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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da diferença entre falar em público e pregar


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI) 

É preciso distinguir entre música e louvor (vide artigo “da diferença entre música e louvor”, do mesmo autor), então, igualmente é imprescindível que se diferencie o falar em público e o pregar. Obviamente que em ambos os casos boa parte da teoria, especialmente no que tange a oratória e retórica, são mui congruentes e convergentes. Entretanto, o objetivo final de ambas ações são estratosfericamente distantes e por vezes opostos entre si. Ao falar em público espera-se que o que discursa seja capaz de persuadir os ouvintes a algo, e isto se dá pela capacidade individual deste de ser articulado com as palavras, convincente quanto às pressuposições conceituais e carismático junto à plateia. De contra partida, mesmo reconhecendo que as alíneas anteriores são importantes, há algo mais importante: que o pregador seja fiel à Palavra, expondo as Escrituras com simplicidade, humildade e com profundo temor ao Senhor, ainda que isto não venha regado de eloquência ou retórica.

Pregar é falar em público, mas nem todo falar em público é uma exposição bíblica, isto é óbvio. Então, é igualmente óbvio que se atente sobre as características elementares de cada uma destas ações para não confundir os “palcos” e valer-se de pressupostos errados, emporcalhando a mensagem, tornando-a assim impropria. Quando se fala em público a indumentária e a postura do que discursa tem extrema importância no processo de convencimento, mas, de contra partida, na exposição das Escrituras a figura do mensageiro é o menor detalhe, o que importa é a grandiosidade da mensagem, que não depende da beleza estética do mensageiro. Num púlpito a mensagem supera as qualidades e deformidades do mensageiro. A Boa Notícia é completa em si e não precisa de retoques estilizados daqueles que a profere. Alias, é preferível que o pregador/mensageiro não roube a cena, mas saiba elevar os holofotes para A Única Mensagem. O pregador é um coadjuvante, não o ator principal.

Falar em público requer uma boa performance individual, pregar, por mais que aparentemente seja uma só pessoa a discursar no microfone, é no entanto, na verdade, uma ação coletiva de culto e devoção a Deus. A pregação implica em uma continuidade do culto público que se está fazendo, por isto não é um momento solo, desassociado das etapas anteriores e posteriores da liturgia. Por esta mesma razão o púlpito não deve ser monopolizado por apenas uma pessoa, domingo após domingo. A pregação é parte da igreja e, então, deve ser partilhada pela igreja. Púlpito não é lugar para se destacar, mas para continuar a cultuar; não é lugar para performance, mas sim pra servir; não é lugar para ostentação, mas para contrição; não é lugar para aplaudir, mas para se ajoelhar; não é lugar para ver os outros, mas sim para ajudar os outros.

Quando se confundi falar em público com pregar, três coisas acontecem: 1) pregadores (pastores) são venerados – expressões como “este é homem de Deus” são formas sutis de admiração exagerada que incha o ego do pregador, mesmo que despretensiosamente. Pregadores não deveriam ser elogiados por suas pregações, pois é o elogio o principal agente corrosivo da humildade, humildade esta elementar para ser pregador; 2) preocupa-se mais com a embalagem da mensagem do que com o conteúdo – quando começa-se a medir uma pregação pela quantidade de “glórias a Deus” que se escuta da plateia, ou quando começa-se a medir um pregador pelo reboliço que ele traz para a igreja, então, estes pregadores se esquecem que pregação não tem muito haver com popularidade, estratégia ou carisma, mas tem haver, única e exclusivamente, com a manutenção da glória de Deus [que é o conteúdo supremo]; e, 3) elitiza-se o púlpito – no contexto tupiniquim isto é evidente ao ponto de em quase todos os domingos do ano só se vê as mesmas figurinhas nos púlpitos, domingo após domingo. Isto acontece, pois há quem pense, erradamente, que pregação (e louvor) é para os bons.

