora um catalizador de culturas de povos bíblicos e de culturas estrangeiras, culturas estas que não representam nossa cultura tupiniquim. E Deus quer ser conhecido pelos brasileiros, não com sotaque gringo, nem com estirpe hebraica. Deus quer ser brasileiro, fazer parte desta historia, e então, nos reconectar com a cultura celestial que invariavelmente comunga do amor, paz e fraternidade. É preciso que o Reino seja efetivamente implantado em nossa cultura, transformando nossas vidas e nos transportando para Reino do Seu amor (cf. Cl. 1:13). Enfim, a igreja brasileira está em guerra! E Deus está nos oferecendo a paz.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 02 de Agosto de 2015

terça-feira, 28 de julho de 2015

Um Reino todo meu


“Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas lhes serão acrescentadas”.
Lucas 12:31 (NVI)

O convite do Carpinteiro é para que sejam parecidos com Ele, este é o principio do discipulado. O convite é para que nos acheguemos ao Mestre como bois bravos que vão sendo cangados ao boi manso e sendo, gradativamente, transformados por aqui que Ele é: "manso e humilde de coração" (Mt 11:29). O convite é para que desaprendamos a possuir nossas próprias vidas, entregando-a, despretensiosamente, ao bom pastor (cf. Jo 10). O convite é para entrar no Reino.

No Reino, em que o Rei é um Carpinteiro, se torna desnecessário o esbravejar daqueles bobos da corte que ainda acreditam que por meio de traquinagens podem ser aplaudidos. O Reino é para aqueles que descobriram que o Sol da Justiça brilha eternamente e que por isto não há espaço para os temporários lampejos daqueles que se acham estrelas. No Reino não há disputa, pois não há nada em jogo. No Reino não há lugar para vencedores, pois lá não há perdedores.

Por meio do discipulado o Carpinteiro nos mostra o Reino, Reino dEle, para Ele, por Ele, nEle. Um Reino que insiste em estar entre nós, apesar de nós. Um Reino que tem dono, e que jamais tem Sua soberania abalada. É neste Reino que Jesus nos convida a adentrar. É neste Reino de pessoas transformadas, que se torna possível chamar de meu Reino - meu não como pronome possessivo, mas meu por denotar ter encontrado um lugar para se estar, e lá ficar.

O convite do Carpinteiro não é para assistir o Reino acontecendo, mas sim para fazer parte desta história de redenção, justificação e metamorfose. Um Reino todo meu, para servir, amar, ajudar, perdoar, ombrear e sobre tudo glorificar ao Rei por meio da simplicidade de se estar no Reino. Este é o lugar. Este é o meu lugar. Bem vindo ao Reino...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 28 de Julho de 2015