Pregar é muito mais que falar em público, é parte intrínseca do ser Igreja. Pregação não é para pouco, mas deveria sim ser algo, naturalmente, partilhado por todos aqueles que integram a comunidade. Pregar é ensinar a Palavra, é compartilhar do Reino, é dialogar acerca da fé, é conversar sobre Aquele que mudou nossas vidas. Portanto, insisto, a pregação precisa ser popularizada e assim fugir aos rótulos do falar em público. Quanto mais a igreja coloca a pregação no campo do falar em público, mas distante se torna A mensagem do Carpinteiro, que preferiu discursar em meio às pessoas, com coisas simples, por meio de gente simples (discípulos) e finalizou o ministério terreno convocando: “ide, pregai o Evangelho...” Mc 16:15. Por conseguinte, mesmo que não saiba falar em público, é preciso que se pregue.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 29 de Dezembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

Da diferença entre música e louvor


“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!”
Romanos 11:36 (NVI)

É preciso distinguir entre música e louvor. Por mais que em ambos os casos os pressupostos e parte da teoria possam ser congruentes, ruge a necessidade de distingui-los. Da mesma maneira que se distingue entre música e som, ou da distinção entre música e ruído. Louvor é diferente de música. É imperativo que analise a partir do pressuposto de que somos parte da Igreja, e neste contexto as imagens agregam, sintomaticamente, perspectivas antagônicas às figuras seculares. Por mais que numa foto ambos possam ser mui semelhantes,  na essência são abruptamente opostos. A diferença parte do que somos, pois na Igreja, aquele que quiser ganhar, terá que perder (cf. Mt. 10:39); quem tem duas capanga, terá que dar uma (cf. Lc. 3:11); quem é forte, terá que andar com fracos (cf. Rm. 15:1); quem quiser ser o maior, terá que ser o menor (cf. Mt. 23:11), e assim sucessivamente. Então, se a matriz do Reino é inversa, nada mais sensato que admitir que fazer música não é fazer louvor (e vice versa). Esta inversão de conceitos e fundamentos se dá, única e exclusivamente, pelo fato de que no Reino o Rei é um Carpinteiro, e Este se despiu de Sua glória, mostrando que aqui, no Reino, os valores e significados são outros.

Fazer música e fazer louvor tem lá suas similitudes, porem também tem suas inúmeras limitações. No louvor, esperasse que seja congregacional, isto é, que não se assista alguém cantar/tocar, mas que todos os presentes cantem juntos. Diferente de uma apresentação musical, em que se espera o silêncio da planteia para admirar a performance do músico/cantor. Por estar razão, na Igreja, é preciso cantar músicas que as pessoas saibam cantar, o tom da música tem que ser acessível à maioria e os arranjos tem que favorecer a integração dos presentes. Na igreja, assim como numa apresentação musical, é preciso ter técnica e conhecimento teórico-musical. Contudo, na igreja o mais importante não é a volumosidade técnica, mais sim fazer o melhor, dentro do conhecimento técnico que se tem com fins a facilitar o processo exaltação de Deus, por meio da música congregacional. Qualquer atitude que desconecte alguns do todo converge em pavonice e exibicionismo – distintivos inapropriados a simplicidade do Reino.

Numa apresentação musical, o artista já sobe ao palco com noção integral do inicio, desenvolvimento e fim da canção. Neste caso já se sabe que parte vão se repetir e quantas vezes, segue-se um padrão pré-estabelecido para melhor qualidade técnica da apresentação. Entretanto, na Igreja, as canções não estão postas de forma pré-estabelecida, pois as repetições de estrofes, entre outros detalhes musicais, depende da congregação e do intuito da canção no contexto da comunidade em que se está cantando. Na Igreja as músicas do louvor precisam ter vida coletiva. Ou seja, no louvor é preciso ter uma certa flexibilidade e adaptabilidade, pois afinal, o louvor é congregacional. Outro detalhe é a postura do pessoal que está com os microfones, é preciso ter sensatez para não entrar numa pavocine desnecessária com gesticulações e vestimentas que favorecem a performance de alguns ao invés de coletivizar as canções. Estar com o microfone não é motivo de destaque, apenas serve para amplificação sonora e norte da música junto à comunidade. Então, o propósito do microfone é ajudar, não destacar.

No cenário eclesiástico, os ditos “ministros de louvor” (terminologia que precisaria de uma reconfiguração mais adequada à coletividade) confundem os papéis, pois não poucas vezes “esquecem” de cantar e aventuram-se numa pregação inter musical que estes chamam de ministração (porem mais se assemelham a pagação de sapo grupal ou animação de plateia – em ambas as situações, desnecessárias ao que se propõem a Igreja). Neste quesito, o músico secular, numa apresentação musical, é mais adequado, pois geralmente, músicos tocam música (e cantores, cantam) – o que deveria também ser na igreja: que o momento de louvor, seja louvor. É necessário ainda que se critique a capacidade de discurso bíblico-pastoral destes ditos “ministros de louvor”, pois não é exceção ouvir toda sorte de heresia e aberrações igrejeiras oriundos da boca destes “levitas” (designação inapropriada aos músicos de igrejas). Deixar as pessoas em pé ouvindo um papagaio gospel taguarelar é minar as bases do louvor congregacional.

Na igreja, portanto, o que mais importa, para participar do louvor, não é saber tocar/cantar, pois não se está numa audição. O mais importante é que sejamos cristãos. A grande maioria dos que congregam numa Igreja não tem lá muito conhecimento técnico-musical, sendo assim não estão tão preocupados se o violinista conseguiu fazer aquela nota dificílima, ou se o cantor conseguiu fazer aquela nota com exatidão, ou se o tecladista esqueceu uma nota numa momento qualquer, ou coisa do gênero. Na igreja não estamos para avaliar cantores e músicos, estamos para, juntos, adorar o Carpinteiro por meio da música (é válido destacar que o termo adoração não é próprio da música, portanto, pode-se adorar a Deus, inclusive e preferencialmente, sem música). Obviamente, que este discurso não abre brechas para uma completa anarquia musical e desordem técnica, não sejamos extremistas infantis. O que se propõem aqui é que não se esqueça que estamos numa igreja, não num teatro; que estamos num púlpito, não num palco; que estamos entre irmãos, não entre fãs, que estamos servindo a Deus, não os homens; que estamos louvando coletivamente; não cantando para uma coletividade; enfim, que estamos fazendo louvor, não música.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 28 de Novembro de 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aos pastores que não desistiram, ainda...


"Sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo”.
Colossenses 3:24 (NVI)

O presente tempo conseguiu criar um ser religioso que parece ser pastor, tem título de pastor e segue todos os estereótipos de pastor, mas... não é pastor. Estes pseudos-pastores ficam a disseminar teologias de frases de parachoque de caminhão pela cristandade tupiniquim. São amantes da lógica meritocrática: faça o bem e vai dar tudo bem; façam o mal e sofrerá o mal. São oradores vazios, distantes e fantasiosos. Estes se tornaram pastores não por convicção, mas por segundas intenções: quer seja por status, por dinheiro, por orgulho, por malandragem, por mulheres ou qualquer outra coisa que chame a atenção da crentaiada. São estes mesmos que mais contribuem para que os pastores queiram desistir, pois banalizam o ser pastor, e quando fazem isto não emporcalham apenas o título de pastor, mas sim a identidade pastoral. Eis a razão porque várias pessoas não mais querem serem identificadas com a figura do pastor. Tristemente, são os “bons” que cansam, não os maus, pois afinal os maus pastores se dão bem no jogo igrejeiro. E de tanto ver isto, vários pastores preferem desistir.

O próprio título de pastor já é um bom motivo para que alguns queiram desistir. De fato, o título de pastor, para muitos, é uma pavonice desvairada. Valer-se do título de pastor não é valer-se de autoridade, é abusar da autoridade. Pastor é função, e função temporária. Somente no arraial evangélico o título de pastor (ou qualquer outra hierarquia eclesial) é vitalício. Entretanto, só se é pastor por estar pastoreando, não havendo isto, então, não mais é pastor, mesmo que tenha o título. O que torna alguém pastor é o ato de pastorear. Então, ser pastor é ter tempo de validade determinado, e isto não é ruim, é reconhecer que Deus não precisa de highlander’s. O que Deus quer é que façamos o melhor possível no tempo que Ele permitir que pastoremos. A Igreja sobrevive e sobreviverá aos pastores. Entretanto, é preciso diferenciar pastorear com gerenciar, diferenciar pastorear com pregar, diferenciar pastorear com motivar, entre outras variantes temáticas. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que pastorear (diferente do psuedos-pastores) é um convite para o anonimato, invisibilidade e discrição. Ser pastor é entender que somos apenas garçons a servir a comunidade, o dono do Reino já está posto, o Carpinteiro, o Eterno.

Não são apenas os pseudos-pastores que geram desejos de desistência nos pastores, há muita coisa na igreja que faz os pastores querem desistir. Em muitos casos, ser pastor significa comprometer a renda familiar em prol da comunidade, e isto com o tempo desgasta, fadiga e desanima os pastores. Perceber que poucos na comunidade conseguem romper a linha do espetáculo dominical e ombrear assumindo responsabilidades é uma das principais causas que faz com que muitos pastores avaliem suas próprias convicções e pensem em desistir. Tristemente, no Brasil aprendemos uma liturgia muito dependente da figura do pastor, o que em pouco tempo se mostrou pesada e sufocante para muitos destes ministros. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois percebem que ao invés de estarem num ambiente de fraternidade, estão numa relação desgastante de cliente e funcionário, relação está que se autêntica na insistência do “pagar” o dizimo, criando uma relação financeira de membresia. Não se pode perder de vista que ser pastor é, antes de qualquer coisa, uma atitude de voluntariado, doação, entrega, altruísmo, mordomia e serviço junto a fraternidade.

As igrejas sem perceberem estão perdendo seus pastores, pouco a pouco estão sendo substituídos, sorrateiramente. Contudo, tal substituição não é natural e nem espontânea, muitos estão sendo “despedidos”, lançados fora na lixeira. Geralmente são os pastores com a idade mais avançada que sofrem de tal tormenta. Infelizmente, em solos tupiniquins nos encantamos com o entusiasmo dos jovens pastores e, então, estupidamente, abandonamos os velhos pastores. Juventude é bom, sem dúvida. Entretanto, sem a sabedoria peculiar aos velhos, se torna precipitação, meninice e vaidade. A igreja deveria ser o habitat natural para que a diversidade dialogasse e como um corpo fosse se ajustando mutuamente. Eis a razão porque várias pessoas querem desistir do pastoreio, pois com um pouco de percepção de cenário eclesial, facilmente notaria que todo esforço em prol do Reino será disperso, em pouco tempo após a “ausência” do pastor, pouco se lembrariam deste ou dos esforços deste. Antevendo tal depressão pós-pastoreio, muitos preferem desistir do pastoreio e, então, escolhem viver suas próprias vidas, fazendo o que dá, quando dá, do jeito que dá, sem muito se dar. Comprovando tal perspectiva, há estatísticas que apresentam a figura do pastor como uma das principais “carreiras” com morte prematura, entorno de 40 a 50 anos de idade. Então, não há dúvida que ser pastor é desgastante, por isto muitos querem desistir. Ser pastor é um convite a desgastar-se, a semelhança de um milho num ralador.

Aos ler os parágrafos anteriores muitos podem ter tido suas convicções de desistir do pastoreio reconfirmadas. Outros tantos, podem ter tido apenas a certeza que eu suavizei os reais problemas, pois sabem na prática, que ser pastor é mais complexo e muito mais tenso do que as linhas anteriores descreveram. Contudo, para ambos os casos, quero propor uma reflexão para aqueles que não desistiram, ainda... e inicio tal jornada partindo do pressuposto de que o pastoreio é um misto de chamado de Deus e disposição humana. Paulo afirma que “se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja” (1 Tm 3:1), porém o próprio Paulo também afirma que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2:13). Ser pastor é algo intencional. Não podemos admitir que pastores sejam a última opção de gente fracassada: não conseguiu ter um profissão, não conseguiu ter seu próprio negócio, não tem emprego... então, se torna pastor. Pastoreio é uma escolha intencional de fé e entrega ao Carpinteiro. Pastoreio é opção não falta de opção.

Ser “homo pastorius” é conviver com a dúvida da desistência, sempre. Contudo, isto não deve ser um limitador do ministério. A dúvida não deveria ser tão demonizada, pois é no campo da dúvida que as certezas se estabelecem. É somente quando nos permitimos indagar nossas próprias convicções é que teremos condição de encontrar respostas. É por meio da incerteza que descobrimos o caminho de descansar em Deus. Por esta razão, nunca saberemos ao certo se é hora de desistir ou de persistir, apenas tomaremos uma das duas decisões. O tempo, com toda imanência de Deus desvelará o caminho. Ser pastor é descobrir-se, dia após dia. Então, é preciso despir do encargo de oraculo dos céus, uma espécie de Hermes ocidental, e reconhecer que não saber o que fazer é reconhecer que pastores também são humanos. Para tanto, é imprescindível admitir que pastores não são “seres” mais próximos de Deus, não tem poder especial, não detém acesso diferenciado aos céus e nem é uma espécie de intermediário divino. Pastor é um convite para se misturar as ovelhas e apontar para o Pastor de nossas almas. Pastor não é um privilegio é uma responsabilidade.

E se algum pastor desistir... ou melhor, se mais alguns pastores desistirem, que estes não sejam estereotipados com a marca da besta gospel. Desistir pode ser a forma mais sublime de reverência que estes pastores encontraram de servir a Deus. Não podemos dicotomizar entre vencedores e perdedores. Quem gosta destas rotulações são pessoas temporais, que não entendem da eternidade, que se engorduram com categorização infantil. Não há pastores vencedores e outros tantos perdedores, somente há pastores. Se não são igrejas que estabelecem pastores, mas sim Deus, então, é Ele quem conduz a jornada de cada um, conforme lhe apraz, inclusive de forma contraditória aos padrões terrenos e eclesiásticos. Sendo assim, pastorear está para além de igrejas. Os pastores não existem para cuidar de igrejas, até podem fazer isto, mas pastores existem para cumprir os designíos do Carpinteiro. Esta missão pastoral pode ser acolhedora, numa igreja; ou solitária, num exilio eclesiástico. Por esta razão, alguns desistiram (ou querem desistir) do pastoreio para não deixarem de ser pastores.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 13 de Outubro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Igreja, curva do rio e desigrejados


“mantendo a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé”.
1 Timóteo 1:19 (NVI)

Os movimentos religiosos apresentam, cada qual, sua própria identidade, mesmo reconhecendo que há uma heterogeneidade nas formas de manifestações de cada uma. No Brasil, as três maiores religiões aqui presentes se expõem como: Espiritismo – crença na reencarnação, evolução do espírito e salvação pela caridade; Catolicismo – crença na mariolatria, intermediação dos santos, na autoridade vicária do Papa e valorização da tradição eclesial. Protestantismo – crença... no que mesmo? Se dissermos crença na infalibilidade/inerrância das Escrituras, isto seria questionável pelos papas evangélicos; se dissermos que é centralidade na Bíblia, isto é notoriamente destoante a partir das pregações dominicais; se dissermos crença na salvação apenas por meio de Jesus, isto também é questionável na prática neopentecostal tupiniquim; Além de não se saber hoje o que realmente estamos há protestar; então, sinceramente, não há nada nos evangélicos que os tornam excludentes, como uma espécie de identidade, pois dos pilares evangelicais boa parte das outras religiões igualmente comungam.

A bem da verdade, inúmeras pessoas se tornam evangélicas por não mais serem adeptas à identidade de outras religiões. Se você não acredita em reencarnação, não é lá muito amigável da ideia de mariolatria, então, te resta ser evangélico. Se você não gosta muito de mexer com espíritos e não é apadrinhado por algum santo, então, igualmente, só te resta ser evangélico. Não dá para ser Islâmico, ainda mais nestes tempos de midiatização da demonização ocidental na figura dos mulçumanos. Não dá para ser budista, até porque passividade e contemplação não são adjetivos presentes na modernidade capitalista urbana. Não dá para ser hinduísta, até porque o mundo ocidental está longe demais destas crenças e virtudes. Zoroastrismo, nem pensar. Religiões de adoração ao imperador ou a um rei, simplesmente não tem nada haver com nossa brasileiralidade. Ser da Umbanda ou Quimbanda, entre outras tantas bandas afrodescendentes, já são estereotipadas como religiões demoníacas. Taoísmo, Jainismo, Xintoísmo, Confucionismo... realmente não dá. Então, sinceramente, no Brasil, só resta ser evangélico. Não por opção, mas por falta de opção indenitária. E é ai que entra a curva do rio...

A curva do rio é onde fica preso, engastalhado e emaranhado toda sorte de sujeira que desce rio abaixo. A curva do rio é um depósito de dejetos e lixos que não se afixaram em lugar algum do rio, até encontrar a curva. Neste local é possível descobrir várias coisas não pertencentes ao rio, mas que por alguma razão precedente, desceu rio abaixo ficando aprisionado lá na curva. Assim é a igreja evangélica brasileira (e talvez a igreja evangélica no mundo), uma igreja que abarca tudo aquilo que não se encaixa em outras religiões. Se você não se atrelou a nenhuma outra religião ao longo da sua descida rio abaixo, é bem provável que você fique aqui, na igreja evangélica. Portanto, sem nenhuma ironia, a igreja evangélica se tornou a curva do rio. Lá tem toda sorte de tranqueira: tem gente meio espiritualizada (diferente de espiritual), mas que não quer ser espírita; tem gente com fortes tradições católicas, mas que não quer ser católico; tem gente com potencial para ser fanático, tipo homem bomba, mas que não quer ser islâmico; tem gente que adora a mãe natureza e a contemplação do vazio, mas que não quer ser panteísta ou algo do gênero. Tudo isto vai parar na “acolhedora” curva do rio, chamada carinhosamente de igreja evangélica.

Na curva do rio surgiram a universal, a mundial, a internacional, os templários, a plenitude e tantos outros lixos religiosos que desceram rio abaixo até encontrar o local ideal para proliferar e criar um habitat propício para germes, fungos e lodos. Tristemente, encontraram a igreja evangélica. Ali estão em processo de decomposição e putrefação, mas como tem muita gente descendo o rio, então, há uma forte probabilidade de muitos ficarem engastalhado lá na maldita curva do rio. É fato que estes tipos de lixo não seriam suportados em outros ambientes religiosos. Apenas na igreja evangélica, estes dementes-religiosos conseguem fixar moradia e coexistir. Estes esquizofrênicos-espirituais sabem que a curva do rio, chamada igreja evangélica, vai tolerar e provavelmente apoiar quase toda tranqueira mística. Então, na tentativa de ser acolhedora, a igreja evangélica abarcou doutrinas ultrajantes e até demoníacas. Coisas estas que encalharam na curva do rio, lá na igreja evangélica. Afinal, não é este o discurso mais comum entre os igrejeiros: “venha como você está”. Então... eles vieram, exatamente como estavam.

Um número considerável de cristãos evangélicos protestantes, ao se aperceberem na enrascada indenitária que a igreja evangélica se enlameou, lá naquela curva do rio, escolheram repelir-se do grupo. Ao se darem conta que ser evangélico não mais representa uma identidade especifica, mas sim um compêndio de forças estranhas, portanto, não mais se identificaram com as matrizes evangélicas. Ao se verem confusos sobre o embaralhar das rotulações clássicas: Históricos, Pentecostais e Neopentecostais, e não mais saberem no que realmente acredita-se, preferiram se distanciar. Então, estes cristãos evocando um pouco de sanidade e sobriedade, escolheram descer rio abaixo, não mais se identificando com a igreja evangélica, a estes foram denominados de desigrejados. É óbvio que o movimento denominado de desigrejados é bastante pluri, a semelhança da expurgada igreja evangélica. Há desigrejados por consciência, outros por malandragem, os por sanidade, alguns por preguiça, outros tantos por amor, vários por ódio, há os por reverencia, também há os por causa de birras ministeriais... Ser desigrejado é levar um pouco da seiva tóxica da igreja evangélica.

O movimento dos desigrajedos não é novo, apenas recebeu um raio gourmetizador na pós-modernidade, ganhando status pretencioso de remanescentes. A ideia de ser desigrejado também não é uma causa com identidade especifica, há uma heterogeneidade intrínseca, e mui provavelmente abarca incontáveis outras manifestações de descontentamento com a igreja evangélica. Até porque o que torna uma pessoa desigrejada é tão somente não mais se identificar com a igreja evangélica contemporânea. É até relativamente simples ser desigrejado, basta estar insatisfeito com os rumos da (pluri)igreja evangélica. Portanto, se os desigrejados não tomarem cuidado, é muito provável que estes se tornem na próxima curva do rio, lá embaixo, atraindo e acolhendo toda sorte de lixo que não mais quer se emporcalhar com os evangélicos. Afinal, é quase improvável que um ex-evangélico vá (ou volte) para alguma outra religião, por questão indenitária, conforme dito anteriormente.

Se a igreja evangélica brasileira se tornou um escombro de tranqueira a culpa é de todos nós, inclusive dos desigrejados. Até porque para ser desigrejado precisou ser, algum dia, igrejado. Contudo, ao contrário do que possa parecer, mesmo a despeito de todo lixo existente no contêiner igreja, acredito plenamente que Deus queira que a igreja evangélica seja esta curva no rio: suja, fedida e atrapalhada. É através das nossas limitações e desvirtudes que podemos desvelar Cristo, o perfeito. Não é quando somos bons que honramos Deus, mas sim quando reconhecemos que somos maus e que necessitamos diariamente da Graça. Não precisamos de um novo movimento, precisamos é de consciência de nossa podridão e importância do Caminho único, o Salvador. Não há necessidade do triunfalismo de sermos uma igreja de “santos lutando contra o pecado”, precisamos de uma igreja de pecadores lutando para ter santidade no presente século. E sobre todo este lixo evangélico, é bom que esteja ai, pois assim, cotidianamente, seremos seduzidos pelo lixo e isto desvelará as reais intenções dos nossos corações.

Não há apenas uma curva no rio. Há outras curvas mais atraentes, outras curvas com maior fluidez e outras curvas com belas flores, outras com galhos vigorosos. O rio é longo, e não estar engastalhado na curva dos evangélicos não torna alguém ou algum movimento mais aceitável, mais plausível perante Deus. Descer rio abaixo à procura de um novo movimento nas águas é coisa antiga, tem sim suas vantagens e também tem inúmeras limitações. Entretanto, o que poucos sabem é que cada vez que um lixo se desprende de uma curva do rio, este leva um pouco (quando não muito) da sujeira daquela referida curva. Da ilusão de pureza já tivemos demonstração suficiente do horror que é possível ser feito sob tais pressupostos, basta nos lembrar da curva do rio lá na Alemanha (refiro tanto a Lutero, quanto a Hitler – resguardo às devidas proporções e intenções).

Enfim, tenho convictas dúvidas se Deus quer que descemos o rio a procura de uma nova curva, que igualmente vai se emporcalhar. Talvez, nossa atual missão seja sermos o sal da igreja, retardando a putrefação desta. Talvez, nossa missão neste presente século seja ser a luz da igreja, evitando a cegueira total desta. Talvez, neste mundo tão evangelizado, precisemos voltar nossos olhos para a igreja e reenvangelizar. Talvez, seja o tempo de olharmos para trás ao invés de olhar pra frente. Talvez, seja o momento de pegarmos as enxadas, foices e rastelos, e então, começamos a limpar a nossa curva no rio, a começar de minhas próprias sujeiras e corrupções. Afinal, ainda há sete mil que não se dobraram a Baal (cf. 1 Rs 19:18). E convenhamos, sete mil enxadas, juntas, poderiam fazer uma boa limpeza...

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vs.seabra@gmail.com
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Artigo escrito em: 20 de Setembro de 2015